GLOBO, DESCULPAS E A COBRA CRIADA

marx

“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.” (Karl Marx, Dezoito Brumário de Louis Bonaparte, 1852.)

São recorrentes os casos de criaturas que se voltam contra seus próprios criadores, incentivadores ou meros tolerantes que, em épocas pretéritas, “fingiram que não viram”. Bin Laden é um desses casos. Criado, apoiado e financiado pelos Estados Unidos, quando da intervenção soviética no Afeganistão em 1979, a “criança cresceu”. E o criador sentiu na pele a obra de sua criatura em 11 de setembro de 2001.

Ao final da sabatina com Bolsonaro, na última sexta-feira, a Globo “pediu desculpas”. Após uma sequência de deploráveis, porém previsíveis declarações do candidato ultra-direitista, o “grande duelo” ficou para o final, com a jornalista e mediadora Miriam Leitão, que já tinha sentido na pele o que era enfrentar uma cobra (réptil) em um cubículo de tortura na época da ditadura, agora teria que enfrentar outra cobra, que cresceu em grande parte às custas do império de Roberto Marinho. Miriam teve que ler um editorial “ad hoc”, no qual a Globo reconhecia como um erro ter apoiado o golpe de 1964 e a ditadura militar. Isso, depois de Bolsonaro ter mostrado como O Globo, à época, apoiou o golpe.

Bolsonaro não é um fenômeno personalista. É um fenômeno histórico. Se não fosse ele, seria outro exercendo o mesmo papel. Assim como foram Hitler, Mussolini, Franco e Salazar. Todos foram fenômenos históricos, fomentados por conjunturas que os favoreceram, especialmente as crises, as desilusões e os incentivos de “demonizações das esquerdas”, dentro e fora do país. As Organizações Globo, ao longo de toda sua existência, desde o jornal, fundado em 1925, até a TV, surgida em 1965 (presente da ditadura a seu aliado), nunca esteve do lado do povo e sempre abafou escândalos dos governos militares, apoiou o AI-5, não se manifestou sobre as torturas e desaparecimentos de presos políticos, não denunciou qualquer arbitrariedade. Enquanto isso, mamava nas tetas da Caixa Econômica com empréstimos nababescos. Demonizando as esquerdas, as Organizações Globo, com seu poder de influência, fazia o que poderíamos chamar de “jornalismo engajado”, de apoio ao grande capital estrangeiro e à entrega do Brasil ao domínio colonial do capitalismo internacional. Enquanto isso, a oposição era rotulada de “subversiva”, “alinhada de Cuba e da URSS”. Mas nada foi dito, por exemplo, sobre a “Aliança Para o Progresso” e seu colonialismo político e cultural em nosso país. Contestar o regime militar, por mais tênue que fosse a crítica, era ser “comunista subversivo”. Enquanto isso, Bolsonaro planejava explodir a adutora do Guandu e agitava as casernas com seus movimentos de indisciplina e insubordinação. Enquanto isso, a direita explodia bomba na OAB, matando dona Lyda Monteiro. Enquanto isso, a mesma direita explodia bomba na Câmara Municipal do Rio. Enquanto isso, terroristas militares da ultra-direita tentaram consumar o malogrado atentado ao Riocentro. Mas parece que a Globo só via um lado. “Subversivos e terroristas” eram os “da esquerda”. Muita coisa ela “não via”. Como “não viu”, recentemente, um show com mais de 100 mil pessoas nos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro.

O jornalismo que não é independente e aberto ao pluralismo não contribui para a democracia. A Globo fez várias opções, porém, sempre do mesmo lado e, por isso,  deve muitas desculpas, que, no entanto, jamais apagarão suas relações obscuras. Eles protagonizaram o Escândalo da Proconsult. Eles apoiaram Collor e ultrajaram Lula em 1989.  Apoiaram FHC por duas vezes. Apoiaram Alckmin, Serra e Aécio. Apoiaram o golpe de 2016, que frutificou no governo mais corrupto da história. Eles devem muitas desculpas. E parece que a fatura jamais será paga. Por ora, no entanto, eles que embalem uma das muitas cobras toleradas e esquecidas pelo “jornalismo independente” que dizem praticar.

E, se a história se repete mesmo, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa, como nos ensinou o velho Marx,  Miriam teve que enfrentar novamente a cobra, desta vez a que foi criada e tolerada por seus patrões. Desta vez, como preposta de seus patrões. Desta vez, como porta-voz de seus patrões. Talvez, a reencarnação daquela que Miriam Leitão teve que enfrentar nos porões da ditadura. Só que, agora, no confortável estúdio da Globo.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s