MORRE JORNALISTA QUE DESMASCAROU A DITADURA

audálio dantasMorreu ontem, 30 de maio, aos 88 anos, o jornalista Audálio Dantas. Audálio Dantas teve sua carreira destacada pela defesa dos direitos humanos, o que chegou a valer-lhe um prêmio da ONU. Mas ele entrou para a história por ter denunciado a farsa do “suicídio” do jornalista Vladimir Herzog, que foi assassinado pela ditadura militar em 1975. Quando a ditadura falava em “suicídio”, Audálio Dantas denunciou as torturas, seguida do assassinato de Herzog nas dependências do DOI-CODI.

Ao enfrentar a ditadura e desmascarar a farsa do suicídio de Herzog, Audálio Dantas colocava em risco sua própria vida. Certa vez, perguntaram se ele não tinha medo. Audálio disse que sim. Porém, acrescentou que “foi do medo que nasceu a coragem”. Sua revelação sobre o assassinato de Vladimir Herzog pelo governo militar abriu caminho e encorajou outros a seguirem a mesma trilha. O assassinato de Herzog ocorreu em plena época da chamada “abertura política” do general-ditador Geisel. Bem antes dos documentos da CIA que estão vindo à tona e que mostram a prática de extermínio dos governos militares, inclusive o de Geisel, Audálio Dantas já denunciava o “modus operandi” criminoso dos generais de plantão. Um conhecido bandido chamado José Maria Marin, que presidiu a CBF (aquela das camisas amarelas dos patos fantoches), na época defensor da ditadura e deputado pela ARENA, foi responsável pela prisão de Herzog. Hoje esse bandido está preso nos EUA.

O episódio do assassinato de Vladimir Herzog, que só foi elucidado pela denúncia de Audálio Dantas, dá o tom do que foi a ditadura. Felizmente, Audálio sobreviveu. E agora, não estando mais entre nós, é lembrado pela sua coragem, dignidade e defesa dos direitos humanos. Enquanto outros serão lembrados por terem sido covardes e assassinos. Obrigado Audálio, e que só reencontremos a ditadura nos livros de história!

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O CRISTÃO-NOVO DO CRIVELLA

pai uzeda

Roberval Batista de Uzeda é o nome do babalorixá do candomblé conhecido como “Pai Uzeda”. Pai Uzeda ganhou notoriedade em dezembro do ano passado quando prestou “assistência espiritual” ao golpista Temer. Na ocasião, ele deu “passes” no presidente golpista, como forma de “ajudá-lo espiritualmente”. Pai Uzeda, no entanto, nunca foi reconhecido por lideranças religiosas de matrizes africanas, o que mostra que o babalorixá é tão ilegítimo quanto o seu protegido. Tudo normal: presidente ilegítimo recebendo passe de babalorixá ilegítimo.

Mas o candomblezeiro Pai Uzeda agora está em outra. Ele agora faz parte do governo do prefeito-pastor Crivella. No Diário Oficial do Município de ontem, 29/5, foi publicada a nomeação de Pai Uzeda para o cargo de Assistente da Coordenadoria de Respeito à Diversidade Religiosa da Prefeitura, órgão vinculado à Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos. Só que o Pai Uzeda não é mais o Pai Uzeda. Ele converteu-se ao cristianismo e agora declara-se evangélico. O cristão-novo diz que, doravante, quer receber o tratamento de “irmão” e sua conversão tem uma ambição ainda maior: disse que pretende tornar-se bispo, assim como o seu alcaide-chefe.

O agora “Irmão Uzeda” virou um missionário. E, como o Rio de Janeiro é uma cidade cosmopolita, ele quer ampliar o seu eclético magnetismo religioso e espiritual. Já afirmou que quer voltar a Brasília e se reencontrar com o golpista do Jaburu. Só que agora, como ele disse, “nada de passes”. Ele quer distribuir bíblias para Temer e seus ministros, para evangelizar o apodrecido e corrupto Palácio do Jaburu. Porém a missão do cristão-novo do Crivella vai muito além. Em sua empreitada para tornar-se pastor, o ex-babalorixá atribuiu-se uma missão quase impossível: disse que quer salvar a alma de Temer. Ocorre que Temer não tem mais alma. Ela foi vendida para o PSDB, para os corruptos do Congresso que o livraram de seus crimes, para o grande capital nacional e estrangeiro, para os escravocratas do agro-negócio, e, principalmente, para o “mercado”. Até hoje, não sabemos se Deus já salvou a Rainha, como tanto cantam os ingleses. Será que a salvação de Temer estará no ex-babalorixá, agora cristão-novo, do Crivella?

