O MONÓLOGO DO GENERAL

entrevista do generalNinguém é obrigado a dar entrevista, seja individual ou coletiva. Até diante da Justiça, qualquer pessoa tem o direito de ficar calada. Expressar-se é um direito individual previsto no artigo 5º da Constituição Federal, mas não uma obrigação. Portanto, quando alguém, especialmente uma autoridade com uma missão que cria grandes expectativas na população, não quer falar com a imprensa ou com a sociedade em geral, basta mandar uma nota oficial que todos entenderão o recado: a pessoa não quer, não pode ou não deve falar.

Ontem, o general Braga Netto, interventor da segurança no Rio de Janeiro, convocou uma entrevista coletiva para, pela primeira vez, falar sobre a tal intervenção. Há muitas dúvidas, questionamentos, perguntas que o povo quer fazer e que, eventualmente, algum dos jornalistas ali presentes poderia ser o porta-voz. Mas foi uma “entrevista” controlada pelo entrevistado, onde as perguntas teriam que ser enviadas com antecedência. Depois, em uma sala tipo “secreta”, foram previamente selecionadas as perguntas que seriam respondidas. Ao todo foram 16 e, com menos de 25 minutos de “entrevista”, a mesma foi finalizada.

Seria perfeitamente compreensível se o general afirmasse, por meio de uma nota, que não iria se pronunciar por motivos estratégicos. Bastaria dizer que não é momento para se falar. Que qualquer pronunciamento poderia facilitar a bandidagem. Se procedesse assim, o general não frustraria ninguém. Eu mesmo fiquei assistindo à entrevista na expectativa de que algum jornalista fizesse questionamentos que são meus e de muitos como, por exemplo: “haverá ocupação das comunidades?”; “os fichamentos continuarão?”; “os moradores de área ricas também serão fichados?”; “qual o custo de toda essa intervenção e que resultados poderão ser notados a curto e médio prazos?”

Foi uma entrevista “cartesiana”, com tudo previamente estabelecido, sob total controle de quem deveria dar as respostas. E sem direito a interrupção. A decretação brusca do final da “entrevista” gerou um burburinho entre os jornalistas presentes, que foi bem percebido pelo general-interventor que, após sua pantomima, ainda advertiu os presentes dizendo: ” Senhores, no grito não funciona!”

Concordo, general. Que ninguém ganhe nada no grito. Você sabe muito bem quem, historicamente, ganhou as coisas no grito. E esperamos que, dessa vez, não seja a bandidagem.

 

 

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