“OS SERTÕES” DE TODOS OS TEMPOS

Dando prosseguimento às histórias do Carnaval, hoje lembraremos do samba-enredo “Os Sertões”, da Em Cima da Hora. Uma das maiores obras-primas do Carnaval do Rio de Janeiro.

em cima da hora 1976

Muitas vezes os feitos geniais entram mais para a história do que os próprios campeões. Isso acontece também no samba. Em 1976, a azul e branco do bairro de Cavalcanti, a Escola de Samba Em Cima da Hora, participando do desfile principal, entrou na Avenida Presidente Vargas com o enredo “Os Sertões”, que narrava a saga da Guerra de Canudos, ocorrida no final do século XIX no interior da Bahia. O samba-enredo da Em Cima da Hora naquele ano foi uma das maiores genialidades de toda a história do samba e sempre estará em qualquer antologia dos melhores de todos os tempos.

Edeor de Paula foi o solitário compositor deste verdadeiro hino do carnaval. Coisa praticamente impossível de vermos nos dias de hoje. Vivíamos outra época, em que os compositores usavam os seus talentos sem a interferência dos carnavalescos, coisa que não mais existe. Os sambas eram puras poesias, encaixadas de forma mágica em melodias que nos encantavam. Hoje, infelizmente, muitas vezes as criações originais dos sambas-enredo têm que ser alteradas por motivos de adaptação ao enredo e até de “merchandising”. Isso sem falar da junção de sambas, quando os retalhos acabam resultando em composições com, às vezes, oito ou mais autores e de qualidade duvidosa.

Em uma entrevista de 2011, o compositor Edeor de Paula contou coisas que talvez poucos saibam. Ele compôs o samba em apenas 17 dias, pois  era novato na Em Cima da Hora, tendo sido levado para a escola de Cavalcanti pelos amigos Geraldo Louriçal e Júlio Viega. Revelou que os versos que mais gosta de sua composição são: “Morrem as plantas/E foge o ar/A vida é triste/ Nesse lugar… E uma declaração surpreendente: o samba quase foi desclassificado na semifinal, mas acabaria ganhando.

“Os Sertões” foi um samba-enredo tão fascinante que, mesmo em um ano de vários sambas de excelente qualidade, ele se destacou e tornou-se a representação daquilo que pode ser chamado de verdadeiro samba-enredo. Com uma letra simples e profunda, retrata de forma irretocável o que significou a Revolta de Canudos. Aliás, se revoltar contra a lei que a sociedade dominada pelos poderosos oferece, ainda é algo em processo no Brasil.

Eu lembro dos desfiles de 1976 assistindo pela TV. E não esqueço do Clóvis Bornay desfilando como destaque na Em Cima da Hora. Mas o regulamento daquele ano era cruel. Quatro escolas seriam rebaixadas e a querida agremiação de Cavalcanti sucumbiu às regras draconianas. Em 2014 eu estava no Sambódromo assistindo ao desfile do Grupo de Acesso, quando a Em Cima da Hora abriu o desfile fazendo o “remake” de “Os Sertões”. E ainda fomos brindados com a presença do Edeor de Paula, o compositor solitário de uma das maiores obras-primas do Carnaval, já com 81 anos, desfilando em um carro. Assim como Canudos jamais se entregou, graças ao Edeor de Paula o ano de 1976 jamais sucumbirá na história dos sambas-enredo. Fiquem com a letra e música da maravilhosa composição da em Cima da Hora, patrimônio de todos os carnavais.

Samba Enredo (1976) – Os Sertões

Em Cima da Hora

Marcado pela própria natureza
O Nordeste do meu Brasil
Oh! solitário sertão
De sofrimento e solidão
A terra é seca
Mal se pode cultivar
Morrem as plantas e foge o ar
A vida é triste nesse lugar
Sertanejo é forte
Supera miséria sem fim
Sertanejo homem forte
Dizia o Poeta assim (bis)
Foi no século passado
No interior da Bahia
Um homem revoltado com a sorte
Do mundo em que vivia
Ocultou-se no sertão
Espalhando a rebeldia
Se revoltando contra a lei
Que a sociedade oferecia
Os jagunços lutaram
Até o final
Defendendo Canudos
Naquela guerra fatal (bis)

 

 

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