BEIJA-FLOR “DE RAMOS” E O GOLPE NA “REVOLUÇÃO”

Prezados amigos, leitores e seguidores: nesta semana do Carnaval, e até a próxima terça-feira, estaremos publicando artigos ligados à história e curiosidades sobre o Carnaval, especialmente sobre as escolas de samba. Começaremos com a Beija-Flor. Acho que vocês irão se surpreender. Boa leitura!

sonhar com rei dá leão

Lembro-me da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis quando ela ainda era pequena. Em 1973 ela foi promovida para o Primeiro Grupo e partir daí passei a torcer por ela. Eu sempre torcia para a escola que era promovida para o primeiro grupo. Até então, eu era torcedor da Unidos do Jacarezinho, mas infelizmente ela foi rebaixada em 1973, quando a Mangueira foi a campeã. Ninguém entendia porque eu era torcedor da Beija-Flor, numa época em que os desfiles das  escolas de samba faziam lembrar o futebol carioca. Apenas quatro eram consideradas grandes: Portela, Mangueira, Salgueiro e Império Serrano. Tirando essas, também seria aceitável eu torcer pela Imperatriz Leopoldinense, visto que eu morava em Olaria. Mas algo existia na Beija-Flor além do critério por mim escolhido de torcer sempre para a escola que subia. Afinal, a Beija-Flor era de Nilópolis ou de Ramos? Sim, porque em documentos oficiais da escola do início dos anos 1970, eram indicados dois endereços: o da Sede Recreativa, em Nilópolis e o da Sede Administrativa, em Ramos. A Sede Administrativa ficava na Rua Euclides Farias, 22, bem próxima da Imperatriz Leopoldinense. No local hoje funciona uma loja das Casas Chamma. Pois é. Isso é um mistério. A Beija-Flor, azul e branca, também era de Ramos. Cheguei a ter uma camisa da escola, presente de um amigo do trabalho de meu pai, chamado Leopoldo. Era uma camisa da ala “Dá Mais Vida”. Não tive mais notícias nem do amigo de meu pai e nem da ala.

A Escola de Nilópolis, que também tinha uma sede em Ramos, notabilizou-se, em sua trajetória até tornar-se grande, por apresentar enredos ufanistas e de exaltação aos feitos dos governos militares. Em 1973, ainda no segundo grupo, a escola foi vice-campeã e conseguiu o acesso com o enredo  “Educação Para o Desenvolvimento”, quando falou do MOBRAL. Chegando ao primeiro grupo, quando o desfile aconteceu na Avenida Presidente Antônio Carlos, por conta das obras do Metrô, a escola continuou em sua linha ufanista e exaltadora do regime militar: em 1974 colocou na avenida o enredo “Brasil no Ano 2000”. Era um enredo futurista, com robôs e outras engenhocas tecnológicas desfilando pela avenida, o que lhe garantiu a permanência no primeiro grupo. No ano seguinte, em 1975, foi a vez do enredo “O Grande Decênio”, quando exaltou os feitos dos “governos revolucionários de 31 de Março de 1964”. Foi encontrada no Arquivo Nacional uma carta enviada ao Presidente da República, o  general Geisel, e assinada pelo então presidente da escola, Nelson Abrahão David, na qual a escola pedia apoio ao general-presidente de plantão.

Não podemos afirmar se os governos militares interferiam nas escolas de samba. No futebol, é sabido que interferiam. Pelo dito ou pelo não dito, o fato é que a Beija-Flor manteve-se no primeiro grupo, em um desfile em que até a simpática Índia Poty, uma das mais famosas “chacretes”, desfilou como destaque. Fica a dúvida se a permanência da escola no primeiro grupo teve ou não o dedo (ou o canhão) do Geisel.

Finalmente, chegou 1976. A censura comia solta. Tempos de AI-5. Poucos anos antes, em  1972, a ditadura militar havia exigido que Dias Gomes mudasse o final da telenovela “Bandeira 2”, da Rede Globo. Isso porque a novela falava da briga entre bicheiros pelos pontos. Felipe Carone encarnou Jovelino Sabonete e Paulo Gracindo deu vida a Tucão. Tucão, além de bicheiro, era patrono da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. Até o Zé Katimba ganhou vida na pele do Grande Otelo. Na trama, Jovelino e Tucão eram inimigos. Na história de Dias Gomes, Tucão não morreria, mas a censura exigiu que ele fosse morto. Manter um contraventor vivo seria um péssimo exemplo para a “moral e os bons costumes”. E Tucão morreu esfaqueado, exatamente no momento em que sua escola entrava na avenida. Pois exatamente em 1976, o que a Beija-Flor faz? Saindo de sua linha ufanista e de exaltação dos governos militares, ela vem com o enredo “Sonhar com Rei dá Leão”, falando justamente do… jogo do bicho. Era tudo que o governo militar não queria. E, com esse enredo, a escola ganharia o seu primeiro título tornando-se, para sempre, grande. Teria sido um golpe na “revolução” e uma ingratidão à suposta ajuda de Geisel em 1975? Ou será que foi uma vingança à morte de Tucão? Certa vez tive a oportunidade de estar com o Joãosinho Trinta mas, sinceramente, não tive coragem de perguntar a ele. Tudo bem. Ele levou o segredo. Como o Carnaval é complexo…

 

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