ADÉLIO: TROFÉU OU TRUNFO?

autorização entrevista de adélioAdélio Bispo de Oliveira, um simples desconhecido até o dia 6 de setembro de 2018, entrou para a história do Brasil como o homem que tentou matar Bolsonaro em Juiz de Fora, depois de atingi-lo com uma facada. Evidentemente, as repercussões e até implicações políticas da tentativa de assassinato foram muitas. Chegaram a acusar o PT. O que chama a atenção é que a atual campanha eleitoral lembra, em quase tudo, o pleito de 1989. Mas será que outras  semelhanças ocorrerão na hora da decisão?

A Justiça autorizou veículos de comunicação a entrevistarem Adélio. O juiz Bruno Savino, da 3a. Vara Federal, entendeu em seu despacho que não há qualquer motivo que impeça o contato do criminoso com a imprensa. Detalhe: a revista Veja e o jornal O Globo estão interessados em entrevistar Adélio. A Veja já recebeu autorização, enquanto o pedido de O Globo ainda não foi analisado, mas a expectativa é de que seja concedido.

O que representa, afinal, Adélio? E o que estaria por trás do interesse das entrevistas? Para os séquitos de Bolsonaro, Adélio será para sempre um troféu. Preso, ele personifica alguém que tentou matar um candidato: ele é a intolerância, a insensatez, o ódio. Era tudo que de que os bolsonaristas precisavam. É uma “relíquia do mal”, para, eternamente, servir de contra-exemplo. Porém, seria ele apenas um “troféu da intolerância” a ser exibido pela extrema-direita?

Há alguns dias, logo após a autorização da Justiça para entrevistar Adélio, algumas especulações estão sendo veiculadas, especialmente em relação ao dia em que a entrevista seria levada ao ar. Que interesse e, principalmente, que influência, essa entrevista poderia ter no processo eleitoral? Existem rumores, ainda não confirmados, de que a entrevista poderia ir ao ar no dia 5 de outubro, a sexta-feira que antecede a eleição. Caso Adélio faça alguma declaração bombástica que afete qualquer candidato, este não poderia se defender, pois o horário eleitoral já teria se encerrado. Acrescente-se a isso o fato de que a Veja e O Globo são veículos assumidamente antipetistas, sem querer antecipar qualquer juízo. Quem poderia se beneficiar dessa situação?

Adélio pode virar um “trunfo”. Um trunfo sujo, abjeto, subterrâneo, como os que foram usados pela mesma Globo a favor de seu candidato, Fernando Collor, em 1989. Tudo lembra Mirirm Cordeiro, a ex-namorada de Lula que foi paga para, às vésperas da eleição, dizer que o petista pressionou-a para fazer um aborto. Ou ainda o sequestro do empresário Abílio Diniz, na véspera do pleito, em que os sequestradores foram vestidos com camisas do PT. Adélio poderia ser aquele “ás de trunfo” do carteado de sueca, que viraria o jogo quando este estivesse perdido. O deputado do PSL, Fernando Francischini, protocolou um pedido tentando impedir a entrevista. O que mostra que a mesma não interessa a Bolsonaro. Curioso é que a ridícula “Carta de FHC” foi divulgada logo após a concessão da entrevista pela Justiça. FHC pede, em sua carta, que ele depois disse ter os eleitores como destinatários, uma “união por candidatos de centro”. Mas destacou o Alckmin como aquele que preenche os requisitos de sua desesperada súplica.

É possível conjecturarmos que a tal entrevista seja um último trunfo tucano. Pode até não ser, mas seria muita coincidência a “Carta de FHC” ser publicada logo depois da autorização da entrevista. O que Adélio poderá dizer? O que a Veja e O Globo querem? 1989 está logo ali atrás. Miriam Cordeiro, Abílio Diniz, aborto e sequestro. E, agora, Adélio Bispo de Oliveira e a fatídica facada. Será que a história vai se repetir, desta vez como farsa?

ATÉ O LE MONDE JÁ PERCEBEU

le mondeNa semana em que pipocaram propostas estapafúrdias de Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga” do candidato da extrema-direita a Presidente da República, pensávamos que os absurdos ficariam só na economia. Depois de vazarem suas propostas sobre a volta da CPMF, o “terror das empresas e pessoas físicas” e da unificação da alíquota do imposto de renda na fonte em 20% o que, na prática, significaria que quem ganha menos pagará mais e quem ganha mais pagará menos (sic!), agora foi a vez do “Posto Ipiranga” falar de sua proposta para o que ele chama de “governabilidade”. Na verdade, Paulo Guedes já começa a querer sedimentar propostas para, em doses homeopáticas, ceifar as instituições democráticas e impor, “no tranco”, o que deveria ser alcançado pelo diálogo com a sociedade e seus representantes.

