CARNAVAL, SILÊNCIO E O CHAVE DE OURO

Hoje, dando prosseguimento a nossas histórias do Carnaval, falaremos sobre o Bloco Chave de Ouro, o tradicional bloco da quarta-feira de cinzas.

bloco chave de ouroA medida do Prefeito-pastor Crivella, de aplicar a Lei do Silêncio ao carnaval carioca, lembra tempos antigos de proibições e repressões que marcavam a folia. A Lei do Silêncio não é única em todo país. No Rio de Janeiro, trata-se de uma lei estadual de 1977 e que proíbe nível de som superior a 85 decibéis após as 22 horas. Com isso, os blocos só poderiam desfilar até as 10 da noite. Ultrapassando este horário, o carro de som será apreendido, afirmou o Prefeito.

Essa limitação ao carnaval que, em grande parte é desobediência e inversão de valores por quatro dias, nos faz lembrar dos tempos da repressão, especialmente do Bloco Chave de Ouro, no Engenho de Dentro, que desfilava a partir do meio-dia da quarta-feira de cinzas. O Chave de Ouro tornou-se, especialmente nos tempos da ditadura, um símbolo de contestação e era perseguido pela polícia no dia de seu desfile. Havia pancadaria, quebra-quebra e o comércio geralmente era um dos alvos dos foliões, pelo fato de os comerciantes não terem ajudado no carnaval. Registros jornalísticos dão conta de que o ano mais provável de fundação do bloco foi 1943, em pleno Estado Novo. Acrescente-se que desfilar na quarta-feira de cinzas era, também, um desrespeito ao período da Quaresma.

A Rua Adolfo Bergamini era o ponto tradicional de concentração dos foliões na quarta-feira de cinzas e, muitas vezes, eles tinham que despistar da polícia. É provável que o nome do bloco tenha sido herdado de uma padaria do local que chamava-se “Chave de  Ouro”. O bloco não deixava de ser um foco de rebeldia e resistência, em uma época de extrema censura e falta de liberdade de um modo geral. Há relatos de que os seus participantes usavam até táticas de guerrilha no confronto com a polícia. Contestar a ordem policial era um ato “subversivo” e isso pesava muito na repressão que o bloco sofreu.

No início dos anos setenta, embora a ditadura tivesse atingido seu auge, o bloco passou a ser liberado e a polícia até dava proteção ao desfile. Há quem diga que, por isso, perdeu a graça. Mas a tradição está mantida e, esse ano, o bloco está previsto para sair às 15 horas da quarta-feira de cinzas, com a concentração na Rua Adolfo Bergamini. Se o pessoal do Engenho de Dentro quiser reviver polêmicas e proibições, sugiro que o bloco saia à meia-noite de terça-feira. Chamem o Prefeito!

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