BOLSONARO E OS “POSTOS IPIRANGA”

posto ipiranga“Não vou mexer nos arquivos porque são feridas que têm que ser cicatrizadas. É daqui para frente. Os papéis têm prazo de validade.” (Jair Bolsonaro, candidato da extrema-direita a Presidente da República, no programa Roda Viva, em 30/07/2018).

Não. Não se trata apenas de “papéis”. Trata-se da história. E a história não tem prazo de validade. Ao afirmar que, se eleito, não mexeria nos arquivos dos tempos da ditadura, Bolsonaro mais uma vez dá o tom do que representa. Os arquivos, muitos dos quais estão sendo revelados até pela CIA, vem sendo fundamentais para o conhecimento da história recente e dos crimes de Estado dos governos que Bolsonaro sempre defendeu e quer ocultar. Esses crimes até já prescreveram e não se fará a justiça como aconteceu, por exemplo, na Argentina e no Chile. Mas a história precisa ser revelada e ela pertence a todos.

A participação de Bolsonaro no programa Roda Viva não trouxe qualquer novidade. E, embora ele tenha citado o seu eterno “Posto Ipiranga”, chamado Paulo Guedes, o seu guru para assuntos econômicos, tudo leva a crer que Bolsonaro precisará de outros “Postos Ipirangas”. Talvez um para assuntos sobre história. Ele teve a cara-de-pau de afirmar que, após o golpe de 1964, os Presidentes “foram eleitos pelas regras da Constituição.” Não, eles não foram eleitos pelas regras da Constituição. Porque a Constituição em vigor era a de 1946, que previa a eleição direta para Presidente da República. Porém, os militares enxertaram os famigerados atos institucionais, mudando as regras do jogo. Em um deles, o AI-1, o Presidente da República deixaria de ser eleito pelo voto popular e passaria a ser escolhido pelo Congresso. Ou seja, abduziram a Constituição vigente. Tiraram o poder do povo escolher o Presidente. Eles mudaram as regras para ganharem o jogo.  Chama o Posto Ipiranga!

Em outro momento da entrevista, ao afirmar que não é racista, Bolsonaro parece não saber a tipificação legal de racismo. Porque, quando falou em uma palestra na Hebraica-Rio que “quilombola não serve nem para procriar”, ele referiu-se a toda uma coletividade, o que caracteriza sim o crime de racismo. Então, ao agredir toda a comunidade ele cometeu sim o crime de racismo. Por isso está sendo processado. Chama o Posto Ipiranga!

Em relação às suas preferências, seu livro de cabeceira é Verdade Sufocada, que tem como autor o torturador por ele exaltado, Carlos Alberto Brilhante Ustra. Desconfia até de Nélson Mandela. Disse que os portugueses não escravizaram os africanos. Disse que é difícil ser patrão no Brasil (mas não disse se é difícil ser trabalhador assalariado).

Talvez não apenas Bolsonaro, mas milhões de brasileiros precisem de muitos “Postos Ipiranga”. E ainda dizem que o problema é a Matemática!

 

“FATO OU FAKE” – CONTA OUTRA!

globo fake newsO que esperar de um império de comunicações que apoiou o golpe militar? Que calou-se diante das torturas, assassinatos e desaparecimentos de presos políticos? Que apoiou a ditadura por 21 anos? Que apoiou a edição do AI-5 em 1968? O que esperar ainda de um império de comunicações que tentou fraudar o resultado da eleição para governador do Rio de Janeiro, em 1982, publicando “resultados fakes” no famigerado Escândalo da Proconsult? O que esperar de um império de comunicações que, em 1994, combinou, nos bastidores subterrâneos do programa Fantástico,  uma entrevista com o então Ministro Rubens Ricúpero para “mostrar o que é bom e esconder o que é ruim”, visando favorecer FHC na eleição daquele ano? Enfim, o que esperar de um império de comunicações que apoiou FHC, Alckmin, Serra e Aécio para Presidente da República e ainda teve participação fundamental no golpe midiático-parlamentar-empresarial de 2016? O que esperar ainda de uma emissora que fingiu que não viu um show com 100 mil pessoas  no Rio de Janeiro com as presenças de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil?

