VERDADES DE MARCINHO

marcinho vpNo último sábado, dia 21 de outubro, foi lançado na quadra da Mangueira o livro autobiográfico de Márcio Santos Nepomuceno, o “Marcinho VP”, preso há 21 anos, sendo 10 deles em regime disciplinar diferenciado (RDD), que está sendo cumprido em Mossoró, Rio Grande do Norte. Prefaciado pelo Juiz de Direito Luís Carlos Valois, a obra tem co-autoria do jornalista Renato Homem. O título do livro – “Marcinho – Verdades e Posições – O direito penal do inimigo”é bem sugestivo e, em vários aspectos, representa um contraponto às políticas oficiais de segurança. É interessante ouvir de  alguém encarcerado há 21 anos afirmações que, em alguns casos, corroboram teses bem antigas. E são corroborações interessantíssimas. Estou na metade da leitura do livro e já observei que as “verdades e posições” de Marcinho VP são, em muitos casos, sinais de alerta. Entendo que o livro deva ser lido pelas autoridades. Acredito que várias delas estejam lendo.

Um ponto abordado no livro diz respeito à origem do Comando Vermelho, a organização criminosa mais antiga do Rio de Janeiro, e gênese para as demais. Há uma tese, defendida há tempos por especialistas de várias áreas, que afirma que o surgimento de facções criminosas organizadas foi decorrência de um gravíssimo equívoco dos governos militares de misturar presos políticos com presos comuns. Já ouvi essa tese (e concordo com ela) de vários especialistas. Mas nunca tinha visto esta explicação para a origem de organizações criminosas vinda de um preso. Até porque eles nunca possuem voz, principalmente em um presídio de segurança máxima, que equivale a um banimento. E, no livro, Marcinho VP dá exatamente essa explicação.

Tudo começou em fins dos anos 1970, no Presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande. Em plena ditadura militar, opositores do regime como artistas, escritores, jornalistas, intelectuais em geral, cujos atos eram tipificados como “crimes políticos” foram levados para o isolamento na Ilha Grande. A convivência de ativistas políticos com presos comuns levou a uma união, onde o espírito coletivo de todos os presos se sobrepunha a eventuais diferenças individuais. Na situação em que se encontravam, a prioridade do coletivo sobre o individual poderia até ser uma questão de sobrevivência. Essa união foi resultado dos ensinamentos dos presos políticos. Criou-se, então, a “Falange Vermelha”, que mais tarde seria rebatizada como “Comando Vermelho”. O objetivo original da organização não era praticar crimes e sim arrecadar recursos para pagar advogados e lutar pela melhoria de condições dos presos. Assim, os “subversivos”, como eram rotulados os presos políticos durante a ditadura, exerceram uma influência natural sobre esse “coletivo” que era priorizado. “Paz, Justiça e Liberdade”  foi o lema inicial da organização.

Há um capítulo imperdível sobre outro presidiário, Sérgio Cabral Filho, a quem Marcinho VP chama de “o maior Judas que já conheceu”.

Recomendo a leitura do livro de Marcinho VP em co-autoria com Renato Homem. Sem preconceitos. O próprio juiz de direito que prefacia a obra, Luís Carlos Valois, atesta a importância da mesma. Há quem diga que não leria livros escritos por presidiários. Mas esses também dizem verdades. Estou até hoje aguardando o tão prometido livro do presidiário Eduardo Cunha. Mas esse não irão deixar publicar. Deve fazer parte do “acordão”.

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