OS SOLDADINHOS DE CHUMBO

escolas militarizadas“A permanência dos estudantes no colégio se dá por pressão dos pais, não por vontade própria. A liberdade de expressão e pensamento viraram palavras “proibidas” entre os alunos. Aqui ninguém tem o direito de pensar livremente.” (Depoimento de uma aluna do terceiro ano do ensino médio do Colégio Waldemar Mundim, em Goiás, que foi militarizado por iniciativa do governador tucano Marconi Perillo, em entrevista publicada na Revista Época, edição 1047, página 43).

A militarização das escolas não é um fenômeno recente. Em 1933, quando Hitler tomou o poder na Alemanha, essa foi uma de suas primeiras medidas. Modelar o pensamento, excluir a crítica e a diversidade, ceifar o o direito de pensar, como expressou a aluna que não quis se identificar em seu depoimento que abre esse artigo são, basicamente, os seus objetivos. Disciplina, submissão, obediência cega. Transformar escolas em quartéis tem sido uma das repetidas propostas do candidato neofascista à Presidência da República, Jair Bolsonaro. E essa proposta, de cunho essencialmente nazista, foi repetida por ele no debate promovido pela Band, na última quinta-feira.

Em 1933, Hitler expulsou alunos judeus das escolas. Professores também foram excluídos. As escolas transformaram-se em um centro de propagação da doutrina nazista e, seus alunos, em “soldadinhos de chumbo” que, no futuro, teriam que usar seus aprendizados para exterminarem os “impuros” e “inferiores”. O que está por trás da transferência da administração de uma escola da Secretaria de Educação para a Polícia Militar? O que faz um governo tirar um diretor de escola e substituí-lo por um coronel da PM? Talvez não seja difícil responder, principalmente em nosso caso, que vivemos há mais de 30 anos em escolas públicas. Falta tudo: desde professores e funcionários de apoio até material básico. Em muitas escolas públicas, estaduais ou municipais, o diretor também é porteiro, inspetor e,  muitas vezes, pela carência de docentes, ele assume uma turma. Evidentemente, tudo isso influi no desempenho, disciplina, formação e qualidade do ensino. Compromete toda gestão. Perguntem aos professores. Perguntem aos diretores. Perguntem aos alunos. Já disseram certa vez que a degradação das escolas públicas não é algo casual ou conjuntural. É um projeto. Então, vamos chamar os “milicos” e tudo estará resolvido. Esse é o mote.

As experiências de militarização das escolas, em alguns estados do Centro-Oeste e da Região Norte, vêm sendo citadas como solução para a educação. Tira-se tudo o que restava dela. As escolas, que já não tinham professores, material e funcionários de apoio, passam para uma direção militar. O pensamento crítico, a diversidade e a liberdade de expressão são banidos. Os grêmios estudantis também. Professores barbudos? Nem pensar. Professoras com  “acessórios extravagantes”? De modo algum! Cor do esmalte das meninas e dos cabelos devem revelar algo muito sério e suspeito. Meninas só podem usar “rabo de cavalo”. “Cores extravagantes” nem pensar (olha aí o vermelho demonizado!). Tudo em razão da educação férrea e das cores em “tons plúmbicos”, que devem caracterizar os futuros “soldadinhos de chumbo”.

Percebe-se ainda que tais modelos de escolas militarizadas também são um caminho para a privatização das mesmas. Há, em muitos casos, cobrança de taxas de matrículas e contribuições que, oficialmente, dizem ser “espontâneas”. Mas sabemos como essas coisas funcionam. A cobrança de taxas e de mensalidades parece ser uma das regras. Essa verdadeira “intervenção militar” no ensino de alguns estados vem sendo questionada por entidades que representam os profissionais da educação e sabe-se que, em muitos casos, princípios legais são violados. Desde os mais simples, como a liberdade de expressão, até princípios e valores laicos e republicanos que, legalmente, devem embasar a educação nacional.

Mas o candidato neofascista vai além. Ele já havia afirmado que implantaria o ensino à distância, desde a alfabetização, passando pelo ensino fundamental e médio. Tudo devidamente padronizado. Seria, então a “liberdade de escolha”: ou o estudante será um robô teleguiado, não indo à escola ou, então, frequentará a escola para transformar-se em “soldadinho de chumbo”. Socorro, George Orwell! Será que o “1984” pode ser agora?

 

 

 

 

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