Pois bem. As Organizações Globo, através de todos os seus veículos midiáticos, anunciou hoje que está iniciando uma campanha de checagem de “fake news”. “Fato ou Fake” é o nome da campanha. A coisa é tão risível como se Temer falasse que iria combater a corrupção ou Aécio falasse que combateria o tráfico de cocaína. O império de comunicações da família Marinho, que abrange a TV Globo, Globonews, O Globo, Extra, Época, Valor e CBN, mídias marcadas pela parcialidade e comprometimento com o grande capital, especialmente estrangeiro, afirma querer alertar os brasileiros para conteúdos duvidosos. A falta de isenção sempre foi o “modus operandi” das Organizações Globo. Seus comentaristas, por força da linha editorial dos veículos para os quais trabalham, sempre tiveram um lado. E, pelo que dissemos acima, esse lado nunca deixou dúvidas.

O histórico da Globo não lhe dá qualquer aval ou credibilidade para ela afirme que irá realizar uma campanha que combata o que é “fake”. Seus posicionamentos unilaterais, que não exploram o contraditório, colocam o suposto jornalismo sob suspeita. Pode até ser, e isso certamente ocorrerá, que ela denuncie alguma “fakenews”. Mas sabemos que isso sempre terá que passar por um filtro, visto que esse sempre foi o comportamento de todos os seus veículos.  Certamente, algumas “fakes” a Globo fingirá que não viu, como “não viu” 100 mil pessoas no último sábado, na Lapa, em um show que não era de seu interesse divulgar. A Globo diz querer, com a campanha, “alertar os brasileiros sobre conteúdos duvidosos”. Mas nós entendemos que seria bom alertarmos os brasileiros sobre os conteúdos da Globo.

 

 

OS “FISCAIS DO BOLSONARO”

urna eletrônicaA urna eletrônica, ao ser introduzida nas eleições brasileiras, em 1996, teve como motivação as fraudes verificadas nas eleições para deputado federal e estadual no pleito anterior (1994), especialmente no Rio de Janeiro, onde as eleições até foram anuladas e repetidas. Eu jamais suspeitei da lisura da urna eletrônica. Porém, há algum tempo, Bolsonaro e seus seguidores vem espalhando uma onda conspiratória contra a engenhoca, afirmando que a mesma possui falha em sua segurança. Eles estão espalhando um vídeo do professor Diego Aranha, que é especialista em segurança digital. No vídeo, já compartilhado por um dos filhos do Bolsonaro, o professor afirma que “a urna não é segura e que, inclusive, já quebrou o seu sigilo.” 

Interessante que, em 2014, uma coisa me espantou: Bolsonaro foi eleito deputado federal com quase meio milhão de votos! Eles não desconfiaram de nada. Nem eu. Meu único comentário, após ver a divulgação do resultado foi: “Caramba! Como tem fascista no Rio de Janeiro!” Mas nunca coloquei a culpa na urna. É emblemático o exemplo do Álvaro Valle que, em 1998, deixou de se reeleger deputado federal por apenas 1 voto. Isso mesmo: um único voto. E ele jamais recorreu ou questionou a lisura da urna eletrônica.

No vídeo, o professor Diego Aranha dá as instruções para que os “fiscais paralelos” ajudem na fiscalização. Ele diz para que, a partir das 5 horas da tarde, quando é emitido o B.U. (boletim de urna), o fiscal dirija-se até o local de votação e, com o telefone celular, fotografe o documento e o envie para a central de apuração paralela criada por eles para que o mesmo seja confrontado com o resultado oficial. Essa onda conspiratória contra a urna eletrônica traz algo que cheira a justificativa de derrota, especialmente no segundo turno. Não sou especialista em segurança digital. Se o professor Diego Aranha falou que a urna não é segura, não discutirei com a autoridade no assunto. Mas tenho certeza de que posso ajudá-lo, com a experiência de quem , por muito tempo, trabalhou na Justiça Eleitoral.