CAMINHONEIROS E A HISTÓRIA

caminhoneiros do chileEm 11 de setembro de 1973, uma terça-feira, o presidente democraticamente eleito do Chile, Salvador Allende, era derrubado por um golpe militar que instituiria uma das ditaduras mais sanguinárias da América Latina. Pouco tempo antes, em 1972, uma greve de caminhoneiros naquele país deflagrou uma crise que viria a se refletir no ano seguinte. E, um mês antes do golpe, em agosto, uma nova paralisação de caminhoneiros, juntamente com empresários, agravou a crise chilena, o que serviu de pretexto para a tomada do poder pelo Exército. O presidente Allende foi assassinado e o golpe, patrocinado pelos EUA, levou o ditador Pinochet ao poder.

Temos falado neste espaço que é visível a infiltração de grupos da direita fascista no difuso e nebuloso movimento dos caminhoneiros . São os chamados “intervencionistas”, eufemismo para “golpistas”. Eles estão em cena desde 2013, já participaram do golpe de 2016 e não querem que as eleições se realizem em outubro. Claro que as situações e os contextos são diferentes. No Chile, tínhamos um presidente eleito. Aqui, temos um presidente sem legitimidade, o mais impopular da história e que tomou o governo por um golpe. E o que resta deste governo são cacos sem qualquer retaguarda. Não existe base aliada que dê apoio a um governo tão nefasto, especialmente a 4 meses das eleições.

E o que querem os “intervencionistas”, digo, golpistas? Não é propriamente derrubar o governo, porque este já não existe há tempos. Eles não querem que as eleições aconteçam em outubro e, em um momento crítico, onde toda a rede de abastecimento, desde oxigênio para hospitais, passando por remédios de uso contínuo e suprimentos como combustíveis, entra em colapso, o caos está instalado. Discursos motivadores, de apelos ultra-nacionalistas e de execração à “desordem subversiva”, levam o carimbo dos golpistas que, novamente, vestem o amarelo. Assim como em 2013. Assim como em 2016.

A democracia brasileira agoniza, mas ainda existe quem queira feri-la de morte. E, não tenham dúvidas: em troca da Petrobras, da Eletrobras e da Amazônia, os Estados Unidos de Trump e seus aliados pelo mundo, reconheceriam imediatamente um “novo governo”, por mais golpista que fosse. Verdadeiramente, não é só pelos 46 centavos. E o Tio Patinhas, que de babaca não tem nada, não veste o amarelo, como seu similar tupiniquim da FIESP

 

2013 SOBRE RODAS

caminhoneiros e intervenção militar“Não é só pelos 20 centavos.” (Palavra de ordem dos protestos de 2013 em todo Brasil)

Em 2013, há exatos 5 anos, uma onda de protestos tomou conta do Brasil. O mote inicial era o preço das passagens de ônibus, que tinha aumentado em 20 centavos. Protestos sem referência de liderança e com uma pauta difusa e nebulosa. O que havia por trás daquilo? Mas os protestos de 2013 traziam muito mais do que os 20 centavos. Foram naqueles protestos que as naftalinas da direita fascista se assanharam e saíram do armário. A frágil democracia brasileira estava em xeque.  Tumultos, caos, invasões, black-blocs e até uma tentativa de invasão ao Itamaraty. Era preciso restabelecer a ordem. “Intervenção militar já!”, dizia a turma do “anauê”, que se apropriou de grandes fatias de um evento onde, no final, já não se sabia quem eram os protagonistas. Ali a direita cresceu. Ali começou o golpe. Isso, apesar das melhores intenções daqueles que iniciaram os protestos. Mal sabiam eles que estavam municiando a extrema-direita, que recrudescia sem que fosse percebida por muitos.

