O PROFESSOR DE “ESTÓRIA”

pausa para refletirHoje Bolsonaro foi esfaqueado. E hoje eu tive a certeza de que o ódio tomou conta do país. Isso porque até em um momento que prestamos solidariedade e expressamos nosso repúdio ao atentado, somos hostilizados pelos seguidores de Bolsonaro. No momento em que soube do atentado, pela TV, escrevi no Facebook:

“Repudiamos o ataque a faca contra Bolsonaro. Essa via não é democrática!”

Era o mínimo que qualquer pessoa equilibrada e que cultiva os valores democráticos deveria fazer. Até porque estamos convictos, há tempos, de que as divergências políticas devem ser confrontadas no campo do diálogo, do debate e da argumentação. Ainda que seja com paixão. Os candidatos que fazem oposição mais contundente a Bolsonaro também manifestaram seu repúdio, como Guilherme Boulos. Porém, logo após o meu post ser publicado, um seguidor de Bolsonaro me hostilizou, desrespeitou e disse que meu post era hipócrita. Disse o cidadão, com um ódio inexplicável, num momento em que registrávamos nossa repulsa ao atentado:

“O professor de ESTÓRIA passa o ano todo atacando seus opositores os chamando de fascista, nazista… e agora, de maneira oportunista, me vem com esse post hipócrita.”

Respondi educadamente, pois jamais entrarei nessa onda que tomou conta do país, atacando ou agredindo as pessoas. E, nesse momento, o professor de “Estória” vai querer refletir e levar os leitores também à reflexão. Essa facada, infelizmente, já vem sendo gestada há algum tempo. O que aconteceu no país, especialmente nos últimos cinco anos?

Voltemos a junho de 2013. As chamadas “jornadas de junho” fomentaram a apropriação da extrema-direita de um movimento que não era dela. Há quem discorde dessa tese, porém, mantenho minha leitura sobre aquele momento, em que o fascismo recrudesceu. E, naquela ocasião, a extrema-direita foi cirúrgica.

No ano seguinte, o segundo turno da eleição presidencial definitivamente dividiu o país. Não pelo resultado, que foi quase que “meio a meio”. Mas pelo inconformismo dos derrotados nas urnas. Aécio prometeu: “Vamos incendiar o país”. E incendiou. Ele é um dos grandes responsáveis pela radicalização. Porém, “incendiar o país” foi apenas o início do ódio. Vimos pessoas comemorando a morte de dona Marisa, esposa de Lula. Após o assassinato da vereadora Marielle Franco, até uma juíza propagou calúnias sobre ela e afirmou, em tom de desdém, que ela era um “cadáver comum”. Houve até quem fizesse piadas sobre os assassinatos de Marielle e Anderson. Duas semanas após o assassinato de Marielle, a caravana do ex-Presidente Lula foi atacada a tiros no Paraná. Logo depois, a senadora Ana Amélia, hoje vice na chapa de Alckmin, recomendou aos seus conterrâneos gaúchos que “levantassem o relho” contra os petistas. E, esta semana, dois dias antes de sofrer o atentado, Bolsonaro falou que ia “metralhar os petralhas.” 

Pronto. Diante de 207 milhões de habitantes e 147 milhões de eleitores, muito dificilmente essa onda de ódio e revanchismo não traria consequências mais graves e, pior, de desdobramentos imprevisíveis. Algum tresloucado, em algum momento, apareceria.  E, infelizmente, apareceu hoje, vitimando um candidato a Presidente da República. Não abro mão de ser um opositor implacável de todas as ideias e práticas de Jair Bolsonaro. Porém também não abro mão de, nesse momento, reiterar o meu repúdio ao atentado sofrido pelo candidato, atentado esse que ameaça a democracia. Não abro mão de reiterar os valores democráticos. Não abro mão de fazer meus votos de que Bolsonaro se recupere o mais rápido possível e dispute as eleições com a plenitude de sua saúde. Ainda que eu seja chamado de hipócrita. Ainda que eu seja chamado de “professor de ESTÓRIA”.

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