Em primeiro lugar, o B.U. (boletim de urna), não é emitido às 5 horas da tarde. Às 5 horas da tarde termina a votação. Isso se ainda não tiver eleitor na fila, com senha. No primeiro turno, inclusive, a emissão do B.U. é até demorada, em razão do grande número de candidatos a deputados, por exemplo, que receberam votos. Depois, confere-se a folha de votação e só então o B.U. é emitido. Geralmente, se tudo for rápido, o B.U. é emitido às 5 e meia. Mas pode sair muito depois. Mandar alguém ir ver o B.U. às 5 em ponto já é querer dizer que “houve problema”, quando é impossível termos um B.U. nesse horário. Porém, o mais importante vem agora: não há a mínima necessidade de ninguém fotografar absolutamente nada. Se o Bolsonaro tem tantos eleitores assim pelo Brasil afora e seu partido fizer o “dever de casa”, os “fiscais do Bolsonaro” terão uma via original de todos os B.Us. O B.U. é emitido em várias vias e, uma delas, destina-se ao representante do Comitê Interpartidário. Basta, para isso, o PSL, partido que o abriga Bolsonaro, estar no Comitê Interpartidário, que representa todos os partidos políticos. Quase nunca o Comitê Interpartidário envia representante ao local de votação e a via do B.U. a ele destinada acaba sendo levada de volta ao cartório eleitoral. O PSL, como qualquer partido, pode ter acesso a todos os B.Us. originais através do Comitê Interpartidário. Basta o partido se organizar e se fazer representar. Então, para que a foto? Até porque nada impede que ela também tenha fotoshop.

A GUERRILHEIRA DE TOGA

desembargadora de toga“Às armas, cidadãos! Formai vossos batalhões!” (Marília de Castro Neves, desembargadora).

A militante de direita travestida de desembargadora, Marília de Castro Neves, mais uma vez usa a internet para vomitar seus ódios e seu ranço fascista. Depois de caluniar criminosamente a vereadora Marielle Franco e de atacar uma professora com síndrome de down, agora ela veio a público, no seu inconfundível estilo bélico e odioso, em defesa da organização neofascista MBL, da qual é simpatizante, que teve páginas e contas excluídas do Facebook por propagar mentiras.

Um dos grandes problemas do Brasil, aliás, é o corporativismo que predomina quando existe o privilégio de alguns poucos serem julgados por seus próprios pares. Deputados julgam deputados. Senadores julgam senadores. Militares julgam militares e juízes julgam juízes. A desembargadora Marília Castro Neves já responde a processo no Conselho Nacional de Justiça pelas calúnias feitas contra a vereadora Marielle. Porém, somos céticos em relação a alguma punição. Em sua página no Facebook percebe-se claramente o seu engajamento em movimentos políticos de extrema-direita. É necessário lembrar que a Constituição Federal veda a participação de magistrados em atividades político-partidárias. No entanto, a desembargadora Marília atua muito mais como militante de extrema-direita do que como juíza. E ela sabe que a impunidade sempre prevalecerá em julgamentos marcados pelo corporativismo.

Além disso, a desembargadora faz graves acusações contra a Justiça Eleitoral, dizendo que as urnas eletrônicas são “comprovadamente fraudáveis” e que, por isso, o candidato que ela diz ser “do sistema”, será o vencedor das eleições. Ou seja, acusa de fraudulenta as eleições que se avizinham.

A exortação da magistrada, conclamando um levante armado, mostra ainda o crime da desembargadora contra a ordem democrática. Ela é daquelas que, basta ver em sua página, fala muito em “intervenção militar”. Daí, ser até natural o seu ódio em relação a uma coisa chamada urna. Vivemos um momento tão delicado em nossa frágil democracia que até uma desembargadora a ameaça. Quando temos uma guerrilheira de toga no Judiciário, a serviço da extrema-direita, então começamos a entender determinadas coisas. O candidato dela, aliás, disse que pretende aumentar para 21 o número de juízes do STF. E, certamente, uma das vagas seria dela. Sem toga e sem lei. Só com as armas…

SOS CIÊNCIA E TECNOLOGIA!

sos ciênciaNenhum país alcançou seu pleno desenvolvimento e sua plena soberania sem investir maciçamente em educação, ciência e tecnologia. A 70a. Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira Para a Progresso da Ciência), que terminou neste final de semana, na Universidade Federal de Alagoas, em Maceió, trouxe para o centro das discussões as propostas dos presidenciáveis para a ciência e tecnologia, bem como os anseios da comunidade científica. Como já é de costume, a SBPC convidou os três candidatos com maior intenção de votos, de acordo com a pesquisa do Datafolha de junho/2018. São eles: Lula, Marina Silva e Bolsonaro. Lula enviou um representante para expor as propostas de seu partido. Marina Silva respondeu que não poderia comparecer em virtude da agenda já comprometida, mas que responderia às questões enviadas pela SBPC através de um vídeo. Já o candidato Jair Bolsonaro sequer respondeu ao convite o que, aliás, não causa nenhum espanto. Além dos três melhores colocados na pesquisa, a entidade também convidou Ciro Gomes e Alckmin, que ainda definirão como enviarão suas propostas.