Imagine um partido político microscópico, como o PSL, que possui apenas 8 deputados federais em um total de 513. Agora, imagine o PSL chegando ao poder. Como aprovar as propostas? Acabando com o poder do Congresso. Mas como? Foi então que o Paulo Guedes propôs o tal voto programático de bancada. Para quem ainda tinha dúvidas, essa proposta seria um dos atalhos para a implantação formal de uma ditadura no Brasil, o que não chega a ser novidade em se tratando de Bolsonaro. Pela proposta de Paulo Guedes, todos os votos de um partido seriam computados a favor de um projeto se mais da metade da bancada tiver votado a favor. Por exemplo, se um partido tiver 30 deputados e 16 deles votarem a favor, todos os 30 votos seriam contados a favor, ignorando-se os outros 14 votos contrários. O voto do parlamentar não seria respeitado e isso lembra muito bem a ditadura militar, quando o voto de liderança bastava para se ter o total dos votos. Tudo em nome da “governabilidade”. Ou seja, mesmo sem estar no poder, as propostas do “Posto Ipiranga” do Bolsonaro já ameaçam o Legislativo e a democracia. Ainda não avisaram a eles que governabilidade é algo que se alcança com diálogo, negociação e até recuos. Isso faz parte da democracia e do jogo político e nada tem a ver com compra de votos. Já pensaram em um deputado votar “não” e o voto dele ser computado como “sim”?

O que chama ainda a atenção é que Paulo Guedes afirma com todas as letras que combinou essa proposta com Rodrigo Maia, Presidente da Câmara, que agora nega tal acordo.  Esse expediente aniquila as minorias e o contraditório. Não dá voz àquilo que é “contra”. O mandato popular, delegado pelo povo, perde o seu poder. Seria o “superpoder” do partido sobre cada parlamentar. Seria a sentença de morte da diversidade. Segundo Paulo Guedes, essa proposta deveria ser complementada com uma rigorosa cláusula de desempenho que, em suas próprias palavras, levaria, lá na frente, “a quatro ou cinco partidos”. Receio que, depois, chegássemos apenas a um.

Pouco a pouco as propostas da extrema-direita vão sendo lançadas e não estamos diante de nenhuma conspiração. As desastrosas declarações de cunho preconceituosos, racistas, golpistas e ameaçadores do general Mourão e agora as propostas de reforma tributária e política de Paulo Guedes foram afirmadas, comprovadas e divulgadas em todos os veículos de comunicação. Talvez, para o Senado, é bem provável, pelo teor das propostas, que uma das próximas seja a volta dos “senadores biônicos”, um outro artifício anti-democrático criado pela ditadura militar para garantir a maioria, embora não a tivesse.

Só não vê quem não quer. Ou então teremos que acreditar que esse turbilhão de séquitos da extrema-direita tenha, cada um, a sua “recôndita porção fascista”, que talvez seja revelada até em um ato falho. Aliás, depois do The Economist, agora foi a vez do Le Monde estampar em sua capa o título “O inquietante crescimento da extrema-direita no Brasil”. Tudo por causa do ódio ao PT. Dito pelo próprio jornal francês. Você pode acreditar nisso e não é apenas dentro do Brasil que está sendo notado. Ou então pensar,  para sempre,  que 16 é igual a 30. Palavra do “Posto Ipiranga”.

 

O “MATEUS” DOS GOLPISTAS

a carta de fhc

A carta publicada por Fernando Henrique Cardoso na última quinta-feira, dia 20, contra o que ele chama de “perigosa radicalização” e conclama para uma união das candidaturas de centro, visando “evitar que o barco naufrague”, chega a ser risível, para não dizer debochada. FHC diz estar preocupado com a radicalização, especialmente depois do crescimento (já esperado) de Haddad, que tem tudo para ir ao segundo turno com o candidato fascista. O candidato dele, da Globo e de seus parceiros do “mercado” é que naufragou. E, com o naufrágio do barco tucano, cheio de golpistas a bordo, que ajudaram a gerar o câncer fascista, agora ele pede que os eleitores corrijam as consequências desastrosas do golpe que ele e seus séquitos fomentaram, executaram e fizeram parte do butim.

