FORÇAS ARMADAS E OS FORA DE CENA

forças armadasbolsonaro e mourãoQuem entra no Serviço de Inativos e Pensionistas da Marinha, na Praça Barão de Ladário, onde localiza-se o Primeiro Distrito Naval, percebe, nitidamente, a discriminação feita em relação aos beneficiários: ativos, inativos, pensionistas e “anistiados“. Qual o porquê da denominação “anistiados”? Não seriam também eles inativos, como muitos outros? Mas esses militares são, até hoje, estigmatizados porque não concordaram com os rumos de 1964 e, naquele Estado de exceção (e não de direito), eles foram considerados “traidores”. Aí mora o preconceito.

Comecei com esse dado porque temos lido, tanto na mídia impressa como pela internet, declarações de que muitos ainda guardam um preconceito em relação às Forças Armadas, especialmente agora que elas estão no Rio de Janeiro na tal intervenção. Mas vemos que as próprias Forças Armadas guardam preconceitos em seus próprios quadros. Alguns dizem que as Forças Armadas não são mais o que eram há cerca de 50 anos, a mentalidade mudou, os tempos são outros e as ações dos militares são para defesa da lei, da ordem e da segurança do povo. Reconhecemos que há sim um “pé atrás” por parte de muitos, e e isso se explica pelo passado relativamente recente e que está, ainda, vivo em nossas mentes: a ditadura militar matou, torturou, prendeu, censurou, deportou… e suas vítimas não foram apenas guerrilheiros ou pessoas que pegaram em armas. O passado está logo ali. A atual intervenção vai durar cerca de um ano. Em 1964, Castello Branco, o primeiro presidente das casernas pós-golpe de 64, também falou que  aquela intervenção seria curta e terminaria em 1966. Mas não foi isso o que aconteceu.

No entanto, o motivo para o tal “preconceito” não vem por causa daqueles que estão em atividade e sim por causa dos “fora de cena”. É evidente que o general Braga Netto não quer dar um golpe e nem implantar uma ditadura. Até me arrisco a dizer que ele queria mesmo era estar fora dessa. Mas há um setor nas Forças Armadas, do qual o general Antônio Hamilton Mourão faz parte, que quer sim dar um golpe e implantar uma ditadura. O discurso do “intervencionismo” é bem anterior às medidas decretadas no Rio de Janeiro. Bolsonaro e seus seguidores, Mourão e seus seguidores, sempre falaram em intervenção. Porém, com um sentido bem diferente, pois eles querem é mesmo dar um golpe. Em 1964, os “bem intencionados” do grupo castellista foram derrotados pela “linha dura” das Forças Armadas e o 1º de Abril de 1964 acabou sendo apenas um mote para os desdobramentos ulteriores que todos conhecem.

Se é para colocar “ordem na desordem”, tudo bem. Mas não vemos que a força seja o único e último caminho para isso. Acho até que a tarefa dos militares, hoje, é bem mais fácil do que a “guerra” que eles diziam enfrentar nos anos 1960 e 1970. O tráfico de drogas não tem componente ideológico e nem paixões políticas. Então fica tudo mais fácil. Veja o que foi a Colômbia na guerra contra as FARC. Ali eram traficantes ideologizados, coisa que jamais existiu no Brasil.

Quero terminar dizendo que também há um preconceito contra as esquerdas. Porque nenhum esquerdista, hoje, fala em “pegar em armas”. Mas muitos setores da direita falam, eufemisticamente, em golpe com embalagem de “intervenção”. Todas as propostas das esquerdas passam pela via democrática, pelo voto. E, apesar disso, muitos são chamados de “terroristas” pela direita reacionária. O grande problema são os “fora de cena”. Em meio a essa intervenção e ao apoio que a mesma tem da maior parte da população, nesse momento Bolsonaro e Mourão devem estar se masturbando. Aí é que mora o perigo. A jogada política de Temer é notória e conhecida. Claro que ele ganha por um tempo. Mas se os “fora de cena” entrarem em ação e vencerem podemos sim ter um “outro 1964”. E sem anistiados no futuro.

 

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