POR UM BRASIL SEM BATMAN

batman2“Heróis matam”. (General Hamilton Mourão, candidato a Vice-Presidente da República na chapa de Jair Bolsonaro, em entrevista à Globonews, em 7 de setembro de 2018, ao referir-se ao seu “herói”, o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra). 

“Infeliz a Nação que precisa de heróis”. (Bertold Brecht, dramaturgo e poeta alemão, que viveu entre 1898 e 1956).

Na história oficial, os heróis sempre foram forjados para tirar do povo o seu protagonismo em relação aos acontecimentos e às transformações. Os protagonistas passariam a ser os “heróis” e o povo sequer seria coadjuvante. Porque ele teria mesmo é que ser figurante. A existência de heróis tira do povo o seu papel de sujeito da história. Torna o povo dependente, subjugado, conduzido. Especialmente em tempos de crises. Crises que, sejam quais forem as suas naturezas, são inerentes à existência humana. Assim surgiram “Duces”. Assim surgiram “Führers”.

A declaração do general Mourão em sua entrevista na Globonews, um dia após o atentado sofrido por Bolsonaro, no momento em que até os adversários querem mitigar o clima de tensão, aumentado após o episódio de Juiz de Fora, dá a entender que, mesmo após ser vítima de violência, a “chapa pau-de-arara” continuará pregando a própria violência. Por que alguém que na condição de agente público, que mata 47 pessoas sob a custódia do Estado, como fez Brilhante Ustra, pode ser chamado de “herói”? Isso no mínimo já seria, no contexto tenso em que vivemos, um belicismo provocador. Mas o general não se deu por satisfeito. E acrescentou que “heróis matam”.

Tudo isso me faz lembrar o personagem “Batman”. O homem-morcego surge como herói em um contexto de grande avanço da criminalidade na imaginária cidade de Gotham City. Coincidência ou não, Batman foi criado em 1939, ano em que teve início a Primeira Guerra Mundial. As tensões e crises mundiais levaram a uma tragédia que matou milhões de pessoas por ódio, racismo, homofobia, nacionalismo exacerbado. Gotham City também precisava de seu herói. E Batman conheceu na pele a violência quando, ainda criança, viu seus pais serem assassinados. A cena abominável fez Batman agir tal qual os assassinos de seus pais. Mas que herói é esse que comete os mesmos atos dos vilões?  Essa pergunta, fatalmente, desconstruiria o conceito de “herói” e Batman iria para o mesmo saco dos vilões fora da lei. Fico pensando se os parentes das 47 pessoas assassinadas por Ustra resolvessem se transformar em “Batmans”. Definitivamente não,  general. Heróis não matam. O general, pela sua formação, sabe que até em guerra existem regras. Por isso, existem crimes de guerra. E, igualmente, crimes de Estado, como os que foram cometidos pelo seu “herói”. E não estamos falando de Marighella, que não representava o Estado brasileiro.

O episódio de Juiz de Fora não estanca a polarização e as tensões no campo político-ideológico. Mas seria bom que ele não fomentasse ainda mais violência. Todos os adversários e opositores de Bolsonaro, inclusive esse que vos escreve, declararam repúdio ao atentado e solidariedade à vítima, repúdio esse também manifestado por entidades de defesa dos direitos humanos, como o Escritório das Nações Unidas Para Direitos Humanos e a Human Rights Watch.

Ainda é cedo para sabermos os desdobramentos do atentado contra Bolsonaro. Porém, algumas coisas parecem que são certas. Primeiro: a eleição continuará polarizada. Segundo: nesse momento, o que o Brasil menos precisa é de um Batman. Nossa democracia custou muito sangue e muitas vidas e precisamos mantê-la, ainda que cambaleante, com vida. Cheguei a temer por ela nas primeiras horas após o lamentável episódio de Juiz de Fora. Precisamos dar continuidade à campanha, com críticas, debates e tolerância ao contraditório. E que os “Batmans” permaneçam em suas cavernas imaginárias. Até porque já existe um “Coringa de Botox” entre os candidatos.

 

 

 

 

 

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