“Quem pariu Mateus que o embale”, diz um velho ditado. Bolsonaro e o avanço fascista no Brasil são resultado de uma situação que começou a ser provocada pelo próprio PSDB, em 2014, ao não aceitar o resultado eleitoral. Depois, a sabotagem ao governo Dilma foi deliberada. Lembram das “pauta-bombas”, levadas adiante por PSDB e seus aliados no Congresso, especialmente Eduardo Cunha, que presidia a Câmara dos Deputados? E a “demonização do PT“, que levou a um doentio e desinformado “antipetismo”, em que o “o negócio era ser contra”, desde que fosse do PT? Todo esse terreno facilitou a crise e a ascensão do “Salvador da Pátria” que ele agora diz temer (sem trocadilho com o nome do golpista-presidente). FHC, em sua ridícula carta, ainda dá uma “forcinha” para o seu falido candidato (que poderia estar eu outra situação, se não fosse o “golpe autofágico”), ao dizer que “Alckmin veste o figurino da união contra os extremos”.

FHC, se tivesse mesmo sido bem intencionado, teria usado sua liderança e influência nas hostes tucanas e seus satélites, para evitar que se formasse o câncer fascista. Ele não o fez em 2014. Ele não o fez em 2016. Então, formou-se o embrião da atual situação, que foi o golpe, do qual ele teve participação direta e fundamental. Bolsonaro é fruto de tudo isso. Eles queriam tirar a Dilma. E, tanto fizeram, tanto fizeram que acabaram mesmo foi fazendo a cama para o fascismo. Sua carta nada mais é do que a expressão do desespero dos tucanos, que acabaram de apodrecer no governo Temer e viraram figurantes na eleição presidencial. De nada adiantaram o fogo do Aécio e o relho da Ana Amélia.

Agora é tarde. E, se sua missiva deve ter algum destinatário, deve ser seus próprios próceres golpistas, espalhados pelos partidos que apoiaram o golpe, a mídia, o grande empresariado e os norte-americanos de olho no pré-sal. Você FCH, bem que poderia seguir o exemplo do Jereissati e fazer a “mea culpa”. Ficaria mais elegante. Querer agora jogar nas costas do eleitor a responsabilidade chega até a ser covardia. Mesmo porque o eleitor consciente está fazendo o seu papel, que é reparar nas urnas o estrago que você e seus comparsas fizeram com o golpe. O resto, é “conversa para boi dormir.” Esse “Mateus” não é do eleitor, que deu seu recado em 2014 e está dando, novamente, agora. E, quem o pariu, que o embale. E, com toda certeza, quem o pariu não foi aquela que, geralmente, muitos chamam de “puta”.

“ELE” POR “ELES”

the economist“Bolsonaro, cujo nome do meio é Messias, promete a salvação; na verdade, ele é uma ameaça para o Brasil e para a América Latina”. (Editorial da revista The Economist).

Um candidato socialista, ou de qualquer matiz ideológico da esquerda, ser considerado uma ameaça por uma revista que é uma das referências do neoliberalismo no mundo, não é nenhuma novidade. Mas a afirmação acima é sobre Bolsonaro e feita por ninguém menos que a revista britânica The Economist. O semanário, fundado pelo empresário e economista liberal James Wilson, em meados do século XIX, remonta a uma época em que as ideias socialistas começavam a ganhar terreno entre os trabalhadores, em plena expansão da Revolução Industrial.

O semanário britânico pode ser considerado uma das “revistas de cabeceira” de todo neoliberal que se preze. É inegável que o Brasil passa por uma grave crise, terreno propício para o surgimento de “salvadores da pátria”, que se apresentam como “o novo” e que, independentes de partidos ou do debate com a sociedade, seriam capazes de trazerem de volta a “ordem”. Os populistas, geralmente, são encantadores de desiludidos, de desesperados e, no caso de Bolsonaro, daqueles que dizem ou pensam que as soluções políticas acabaram. “Chama o homem!”, “Chama o mito!”, “Chama o general!”. O Brasil estaria acima de tudo e Deus, acima de todos. Mas ele seria o “mortal ungido”, como o próprio já declarou em um tresloucado rompante teocrático, ao dizer, em uma entrevista no início de agosto, que teria sido “enviado por Deus”. A facada da qual foi vítima poderia até reforçar essa “nova teoria do direito divino”, em uma suposta luta do “bem” contra o “mal”.

O semanário não poupa palavras e diz que a situação ainda pode piorar, caso o populista de extrema-direita seja eleito, quando diz que “se a vitória for para Bolsonaro, um populista de direita, o Brasil corre o risco de tornar tudo pior”.

