REPÚBLICA E LUÍS XIV NA TERCEIRA PESSOA

república-monarquiaA palavra “república” é de origem latina e significa “coisa pública”. Teoricamente, portanto, aquilo que pertence a todos e não a ninguém ou a nenhum pequeno grupo em particular. Pensando em seu significado, que “república” tivemos no Brasil a partir de 1889? Teria sido a proclamação, realmente, uma coisa para todos?

Para começar, o dia 15 de novembro de 1889 caiu numa sexta-feira. O fim de semana estaria logo ali, mas não seria para o povo comemorar coisa alguma. Porque o povo não sabia de coisa alguma. Porque o povo não participou de coisa alguma. Porque o povo nem sequer sabia o que estava acontecendo naquela manhã no centro do Rio de Janeiro. Alguns, ao verem aquele cortejo com o velho marechal à frente, pensavam que fosse algum treinamento ou desfile militar. Aquele monte de militares fardados, tendo à frente o monarquista (isso, isso mesmo, o monarquista!) marechal Deodoro da Fonseca, que os golpistas conseguiram fazer acreditar em alguns boatos, vestir a farda e ir para a rua derrubar o governo imperial de seu amigo D. Pedro II, tomaria o poder. O Imperador, que não estava no Rio de Janeiro, ao saber do movimento,  não acreditou que queriam derrubá-lo. Deodoro, ao tornar-se o primeiro presidente do Brasil, na verdade pretendeu ser o nosso terceiro imperador, pois tentou governar de forma despótica e absolutista. Pensava que governar um país era o mesmo que dar ordens em um quartel. Não resistiu às pressões, renunciou, deixou o país pegando fogo e trocou a farda pelo pijama para sempre.

Que “república” foi aquela, em que as mulheres não podiam votar? Que “república” foi aquela, em que  uma oligarquia de  “coronéis” tinha todo o poder? Que república foi aquela, em que a luta pelos direitos trabalhistas era respondida pelos governantes com tiros e prisões? A “república” virou uma “coisa privada”, de uns poucos fazendeiros que usufruiam de todos os direitos e benefícios. O povo, literalmente de fora,  explodia em revoltas pelos seus direitos e participação na vida pública.

E o que chegou até nós? Se pararmos para verificar, aquela “república de poucos” ainda permanece. O lado monárquico da república cada vez está mais visível. Filhos e netos de deputados são deputados. Filhos de governadores e de senadores são prefeitos. Netos de ex-presidentes são ministros e deputados. Filhos de deputados são prefeitos e vereadores. O poder dessa gente é hereditário e vitalício.  Nossa estrutura política “republicana” explica-se mais pelos “clãs” do que pelos partidos. Sarney no Maranhão. Calheiros em Alagoas. Magalhães na Bahia.  Picciani no Rio de Janeiro. Todos com direito a foro privilegiado, com leis especiais. Algo que a Revolução Francesa varreu em 1789, quando pôs fim ao absolutismo. Mas que no Brasil está mais forte do que nunca. Eis o que o 15 de novembro nos trouxe.

Ainda estamos longe de sermos uma verdadeira “coisa pública”. Se o Estado representa a República, e cada vez mais, as mesmas pessoas falam em “Estado mínimo”, “privatizar é preciso”, o que nos restará? Na verdade, eles não querem o “Estado mínimo”. Eles querem o Estado, ao máximo,  para eles. Como já vem sendo há muito tempo. A nossa “república” não é “pública”, é privada. E não é S/A, é companhia limitada. “O Estado são eles e é deles”.  É o “Luís XIV na terceira pessoa”. Viva a República!

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