A BANDOLEIRA NA ILHA DA UTOPIA

utopiajóiasAdriana Ancelmo, a “bandoleira do Leblon”, vai fazer as provas do ENEM em novembro. Ela quer voltar para a faculdade. Pretende estudar Letras e Ciências Sociais, segundo informações divulgadas ontem no site da CBN. Aliás, ontem foi dia de depoimento dela e do seu par criminoso Sérgio Cabral em um dos processos a que o casal de bandidos responde por compra de jóias com o dinheiro da corrupção. Enquanto seu par perfeito afrontou o juiz Marcelo Bretas, falando até da vida pessoal do juiz, o que irritou o magistrado, a bandoleira do Leblon ficou calada. Claro que o silêncio da bandida sugere comprometimento. Ou então, ela estaria absorvida pela leitura. Na audiência de ontem, Adriana fez questão de chegar portando o livro do moçambicano Mia Couto “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”. Leituras como essas devem ser boas, pois já preparam a bandoleira para suas futuras atividades. Ela está com seu registro de advogada prestes a ser cassado pela OAB e já quer pensar sobre o que fará depois que sair da “prisão” em seu apartamento no Leblon. Por isso quer estudar Letras e Ciências Sociais. O juiz autorizou a bandida a fazer as provas do ENEM, em novembro. Ela fará provas junto com outras pessoas presas, aqueles presos comuns, que fazem cocô no “boi” do presídio em Bangu,  e não em um banheiro luxuoso de um apartamento na Zona Sul. “Isonomia de condições”. Até para fazer cocô as condições são desiguais. Por essa e por outras que essa tal de meritocracia nunca me convenceu.

Mas a leitura da “presidiária domiciliar” Adriana Ancelmo é bem sugestiva. A obra do escritor moçambicano Mia Couto nos fala de uma misteriosa ilha onde se registram acontecimentos fantásticos. No entanto, creio que faria bem à “presidiária domiciliar”  uma outra leitura, principalmente porque ela quer estudar Letras e Ciências Sociais: “A Utopia”, de Thomas Morus. Morus foi um humanista do Renascimento decapitado a mando do Rei Henrique VIII por manter-se fiel ao catolicismo. Foi canonizado pela Igreja Católica. Em sua “Utopia”, Morus nos fala também de uma ilha, chamada Utopia, um país imaginário, onde existiria um regime social perfeito. Já que a “presidiária domiciliar” quer estudar Letras e Ciências Sociais, esse clássico da literatura renascentista tem tudo a ver com a nova profissão que pretende seguir. Principalmente porque há uma passagem na “Utopia” que a dona Adriana Ancelmo deveria certamente se inspirar nela. Até porque ela sempre se disse inocente. E  talvez seja muito útil em seus próximos depoimentos. E que passagem é essa?

Na Ilha da Utopia, o ouro não tinha nenhum valor. Sua única serventia era para fazer brinquedos para as crianças. Certa vez, a Utopia recebeu a visita de embaixadores de um outro país. Os visitantes, para exibirem riqueza, opulência e poder, visando impressionar os anfitriões, estavam todos cobertos de ouro: roupas, cordões, pulseiras e diversos adornos de ouro. Crentes que estavam “abafando”. Mal sabiam eles que na Utopia o ouro não valia nada e só servia para fazer brinquedos de crianças. Uma criança, ao ver aqueles visitantes cheios de ouro, falou para sua amiga:

“Olha aqueles grandalhões. Ainda brincam com os nossos brinquedos!”

Sugiro para a “bandoleira do Leblon”  que na próxima audiência não fique calada. Já que ela diz ser inocente em relação aos milhões em jóias que ostentou, bastará dizer para o juiz:

“Excelência, eu sou inocente! Eu sou apenas uma criança na Ilha da Utopia!”

 

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