Mas a declaração do The Economist, que está em um Editorial e, portanto, expressa a posição oficial do veículo de comunicação, não deve ser vista apenas sob o aspecto econômico, para o qual o próprio Bolsonaro já afirmou não ter qualquer preparo. Ele não soube nem se expressar sobre o mais elementar da economia do país: o tripé macroeconômico. Mas o aspecto político nos interessa. Porque, sabidamente, quando um veículo que é a expressão do liberalismo critica fortemente alguém que é anticomunista, então isso significa que os liberais o vêem como fascista, o que realmente ele é.  Ainda segundo o semanário, sua vitória colocaria em risco a sobrevivência da própria democracia no Brasil. O recado agora foi dado não por petista, comunista ou esquerdista. E sim por “eles”, do outro lado do campo político-ideológico. Foi tão somente a descrição “dele” por “eles”. E ainda vem por aí “ele” por “elas”. Mas isso é assunto para mais tarde.

 

 

PLEBISCITO E O PREÇO DO ÓDIO

ptletra xfascismoAcabou a eleição. Teremos, isso sim, já no primeiro turno, um plebiscito, que continuará no segundo turno. A pesquisa do Ibope divulgada ontem mostra o que já era esperado: o candidato do PT, Haddad, subiu 11 pontos em uma semana, indo para 19%. Bolsonaro subiu 2 pontos e está com 28%. Ciro estacionou nos 11% e os demais ex-protagonistas (Alckmin e Marina) despencaram e já podem ser considerados fora da disputa. Alckmin tem 7% e Marina 6%. A simulação de segundo turno entre Haddad e Bolsonaro impressiona. Empate numérico, e não técnico, como na pesquisa anterior: 40% X 40%. Os números dispensam maiores comentários e corroboram o que vem acontecendo desde 2014: o país está dividido, literalmente rachado. Embora, a todo momento se repita que o Brasil possua 35 partidos políticos, hoje só existem dois lados: o petismo e o fascismo. Ou, se quiserem considerar pela negação: o antipetismo e o antifascismo.

Há quem lamente tal situação. Porém, a maior parte daqueles que lamentam o ponto a que chegamos, certamente tem a maior responsabilidade pela situação. Por que candidatos alternativos não crescem, ao contrário, cada vez estão sendo mais alijados da disputa? O que explicaria tal situação?

Voltemos a 2013: há quem discorde, mas nossa leitura sobre as “jornadas de junho” vai no sentido de que, ali, foram semeados todos os ingredientes para o crescimento da extrema-direita, até então adormecida em seus “pequenos mundos”. Naquela ocasião, já que era para “ir à ruas”, então eles também foram. Ali foram gestados o “Vem prá rua”, o “MBL” e outros movimentos de viés fascista que seriam fundados no ano seguinte. Porém, eles não estavam sozinhos. Diversos partidos e empresas apoiaram (e ainda apoiam) esses grupos política e financeiramente. A direita soube aproveitar-se de uma pauta difusa e de uma autêntica falta de liderança das esquerdas e, por isso, apropriou-se de um movimento (e de um momento) que, originariamente, não eram dela. Nisso resultou 2013.

Em 2014, logo após o resultado do segundo turno da eleição presidencial, já se tinha ideia do que viria pela frente. Aécio e grande parte do PSDB começavam a plantar o golpe, a “toque de fogo”. Palavras de quem falou, literalmente, que “iria incendiar o país”. Eles não digeriram a derrota nas urnas. A partir principalmente de 2015, a Operação Lava Jato parecia só ter olhares para o PT e seus aliados. Com apoio da mídia, que já tinha saído do armário desde a eleição de 2014, não foi difícil escolher quem encarnava a corrupção no Brasil: claro, o PT. É nítido e cristalino que, por um bom tempo, tucanos foram poupados pela Lava Jato e protegidos pela mídia.

