PT: 1985 E 2018

pt haddad e manuelaO PT acaba de confirmar Fernando Haddad como cabeça de chapa para a eleição presidencial. Manuela D’Ávila, do PCdoB, virá como vice. Parece que agora a campanha vai começar prá valer. Sem Lula na disputa. Porém, mesmo da prisão, muito além de poder ser o “fiel da balança”, Lula parece que continuará sendo um fantasma para seus adversários e inimigos, incluindo-se aí a a maior parte da mídia e setores do Judiciário. No entanto, a grande consequência da definição da chapa petista é o fato de que esse ato legitima o processo eleitoral. Significa que, mesmo não concordando, o PT aceitou as regras do jogo. Mas poderia não ter aceito. Poderia insistir com Lula até o fim e ser alijado da disputa. E, depois, questionar a legitimidade de um processo em que o Judiciário ignorou uma determinação de um Comitê da ONU que o próprio Estado Brasileiro comprometeu-se em cumprir. Talvez, em 2009, quando o Brasil aprovou o Decreto Legislativo 311, jamais imaginaria em que situação ele teria que ser cumprido. E tudo isso poderia ser dito, no futuro, quando a História julgaria o Judiciário.

Ao aceitar participar do pleito com um candidato que não era o da preferência do partido o PT, apesar de toda perseguição que vem sofrendo por parte do Judiciário, acabou rendendo-se às “regras do jogo”. Jogo de regras absurdas, é verdade. Porque, pela lei, Aécio Neves e Romero Jucá são “fichas limpas” e aí estão livres e soltos, como candidatíssimos. Apesar de tudo, ao “entrar em campo”, ou na “arena” com seu reserva, o PT acaba de legitimar o processo.

Tudo isso me faz lembrar de 1985, nos primeiros anos de existência do PT. A ditadura militar chegava ao fim, de forma negociada e sem traumas. Porém, um último Colégio Eleitoral deveria escolher o próximo Presidente da República. Que seria Tancredo ou Maluf. Isso, depois da frustração da campanha pelas “diretas-já” de 1984. Por isso o PT entendeu, em 1985, que qualquer forma de escolha do Presidente da República que não fosse pelo voto direto seria ilegítima. E assim, mantendo sua coerência, foi o único partido que não compareceu ao Colégio Eleitoral, não referendando, desse modo,  a eleição de Tancredo Neves. Que acabaria sendo a eleição de José Sarney. O PT seria, então, o único partido que teria lastro para questionar a legitimidade de Sarney.

Porém, a situação agora é outra. Sabe-se que o partido estava dividido em relação a qual procedimento tomar. Isso porque, também sabe-se que Lula venceria a eleição. Talvez, até no primeiro turno. Seus próprios inimigos e algozes sabem disso. Não participar da eleição, quando se tem como candidato aquele que era o líder das pesquisas e fatalmente venceria, seria ter um lastro semelhante ao de 1985 para não legitimar o pleito. Bastava insurgir-se contra as “regras do jogo”, como insurgiu-se em 1985 e não disputar a eleição presidencial.  Mas o PT resolveu, mesmo com seu reserva, “entrar em campo”.

Parece que a transferência de votos de Lula para Haddad já está acontecendo. Porque, se o titular, que teria a vitória praticamente assegurada foi vetado pelo Judiciário de participar, há uma chance real de o reserva sair vitorioso. A pesquisa do Datafolha divulgada hoje mostra isso. Mesmo sem apresentar-se oficialmente como candidato, Haddad foi o o que mais cresceu (5 pontos). Em grande parte, as chances reais de Haddad, há pouco menos de um mês das eleições, ir ao segundo turno, pesaram na decisão do partido. O que poderá advir dessa legitimação feita pelo PT ainda não sabemos. Mas o partido, e principalmente Lula, se consagrariam com uma vitória. Porém, no caso de uma derrota petista, o partido provavelmente se dividirá e poderá ser refeito. Algo tipo um “resetar” partidário. Novas lideranças podem e devem surgir. O PT preferiu arriscar-se em um jogo duríssimo. E agora tem que mostrar para o que veio. Até porque não existirá outro 1985 para o partido firmar qualquer questionamento em relação à legitimidade do pleito do qual aceitou participar.

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