MIRIAM E A NOITE DE 21 ANOS

tortura na ditadura“Miriam” era o nome de uma cobra usada pelos torturadores, na época da ditadura militar, para infligir tortura psicológica, especialmente nas mulheres. Era comum muitas presas políticas passarem a noite na companhia do réptil batizado com o bonito nome de “Miriam”, em um cubículo que mal dava para esticar as pernas. Ironicamente, a jornalista Miriam Leitão, mesmo estando grávida de um mês,  foi uma das vítimas da tortura durante a ditadura militar e teve, ainda, a infelicidade de conhecer pessoalmente a sua xará, a cobra “Miriam”, e passar um bom tempo em sua companhia. Havia também o uso de jacarés nas sessões de torturas. O coronel Paulo Malhães, conhecido como “Dr. Pablo”, era o seu maior algoz. Isso, sem falarmos nos ratos que eram enfiados vivos nas vaginas das presas políticas pelo coronel Brilhante Ustra, o “herói do Bolsonaro”.

Hoje Miriam Leitão publicou um artigo onde ela critica aqueles que, com muita propriedade, chama de “falsificadores do passado”. Esses falsificadores são exatamente aqueles que, defendendo a ditadura, afirmam que o período dos governos militares foi uma época sem corrupção, com segurança e com crescimento econômico. Há exatos 54 anos, os militares metiam o coturno na porta da democracia e tomavam o poder através de um golpe. Embora a data do golpe tenha sido em 1º de abril, por razões óbvias os militares celebram a data em 31 de março. E, ao contrário do que os impostores da história afirmam, o período da ditadura militar foi sim marcado por corrupção, torturas, cassação de mandatos de parlamentares legitimamente eleitos, censura à imprensa, assassinatos de inocentes, como o estudante Edson Luís, fim das eleições diretas para Presidente da República e Governadores, dentre outras barbaridades. Os falsários muitas vezes repetem que a força se justificava para combater “terroristas e comunistas armados”, o que não era o caso do jornalista Vladimir Herzog. Nem do estudante Edson Luís e nem da própria Miriam Leitão. E nem de muitos outros que simplesmente desapareceram pelo “crime de opinião”.

Para aqueles que ficam postando fotos da praia de Copacabana da época dos “anos de chumbo”, dizendo que havia liberdade e segurança, cabe informar que o torturador Brilhante Ustra, exaltado pelo candidato neonazista à presidência da República, foi o responsável pelo assassinato de 40 torturados no Doi-Codi, o maior centro de tortura e desaparecimento de presos políticos durante a ditadura.

Miriam Leitão, em seu artigo, simboliza o dia do golpe como uma data que inventou uma longa noite de 21 anos. Mas também é necessário salientar e acrescentar ao interessante artigo da jornalista Miriam Leitão que o jornal em que hoje ela denuncia as barbáries da ditadura militar, “O Globo”, foi um veículo de comunicação que, à época, apoiou tanto o golpe como os 21 anos de ditadura. Hoje, o próprio jornal “O Globo” e os demais veículos da família Marinho também falseiam a realidade e manipulam, em grande parte, a opinião pública. Ninguém poderia imaginar que, 54 anos depois, uma vítima da ditadura estaria denunciando a própria ditadura em um jornal que, à época, apoiava a ditadura. Mas a fatura de “O Globo”  vai muito além de artigos como o de Miriam Leitão. Seu pseudo-pluralismo não engana ninguém e a história já colocou esse jornal e seus penduricalhos midiáticos em seus devidos lugares.

O grande problema é que, se por um lado a ditadura acabou, a democracia está em crise. E ameaçada. O depoimento de Miriam Leitão é interessante leitura e reflexão, principalmente para os mais jovens. Muitos desses jovens nem sabem o que foi a ditadura, pois já nasceram sob a democracia, a liberdade de expressão e até já podem votar para Presidente da República aos 16 anos. Só para se ter uma ideia, em 1989, ano da primeira eleição para presidente da República após a ditadura, todo brasileiro que tivesse até 46 anos de idade, nunca tinha votado para Presidente da República. As crises e os conflitos de opinião são da natureza da democracia. Reflitamos sobre essa data para que não tenhamos o retorno de uma longa noite. Que ela só fique no passado e nos livros de história. Quanto às cobras e jacarés, que eles fiquem em seus habitats ou no zoológico.

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