Chegamos em 2016 e a direita voltou às ruas. Fortalecida, apoiada pela mídia e pela FIESP e com uma certeza: “Vamos tirar a Dilma!” Porém, assim como a esquerda pensava que estivesse sozinha nas ruas em 2013, a direita também pensava que agora, em 2016, “a festa era só dela”. Enganou-se. Ali na Avenida Paulista e em outros costados do Brasil também estava a extrema-direita fascista e intervencionista. Eles cresceram.  E se agigantaram quando a desesperança bateu forte, ao constatar-se que o governo Temer e seus aliados, levado ao poder por PSDB, PMDB, MBL, FIESP, Organizações Globo, não seria nada daquilo que se auto-proclamaram. Então, a extrema-direita, que já tinha crescido, se agigantou: Bolsonaro é fascista e muitos de seus seguidores também. Porém, não apenas fascistas, mas desiludidos, descrentes do que chamam de “políticos tradicionais”, vêem o descarrego de seus votos no fascismo como uma última alternativa, uma derradeira esperança. Tal qual em outros momentos da história. O resultado de tudo isso foi que eles próprios, da direita neoliberal, se destruíram com o golpe, com o ódio e com a massificação do antipetismo. Mal sabiam eles que preparavam a cama para a extrema-direita. Usando uma metáfora: a autofagia da direita liberal produziu o câncer fascista.

Porém, do outro lado, muita gente viu que a alcunha de “símbolo da corrupção” para o PT, que a mídia tentou passar, não “colava”. Escândalos de corrupção, ataque aos trabalhadores, retirada de direitos. Mas não era só tirar a Dilma? A própria revista Época, tentáculo das Organizações Globo, já publicou uma matéria sobre os “patos arrependidos”. FHC já reconheceu o erro. E, na semana passada, Tasso Jereissati, cardeal tucano, também reconheceu o erro e o golpe, em entrevista ao “Estadão” no último dia 13 de setembro. Tudo muito tarde. E todos eles já estão  pagando, em função da sinuca de bico em que se enfiaram: a de terem que escolher entre o PT ou o fascismo. Já se percebem, claramente, movimentações no tabuleiro político e negociações precoces, que só caberiam após 7 de outubro, em virtude da bifurcação a que o quadro político chegou.

Assim, se em 2013 a direita se apropriou do que era da esquerda, em 2016, a extrema-direita se apropriou do que era da direita. Chegamos, então, a uma situação  onde não cabem meias-palavras: teremos que optar entre o petismo e o fascismo. Mesmo que não sejamos petistas. Mesmo que não sejamos fascistas. Apesar de, agora, algumas pessoas estarem saindo do armário e, usando o antipetismo como álibi, mostrando suas verdadeiras caras. Algumas já “fossilizadas”, mas que, apesar do tempo, remontam a golpe, ditadura, torturas e mortes, e que pretendem nos levar de volta, por um túnel, a um passado que, pensávamos, só voltaríamos a visitá-lo nos livros de história.

 

 

O GENERAL E A “MULAMBADA”

brasile e angola“Partimos para aquela diplomacia que foi chamada de sul-sul, e aí nos ligamos com toda a mulambada, me perdoe o termo, existente do outro lado do oceano e do lado de cá que não resultaram em nada.” (General Hamilton Mourão, candidato a Vice-Presidente da República na chapa pau-de-arara, em palestra no Sindicato da Habitação, em São Paulo, em 17 de setembro de 2018).

“Mulambo” é um termo de origem angolana e era utilizado pelos senhores para se referirem aos seus escravos. A palavra significa “farrapo” ou “pedaço de pano velho”, enfim, algo desprezível. Nada mais natural do que os senhores de engenho assim tratarem seus escravos. “Mulambada” seria, então, o coletivo, ou seja, uma “comunidade de mulambos”.

Mais uma vez, mostrando o seu viés racista, o general Hamilton Mourão, ao criticar a diplomacia e acordos de cooperação feitos pelos governos anteriores, afirmou que o Brasil não deveria ter se ligado a “essa mulambada do outro lado do Oceano”, referindo-se aos países africanos. Que ele criticasse governos anteriores. Que ele criticasse acordos e a política internacional de governos anteriores. Mas chamar os países africanos de “mulambada” é desferir mais um golpe de desapreço, ódio e, principalmente, racismo contra nossos irmãos africanos. Muitos dos ancestrais de quem ele chama de “mulambada” ajudaram, com seu suor, sangue e trabalho a construir grande parte da riqueza de nosso país e da qual os seus descendentes não desfrutam. Ele também referiu-se à “mulambada do lado de cá”, ao menosprezar os povos vizinhos da América do Sul, muitos de origem indígena.

As palavras de Mourão, tanto com as de Bolsonaro, com um racismo explícito, já não impressionam mais, até porque o Judiciário já definiu que dizer que “um quilombola pesa 7 arrobas e nem serve para procriar” não é racismo. Então, “porrada na mulambada“, dirão eles.

