OCUPANTES E GRILEIROS

ocupação do prédio em são paulogrilagemHá alguns anos, uma cena deplorável foi levada ao ar, em horário nobre, por um telejornal. A cena mostrava pessoas que viviam na miséria recolhendo restos de comida de um monte de lixo. Todos passavam fome. Então, uma repórter perguntou a um dos que lá estavam se ele sabia que aquela comida tirada do lixo poderia até matá-lo por alguma intoxicação. No que a pessoa, em seu desespero, respondeu:

¨Eu prefiro morrer intoxicado comendo do que morrer de fome!”

Empatia é colocar-se no lugar do outro, para melhor entendermos a situação em que o outro vive. A empatia nos faz sair do “mesmo” e entender a “alteridade” o “diferente”, “aquilo que não somos”. Mas que talvez, um dia, possamos vir a ser. Desde o feriado do Primeiro de Maio que a tragédia ocorrida no Edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo, toma conta da mídia e, por extensão, também, dos debates políticos. O Brasil chegou a um ponto tal que, dificilmente, um fato relevante, seja ele bom ou ruim, não se transforma em um embate direita X esquerda. Sim, porque a direita, ao criminalizar os movimentos sociais, culpa esses movimentos pela tragédia. E ainda perguntam: como alguém vai ocupar (“invadir”) um prédio sem as mínimas condições de ser habitado? Geralmente, essas perguntas são feitas por aqueles que têm onde morar. Mas se eles não tivessem onde morar? Seria bom eles fazerem uma empatia.

A grande mídia e seus agentes ventríloquos já elegeram um culpado: foi o Guilherme Boulos, líder do MTST, que promove “invasões”. Ocorre que o dito edifício em São Paulo foi ocupado por pessoas  que fazem parte de outro movimento, chamado Movimento Social de Luta por Moradia. Nada a ver com o Boulos. Mas ele é candidato a Presidente da República pelo PSOL. Portanto, porrada nele! Os mesmos que confundiram Al Jazeera com Al Qaeda, agora confundem MTST com MSLM. Tudo dentro do script global.

Mas seria bom que aqueles que falam em “invasões promovidas por grupos de esquerda”, refletissem um pouco sobre uma das maiores invasões que ocorrem no Brasil, protagonizada por muitos bandidos de paletó e gravata e da direita mais reacionária. É a grilagem. A grilagem, esta sim, é uma invasão. É roubo de terras públicas. É assalto ao país. Mas nunca ouvimos essa mesma turma chamar grileiros de invasores. Eles são ricos. Poderosos. Eles são da direita e odeiam o Lula e o PT. Só para darmos alguns exemplos, um dos maiores grileiros da Amazônia é filho de um rico e poderoso pecuarista de São Paulo. Seu nome: Antônio José Junqueira Vilela Filho, vulgarmente conhecido como “Jotinha”. E, como não poderia deixar de ser, o chefe da Casa Civil do Temer, Eliseu Padilha, também é acusado de grilagem. Até o Sarney já foi investigado por grilagem. Mas os “vagabundos” são aqueles desassistidos que viviam em condições precárias em um prédio abandonado pelo poder público e que ainda sofreram uma tragédia. E quanto aos grileiros? Nada a declarar? Ou será apenas um ódio de classe?

Claro que a culpa é do governo. Claro que os sem-teto são vítimas. Ninguém quer “morar” em uma situação daquelas. Mas não dá para ficar ao tempo, na rua. É só fazer uma empatia. Mas parece que alguns só conseguem fazer empatia se colocando no lugar de grileiros…

 

 

 

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