Entre as demandas da SBPC destacam-se a recriação do Ministério da Ciência e Tecnologia (extinto pelo governo golpista) e o investimento mínimo de 2% do PIB em pesquisa. Segundo a entidade, apenas 1,2% do PIB atualmente são aplicados em pesquisa. Mas o grande debate gira em torno da Emenda Constitucional 95, que impôs o teto de gastos públicos por 20 anos. Talvez uma das medidas mais criminosas do governo golpista de Temer, que atinge, além da saúde e educação, também a pesquisa, ciência e tecnologia. Qual será a atitude do presidente eleito em relação à emenda que impôs o teto e prejudicou, sensivelmente, o avanço da ciência e pesquisa no Brasil? A posição oficial da SBPC é clara: a emenda deve ser revogada.

A escolha de um candidato comprometido com o desenvolvimento científico e tecnológico é fundamental para o desenvolvimento econômico e afirmação da soberania de um país. E é exatamente isso que estará também em jogo no dia 7 de outubro. Priorizar a ciência é, acima de tudo, libertar-se do modelo colonial imposto pelos interesses estrangeiros. As atividades científicas e tecnológicas estão agonizando em nosso país. E apenas o voto dos brasileiros pode mudar essa situação. Ou, infelizmente, mantê-la. SOS Ciência e Tecnologia!

 

 

 

 

 

 

PROCURA-SE VICE (ATÉ NO ESPAÇO!)

astronauta no espaçoPrimeiro, foi o ultra-reacionário senador Magno Malta. Por muito tempo, ele aparecia ao lado do neofascista Jair Bolsonaro e havia quase que a certeza de que ele seria o vice na chapa do capitão defensor da tortura. Mas Magno Malta nada tem de bobo e não iria colocar o seu mandato de senador em risco  nessa aventura. Ele sabe muito bem a canoa furada que representa a candidatura de Bolsonaro e não iria trocar a grande possibilidade de se reeleger senador no Espírito Santo para ser vice do Bolsonaro. Então, ele pulou fora. Depois, foi a vez do general Augusto Heleno Ribeiro. Em tempos de “chame o general!” seria uma ótima opção. Mas o partido do general, o PRP, acabou recusando a aliança com Bolsonaro e a segunda opção de vice na chapa também malogrou.

Então, finalmente, chegou o dia da “Convenção das Bruxas”. E o “plano C” do Bolsonaro era aguardado com ansiedade: nada menos do que a “pós-doutora” Janaína Paschoal, a “funcionária terceirizada do PSDB“. Acreditem: a “toda-louca” foi apresentada a Bolsonaro naquele dia. Aos gritos de “nossa vice!”, a “pós-doutora” dos coxinhas disse então que “queria conversar” e não queria aplausos e nem interrupções. Mas a “pós-doutora”, em seu discurso, deixou tanto Bolsonaro como seus seguidores com cara de bunda envernizada. Ela criticou o que chamou de “pensamento único” dos seguidores do fascista e disse que a decisão de ser vice na chapa precisaria de algum tempo. Foi, eufemisticamente, uma recusa. E Bolsonaro, em sua terceira tentativa, não conseguiu emplacar ninguém como vice, naquele que seria o dia da culminância. Após a frustração, o filósofo ultra-direitista e “lua preta” de Bolsonaro, Olavo de Carvalho, afirmou que “Janaína Paschoal não pode ser vice-presidente nem de clube de futebol.”

Depois da recusa da “toda louca”, Bolsonaro resolveu partir para a realeza. Que tal uma forma de governo que aglutine monarquia e república? E já está lançada a possibilidade de convidarem o príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança para compor a chapa. O príncipe, além de ser um ativista político da direita (foi um dos fundadores do movimento Acorda Brasil), também seria um ótimo nome para agradar às “famílias bem-comportadas”. O nobre já falou que está “disponível”. Calma, meninas! O cara é casado. Que romântico! Já pensaram um príncipe no governo do Brasil?

Mas as buscas já chegaram na estratosfera e o outro virtual candidato a vice na chapa de Bolsonaro é o astronauta Marcos Pontes. Sim, isso mesmo: o astronauta. Como na terra e no céu está difícil, então Bolsonaro já passou para o espaço sideral para tentar encontrar um vice para sua chapa. Será que ele vai chegar em algum outro planeta? Será que ele vai acabar colocando um ET de vice na sua chapa? Xi! Acho que vai acabar sobrando para o Serra!