Hoje, diante do caos instalado no país, por uma “greve” (greve?) de caminhoneiros onde não há uma liderança definida, onde não há uma pauta clara e onde estamos vendo, tal como em 2013, a entrada em cena dos mesmos grupos que cresceram em 2013, ficamos com a nítida impressão de que as naftalinas fascistas ainda não sublimaram. Elas parecem ter muito combustível, sem querer fazer nenhuma ironia com o momento crítico do país. O governo golpista decretou a redução do preço do diesel em 46 centavos, zerando o Cide e o Cofins por 2 meses, em um paliativo que nada mais é do que enxugar gelo. Mas, cabe uma pergunta: a redução em 46 centavos do preço do óleo diesel implicará em melhoria salarial para os motoristas que trabalham em empresas? Se, em 2013, “não era só pelos 20 centavos”, hoje também “não é só pelos 46 centavos.” Na rodovia Régis Bittencourt vimos um dos “grevistas” com uma camisa amarela (olha ela aí de novo!) com as letras “FFAA” em verde. Vimos também, em diversos pontos, caminhões com os dizeres “SOS FFAA”. O que, de fato, está por detrás desse movimento, onde não há liderança unificada e nem uma agenda comum de reivindicações? O caos estabelecido pode justificar os meios para quais fins?

Antes, queríamos evitar o golpe. Não evitamos e derrubaram a Presidente. Depois, queríamos derrubar os golpistas e promover eleições diretas. Também não conseguimos. Agora, temos que, ao menos, garantir as eleições de outubro. Mais uma vez nossa frágil democracia está ameaçada. 2013 não acabou. Só que agora ele está sobre rodas…

FALEMOS DO LOCKOUT

lockoutEntão está combinado. Doravante, falemos de lockout. O que ocorreu no Brasil não foi uma greve de trabalhadores caminhoneiros e sim um lockout de empresários para tirar vantagens. Em uma greve, os trabalhadores paralisam suas atividades reivindicando melhorias salariais, direitos trabalhistas, melhoria nas condições de trabalho. Não vemos greve de trabalhadores assalariados reivindicando subsídios ou redução de impostos. E é aí que entram os empresários. Se 70% dos transportes rodoviários de cargas no Brasil são feitos por empresas, então não podem ter sido os 30% de autônomos que, em menos de uma semana, levaram o país ao caos.

Fora isso, qual a greve de trabalhadores que pediria “Intervenção Militar Já”? Onde já se viu essa pauta fascista em qualquer reivindicação de trabalhadores? Se a greve fosse de trabalhadores assalariados, a grande maioria, que trabalha nas empresas, estaria cobrando aumento salarial e outros benefícios, e não redução do preço do diesel. Nem subsídios estatais. Nem redução de impostos sobre isso ou aquilo. Essas são reivindicações patronais, de empresas e não de trabalhadores. O setor empresarial dos transportes de cargas quer, evidentemente, se fortalecer, inclusive politicamente, com esse lockout. Eles participaram das manifestações que culminaram no golpe de 2016 e agora, com um governo carcomido pela corrupção, desmoralizado e sem representatividade, ficou mais fácil ainda para eles levarem adiante os seus projetos.

Perguntem aos caminhoneiros que trabalham em empresas quais foram ou quais serão suas conquistas ao final desse caos arquitetado pelas empresas transportadoras: o salário deles vai aumentar? Eles terão novos direitos? Parece que isso não vem sendo mostrado pela Globo. Para começar, curiosamente, ninguém nessa greve está sendo chamado de “vagabundo” por aquelas mesmas figuras de sempre. E o que o Bolsonaro diria de um movimento que pede intervenção militar? A emissora dos Marinhos só fala de um catastrofismo, desabastecimento, segurança nacional. Pronto. Esse é o mote para colocar os militares nas ruas. Eles vão restabelecer a ordem. As faixas “Intervenção Militar Já” parece terem surtido efeito. Diante do caos deliberadamente instituído, surgem os “redentores com roupa de Melhoral”. No meio de tudo isso, existe um golpista dentro de um bunker no Jaruru que, agora, pode ele mesmo  ser descartado por aqueles que lá o colocaram. Como qualquer papel higiênico (ou anti-higiênico) da pior qualidade…

