ÁLVARO DIAS, HERÁCLITO E VITRINE

heráclito

“Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos.” (Heráclito, filósofo grego pré-socrático, que viveu entre os séculos VI-V a.C.)

Assisti a boa parte da entrevista de Álvaro Dias na Globonews. O candidato do Podemos à Presidência da República sabe que suas chances de vitória são bem próximas de zero. Mas Álvaro Dias não é bobo. Ele tem mandato de senador da República até 2023, independentemente do resultado da eleição. Assim, ele não tem absolutamente nada a perder. Pelo contrário, só tem a ganhar. É o que chamamos de “candidatura de vitrine”. Com entrevistas, debates, horário eleitoral, o senador do Paraná terá uma visibilidade em todo o país e poderá planejar voos futuros em nível nacional. Ou continuar provinciano, sendo apenas o mais votado na terra das araucárias.

Mas o que chama a atenção em Álvaro Dias é o “ser e não ser”, o “estar e não estar” de suas posições. Bem “heracliteano” em suas respostas. Tudo indica que ele queira ser o “Emmanuel Macron brasileiro”, com uma suposta posição centrista, de equilíbrio, sensatez e anti-radicalismos. Mas, em nosso entender, sua estratégia não frutificará. Questionado sobre a reforma trabalhista, afirmou “ser a favor, embora tenha votado contra”. Não era essa a reforma trabalhista que queria. Então, em protesto, votou contra. Fica “bem na fita” com os dois lados: patrões e empregados. Ele “é e não é”. Em relação ao impeachment da Presidente Dilma, ele votou a favor, embora entendesse que o impeachment deveria, também, abranger o Vice-Presidente. Disse que havia razões para afastar a Presidente, mas também o Vice. Assim, mais uma vez, ele ficou bem com os que pediram o impeachment e disse não chancelar a podridão cancerosa que é o governo Temer, consequência imediata de quem votou a favor. E pode até ficar bem com parte da esquerda. Mais uma vez ele “foi e não foi”. Não era bem esse o impeachment que ele queria. Então, senhor senador, por que não fez quando da votação da reforma trabalhista, que também não era a que o senhor queria e, por isso votou contra? Por que, nesse caso, não houve “voto de protesto”?

Em relação às privatizações, foi questionado sobre a Petrobras. Disse ser favorável à privatização da estatal, porém, não agora. De novo ele “é e não é”. Ao afirmar que a empresa tem que se recuperar e se valorizar antes de ser privatizada, ele ganha tempo. Está, por ora, do lado dos que são e dos que não são a favor da privatização. Olha o Heráclito aí de novo!

Infelizmente e desgraçadamente, o Brasil vive, especialmente a partir de 2013, uma crescente onda fascista. E não me refiro apenas ao candidato fascista. Falo do candidato do Temer, que não é do MDB. Direitos foram surrupiados. Querem acabar com a aposentadoria. Congelaram investimentos públicos em 20 anos. O momento é muito sério, extremamente grave. E não se combate o fascismo com o centrismo. Não estamos em uma conjuntura em que seja possível querer estar do lado do banqueiro e do bancário, do latifundiário e do sem-terra. O país está politicamente polarizado desde o segundo turno do pleito de 2014. Portanto, urge tomar um lado. E também seria bom o senhor Álvaro Dias saber que, se ele quer vitrine com sua candidatura, ele a terá. Mas, com sua experiência, ele já deve ter percebido que o candidato que a grande mídia, o grande capital nacional e estrangeiro e o chamado “mercado” vão querer vender como “centro” tem nome e apelido: Geraldo Alckmin, vulgo “Picolé de Chuchu”. E o “Centrão”, que nada tem de centro, pois é de direita, está bem no meio de tudo isso. Os papéis, no plano do grande capital, já estão definidos: depois de excluir o Lula, agora é levar o “Picolé de Chuchu” ao segundo turno, fazer o fascista de “boi de piranha” e dar continuidade ao governo Temer. O digníssimo senador pode, e deveria, tomar um lado. Ou, se preferir, continuar sendo um “Heráclito na vitrine”.

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