ELES NÃO SABEM O QUE É CENSURA!

censuraÉ  livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato. É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença(Constituição da República Federativa do Brasil, artigo 5º, incisos 4 e 9).

Ontem, após a medida tomada pelo Facebook de remover páginas e contas ligadas ao movimento neofascista MBL, a direção do movimento divulgou uma nota e espalhou vários anúncios pela rede,  protestando contra aquilo que eles chamaram de “censura” ao MBL. Os anúncios foram muito compartilhados e logo espalhou-se uma onda de “não à censura”, tendo em vista as medidas tomadas pelo Facebook, que chamou as páginas e contas removidas de “rede de desinformação”.

Será que o MBL e seus simpatizantes sabem o que é censura? Certamente, não. Porque a censura é uma medida que proíbe a publicação ou divulgação de conteúdos. No caso da internet, os mesmos são bloqueados antes de irem ao ar. Então, eles não são sequer publicados. E isso nunca existiu no Facebook. Já existiu sim, no Brasil, durante a ditadura militar, quando jornais, revistas, músicas, filmes, peças teatrais, novelas, livros didáticos, tinham que passar pelo crivo dos censores e, se liberados, só então podiam ser publicados. Lembro-me, por exemplo,  que nunca cheguei a ver a primeira versão da novela “Roque Santeiro”, que iria ao ar em 1976, porque foi censurada pela ditadura militar antes de começar. Sou do tempo em que os livros escolares tinham que ser aprovados pela Comissão Nacional de Moral e Civismo. Os que não recebiam o aval, não eram publicados. Muitos jornais, nos anos 1960 e 1970, tinham censores em suas redações que lá ficavam até o fechamento das edições, vetando matérias consideradas “subversivas”. Muitos desses jornais, no dia seguinte, eram fechados com espaços em branco, para sinalizar que ali deveria ser publicada uma matéria vetada pela censura. Deu para perceber a diferença? Quando há censura, o conteúdo, qualquer que seja ele, não chega a ser tornado público e morre no seu próprio nascedouro.

A chamada Constituição Cidadã, que completará 30 anos no próximo mês de outubro, acabou com a censura, consagrando a liberdade de expressão, por qualquer meio. Porém, o artigo 5º é claro: é vedado o anonimato. E, qualquer pessoa acusada injustamente ou ofendida, deve acionar a Justiça e exigir o direito de resposta, proporcional ao agravo, outra garantia da nossa Magna Carta.

Lembram das ofensas e difamações contra a Marielle? Não houve qualquer censura para se disseminar tanto ódio e barbaridade. Porém, posteriormente, os conteúdos tiveram que ser removidos até pela ação da Justiça. Há um outro detalhe, ainda falando sobre o que está na Constituição: perfis falsos não deixam de ser anonimatos. E isso, a Constituição veda em seu artigo 5º. Ou seja, todos são livres para se manifestarem, mas devem mostrar suas identidades e serem responsabilizados por aquilo que expressaram. É muito, muito diferente de censura.

Mas o caso de ontem nem teve nada com os princípios constitucionais. Foi o próprio Facebook, dentro de sua política de autenticidade, que removeu conteúdos que espalhavam mentiras e desinformações, tudo através do anonimato, pois usavam perfis falsos. Aliás, alguém já conseguiu identificar quem é Luciano Ayan, o fantasma anônimo do site ultra-direitista Ceticismo Político?  Quem disse que os conteúdos removidos são anônimos e formam uma “rede de desinformação” foi o próprio Facebook, que é uma empresa privada, do jeito que “eles gostam”. Não houve qualquer intervenção do Estado, que eles tanto odeiam. Aliás, é bom lembrar que o Sr. Mark Zuckeberg é um agente privado.

Muitos jovens, que nasceram especialmente a partir dois anos 1980, também não sabem o que é censura porque eles, literalmente, já nasceram, cresceram e viveram sem ela. Sorte deles. Eu, por exemplo, tive que lutar, junto com muita gente, para acabar com a censura e conquistar a liberdade de expressão que, para esses jovens, não foi uma conquista e sim um ponto de partida em sua vidas. Talvez por isso eles não saibam usá-la. E, com certeza, por isso, eles não sabem o que é censura.