A CUNHADA-OSTENTAÇÃO DO GOLPISTA

cunhada ostentaçãoA tradição de “peruas ostentadoras” em tempos de crise é antiga. Parece que vem desde a época da rainha Maria Antonieta, esposa de Luís XVI. Em plena crise que antecedeu a Revolução Francesa, quando o povo, desesperado, não conseguia nem mais comer pão, ela disse, em tom de deboche:

 _ “Que comam brioches!”

Claro que não faltava nada no Palácio de Versalhes. A rainha acabou decapitada em praça pública.

Em 2007, em pleno apagão aéreo no Brasil, a então ministra do Turismo, Marta Suplicy, seguindo a escola de Maria Antonieta, mandou sua mensagem ao povo:

_ “Relaxa e goza!”

Claro que, na condição de ministra, ela tinha o jatinho da FAB ao seu inteiro dispor. Marta Suplicy acabou na latrina do governo golpista e corrupto de Temer.

E ontem, em plena crise de desabastecimento de combustíveis provocada pela paralisação dos caminhoneiros, seguindo a linha da “nobreza decadente do Jaburu”, a cunhada do golpista, irmã da Marcelinha, Fernanda Tedeschi, ironizando o caos em que o país foi jogado,  postou no Instagram um vídeo onde mostrava o indicador do tanque de combustível de seu carro apontando para o nível “completamente cheio”. Não satisfeita, ainda incluiu no vídeo a palavra “ostentação”.  Claro que não faltou combustível para todos os que rodeiam o Jaburu, incluindo a cunhadinha-ostentação do golpista. Essa menina vai longe, igual à irmã. Mas, um conselho Fernandinha: arranje um presidente eleito e com votos. Para que, ao menos, a ostentação seja legítima. Porque até a tua ostentação de ontem foi golpista.

 

 

CAMINHONEIROS: GREVE OU LOCKOUT?

greve caminhoneirosEm 4 dias o país entrou em um caos. Tudo por conta de um movimento que se diz “grevista” por parte dos caminhoneiros. Claro que, como já dissemos aqui, o movimento grevista de caminhoneiros é legítimo, como o de qualquer outra categoria profissional. Mas temos que diferenciar o caminhoneiro autônomo das empresas transportadoras. Afinal, quem parou? Ou quem pegou carona em um movimento grevista para deflagrar um lockout?

Essa greve dos caminhoneiros, desde o início, soa estranho. Primeiro, não ouvimos aqueles comentários agressivos de chamarem grevistas de “vagabundos”, como sempre é feito. Segundo, os caminhoneiros autônomos, sozinhos, seriam capazes de causar a devastação que está sendo feita no país? Uma greve de caminhoneiros autônomos, como qualquer greve, evidentemente traria algum transtorno. Mas o que vemos vai muito, muito além disso.

As empresas transportadoras representam cerca de 70% dos transportes de cargas em rodovias no país. Será, então, que são os 30% de autônomos que estão fazendo tudo isso? Claro que não. Hoje chegaram até nós notícias de que empresas transportadoras estão retendo seus funcionários, quando estes chegam para trabalhar, alegando “questões de segurança”. O depoimento do motorista Sílvio Luis Batista, da Caiapó Transportes, que atua em São Paulo e Minas Gerais, ilustra essa atitude das empresas: “Desde segunda-feira que o patrão mandou parar todas as entregas.”

É evidente, como já ouvimos de empresários, que eles jamais irão admitir o lockout. Por uma simples razão: lockout é crime. Greve é um direito. Temos, assim, que refletir sobre o que está por trás de tudo o que estamos vendo e ouvindo. Claro que os empresários, aproveitando-se de um governo ilegítimo, fraco, sem representatividade e, a essa altura, agonizando e sangrando no poder tungado, fica muito mais fácil. Apoio aos caminhoneiros, sim. Porém, cuidado: há interesses nebulosos, subterrâneos e poderosos por detrás de todo esse caos.