É lamentável o nível rasteiro ao qual chegou o discurso dos fascistas. Depois das “arrobas”, agora é a “mulambada”. Ano passado, no mesmo tom, Trump chamou esses mesmos países de “países de merda”. Já dá para entender o tom da “diplomacia pau-de-arara”. E com quem eles vão se entender muito bem. Esse patriotismo servil nós já conhecemos. “O petróleo é deles”. Pergunta ao Posto Ipiranga…

 

1989, 2018 E O SEGUNDO TURNO

eleição 1989eleição 1989 segundo turnoO atual quadro político-eleitoral do Brasil lembra, em muitos aspectos, o ano de 1989. Ano emblemático na história de nosso país, 1989 foi o ano da primeira eleição direta para Presidente da República após o fim da ditadura militar. A ansiedade, em razão do jejum democrático, era imensa. Só para se ter uma ideia, em 1989, todo brasileiro que tivesse até 46 anos de idade, jamais tinha votado para Presidente da República. Essa vergonha histórica foi um dos saldos da tirania das casernas.

Naquele ano, a desilusão com as mazelas do governo Sarney levou ao surgimento de um então “salvador da Pátria”, lançado por uma sigla nanica, de aluguel e desconhecida: o PRN. Fernando Collor, candidato sem tradição partidária, com um discurso agressivo e personalista ainda não falava em tiros, mas dizia que daria um “cruzado de direita” na inflação. Ele aglutinou diversos setores da direita mais reacionária em torno de sua candidatura. Hoje, um novo “salvador da Pátria” também se apresenta, por uma legenda igualmente nanica, desconhecida e também de aluguel, que é o PSL. Bolsonaro também adota a linha personalista, não tem tradição partidária e, aproveitando-se da desilusão de muitos com a política, soube ocupar um vácuo que atraiu em torno de si desde fascistas até desesperados sem rumo e que vêem na força a solução para os seus problemas. O “mito” virou “guia” ou “Duce”.

Se em 1989 o contexto internacional foi aproveitado pelos adeptos da direita, pois o momento coincidiu com a queda do Muro de Berlim e a fragmentação da antiga URSS, hoje a extrema-direita também prega a demonização do socialismo. Collor repetia, com prazer, o episódio da queda do Muro de Berlim, esquecendo-se de outros “muros” da época como, por exemplo, o do muro racista da África do Sul. Hoje, a direita e a extrema-direita exploram as contradições do governo venezuelano mas omitem, por exemplo, o “paraíso neoliberal” da Argentina de Macri.

Mas talvez o aspecto mais emblemático que nos leve às reminiscências de 1989 é a disputa eleitoral. Se em 1989, o candidato da direita liderava as pesquisas, agora quem lidera é o da ultra-direita. Em 1989, Lula, pelo PT e Brizola, pelo PDT, disputavam a ida ao segundo turno. E, pelo que temos visto até aqui, PT e PDT disputam voto a voto a passagem para o segundo turno. Haddad e Ciro, em grande parte, disputam a mesma fatia do eleitorado e, com certeza, um herdará os votos do outro em um segundo turno. As últimas pesquisas indicam que Ciro teria maior capacidade de derrotar o candidato fascista, embora apareça atrás de Haddad. A pesquisa CNT/MDA, divulgada ontem, coloca Haddad com 17,6%, contra 10,8 de Ciro.

Não podemos esquecer do que poderá representar tanto o PSDB como seus eleitores, com os tucanos fora do segundo turno. Tudo leva a crer que, tal como em 1989, o PSDB não irá ao segundo turno. Em 1989, tínhamos um outro PSDB: recém-criado como dissidência do PMDB, e disputando sua primeira eleição, o PSDB de então honrou sua origem social-democrata e apoiou Lula no segundo turno. E agora, que caminho tomaria o PSDB?

O segundo turno das eleições brasileiras, há tempos, vem tendo um caráter plebiscitário ou de veto. Arrisco-me a dizer que caminham para o segundo turno Bolsonaro e Haddad. Assim, raciocinando por analogia, essa seria mais uma coincidência esperada em relação a 1989. O que faria o PSDB? Seria antipetista ou antifascista? Ter que optar entre votar no PT ou em Bolsonaro em um eventual segundo turno,  é uma situação em que o PSDB se meteu por ter se afastado completamente de suas origens. E também por ter estado à frente do golpe. Eles próprios já admitiram que o caminho do golpe foi um erro. O segundo turno poderá dizer muito do que os tucanos querem daqui para frente. A menos que o ódio continue a falar mais alto. Aí então teremos a certeza de que a eleição de 2014 realmente ainda não acabou…