MARIELLE E SEU LUGAR NA HISTÓRIA

marielle e seu lugar na história

5 de agosto de 1954: O ultra-direitista da UDN, Carlos Lacerda, sofre um atentado a tiros na Rua Toneleros, em Copacabana. Lacerda sobrevive, mas seu acompanhante, o major Rubem Vaz, morre. O crime dá início à crise que culminaria no suicídio de Vargas.

14 de março de 2018: A vereadora Marielle Franco, do PSOL, é morta a tiros, junto com seu motorista Anderson, quando voltava de um evento na Lapa. O crime dá início a uma campanha nacional em prol da tolerância e dos direitos humanos.

Em 1954, o Brasil estava, como hoje, politicamente dividido. Na época, a polarização se dava entre a UDN entreguista e o PTB nacionalista. A criação da Petrobrás, um ano antes, representou uma grande vitória do nacionalismo econômico de Vargas, enchendo de ódio (como hoje) os direitistas da UDN, especialmente Carlos Lacerda. Também como hoje, 1954 foi um ano eleitoral. Naquele ano ocorreriam eleições para governadores, senadores e deputados federais e estaduais (a eleição presidencial foi no ano seguinte).

Existem várias semelhanças entre aquela época e a atual. Hoje, como em 1954, o Brasil também está dividido politicamente. Mais do que isso: polarizado. O avanço da extrema-direita é inconteste e assusta até os direitistas e centro-direitistas mais liberais. Tal como em 1954, o debate estatização/privatização ganha protagonismo nas propostas de governo. E esse ano, assim como em 1954, teremos eleições. No entanto, as semelhanças não param por aí. Em 1954, o direitista da UDN Carlos Lacerda foi vítima de um atentado que mudou a história do país. E agora, a vereadora do PSOL Marielle Franco também foi vítima de um atentado que certamente mudará a história do país. Exatamente aqui terminam as semelhanças. Em 1954, Lacerda não morreu no atentado do qual foi alvo. O major da Aeronáutica, Rubem Vaz, que o acompanhava, foi a vítima fatal. Já Marielle e seu motorista Anderson perderam a vida. Em 1954, os responsáveis pelo crime foram identificados e presos 12 dias depois do atentado. Hoje, lá se vão os 12 dias do assassinato da vereadora e nem sombra dos assassinos.

No atentado contra Lacerda, tudo foi muito desastrado e amadorístico. Climério Euribes de Almeida, conterrâneo de Vargas e ex-funcionário de sua fazenda no Rio Grande do Sul, contratou o pistoleiro Alcino João do Nascimento para matar Lacerda. Climério fazia parte da guarda pessoal de Vargas e passou a integrá-la a convite do chefe da guarda, Gregório Fortunato, tido como o mentor do atentado. A coisa foi tão amadora que um motorista de táxi que fazia ponto em frente ao Palácio do Catete deu fuga ao pistoleiro. Não foi difícil para a “República do Galeão” chegar aos mandantes e executor. O atentado acabaria sendo um “fogo amigo” contra o próprio Vargas.

O caso de Marielle é bem diferente. Sua grande característica é a frieza e profissionalismo dos assassinos. Infelizmente, deu tudo certo. A perseguição, o emparelhamento dos carros em um local pouco iluminado e sem câmeras, os tiros certeiros e a fuga. O planejamento e a execução foram cirúrgicos. Até aqui, são nanômetros de rastros. Ainda não sabemos onde os meandros da investigação nos levarão. Mas acredito que os investigadores tenham iniciado a busca com a tradicional pergunta: a quem interessava a morte da Marielle? E ainda: sua luta e suas denúncias incomodavam a quem?

Sabemos que é cedo para tirarmos conclusões. Mas há outra diferença em relação ao atentado sofrido por Lacerda em 1954. O atentado contra Lacerda foi mais pessoal do que político. Tentaram matá-lo porque ele caluniava e agredia, pelo seu jornal, o Presidente Getúlio Vargas. Marielle não denunciava pessoas especificamente, e sim situações, estados de coisas, que comprometiam muita gente, em várias esferas. E o assassinato da vereadora ganha contornos mais políticos porque sabe-se que, em 1954, queriam calar a voz e a “tinta” de uma pessoa, no caso, Lacerda. No caso de Marielle, sua morte sumária foi um recado para que todas as vozes se calem. Muito, muito diferente.

Em 1954, Lacerda sobreviveu, mas enfraqueceu-se politicamente, a ponto de ter que fugir do Rio de Janeiro para não enfrentar a fúria do povo após o suicídio de Getúlio. Em 2018, Marielle morreu, mas suas bandeiras se fortaleceram e tomaram conta do país. A “vitimização lacerdista” não o levou a nada. O tiro no pé “saiu pela culatra”. Dez anos mais tarde ele foi usado e descartado pelos militares que deram o golpe. Já Marielle, transformou-se no símbolo da luta e da resistência em prol dos direitos humanos. Infelizmente, tiros também mudam o rumo dos acontecimentos políticos. Porém, para nosso consolo, esses mesmos tiros são capazes de colocar as pessoas em seus devidos lugares na história. E, nesse aspecto, Marielle venceu. E de goleada.

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