MUSEU, TRAGÉDIA E POLÍTICA

incêndio do museu nacional

“Deixa os historiadores prá lá. Eu fico com o Roberto Marinho.” (Jair Bolsonaro, candidato neofascista à Presidência da República, em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, em 28 de agosto de 2018).

“Educação só se resolve queimando livro de Paulo Freire em praça pública de noite, com tochas e cerimônia de malhar seu boneco”. (Flávio Morgenstern, escritor bolsonarista, cujo verdadeiro nome é Flávio Azambuja Martins).

Certamente, as declarações acima bem refletem os sinais dos tempos sombrios e “inquisitoriais” em que vivemos. E, infelizmente, elas representam a a opinião de muitas “pessoas de bem”. Refletindo sobre as mesmas, iniciamos nosso artigo de hoje.

O Rio de Janeiro já foi capital do Brasil, entre 1763 e 1960. A exploração do ouro mudou o eixo econômico do então Brasil-Colônia do nordeste para o centro-sul e, pelo porto do Rio, o ouro era embarcado para a Europa. Mas o Rio de Janeiro também foi capital de um reino europeu. Isso, no período em que a família real portuguesa refugiou-se no Brasil, entre 1808 e 1821 e instalou-se na cidade. Aliás, a cidade “outrora maravilhosa” foi a única cidade não européia que foi capital de um reino europeu. Por muito tempo o Rio foi a vanguarda política e cultural do Brasil. Na época do bipartidarismo o Rio, então Estado da Guanabara, era a “pedrinha no coturno” do governo, pois o MDB, partido de oposição, sempre era o mais votado pelo eleitorado carioca. Até que eles acabaram com o bipartidarismo. Depois, acabaram com o Estado da Guanabara. E, hoje, temos um Estado do Rio de Janeiro capitulado, sob todos os aspectos. E, lamentavelmente, em vias de extinção.

A tragédia anunciada do incêndio do Museu Nacional que destruiu para sempre um inestimável tesouro histórico, arqueológico, antropológico, científico e cultural simboliza, em grande parte, todos os males que nosso Estado vem sofrendo. E não se trata, aqui, de querer usar a tragédia para fins políticos, porque simplesmente todo problema que levou à tragédia é, em si mesmo, político. E o assunto deve, necessariamente, ser explorado nas pautas de debates e entrevistas com todos os candidatos, especialmente os postulantes à Presidência da República. O problema é político porque passa, necessariamente, pela quase que total falta de recursos que o governo federal vem destinando à educação, ciência, cultura e pesquisa. O problema é político porque o discurso neoliberal identifica tudo o que é público e que esteja fora da lógica do “mercado” com um estorvo. O problema é político porque, além do neoliberalismo, ainda há o fascismo que, há algum tempo, vem demonizando arte, cultura e tudo o que possa representar nossa memória. Basta dizer que, recentemente, o candidato neofascista afirmou, em sua entrevista à Globo, para “deixarem os historiadores prá lá.” E, no mesmo dia do incêndio foi divulgada uma pesquisa que mostra que esse candidato tem a preferência do eleitor do Rio de Janeiro. Sinal dos tempos.

O problema, por ser político, deve ser enfrentado politicamente. Os deputados federais e senadores do Rio de Janeiro que votaram a favor da PEC do teto dos gastos públicos por 20 anos (eufemismo para corte de verbas na cultura, ciência e educação) são co-responsáveis pela tragédia. Qualquer manifestação de algum deles não passará de “lágrimas de crocodilo”. E, como se não bastasse, o Rio ainda capitulou, ao assinar, com esse mesmo governo federal que congelou os gastos por 20 anos, um “acordo de recuperação fiscal” que lembra o Tratado de Versalhes, ao qual a Alemanha submeteu-se de forma humilhante em 1919, depois de perder a Primeira Grande Guerra. Depois, o nazismo triunfaria na Alemanha, valendo-se de uma crise, subindo ao poder pelas escadas da democracia e levando ao governo um armamentista “salvador da Pátria”.

O Rio de Janeiro é um palco que, infelizmente, representa o caos que assola o país, às vésperas das eleições mais importantes desde o fim da ditadura militar. Tal como a Alemanha em 1919, o Rio capitulou na segurança, na educação, na saúde, nos transportes, na cultura. O “Tratado de Versalhes” assinado por Pezão rendeu o Rio às chantagens de um golpista corrupto. E, nesse aspecto, o Rio simboliza muito bem a situação do país em geral. Que nosso país não desemboque no mesmo destino da Alemanha pós-Versalhes!

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