PORRADA, FRAUDE E GRANA

dinheiro nas eleiçõesA história da participação política, e do voto em especial, no Brasil,  é muito tortuosa. Por muito tempo, quando só os mais ricos podiam votar, as eleições eram decididas na base da pancadaria. Era na porrada mesmo. As famosas “eleições do cacete”, como ficaram conhecidas as eleições de 1840, na época do Império, foram seguidamente reeditadas durante muito tempo. Mas, além do “cacete”, as fraudes eram muito comuns. Coronel fraudava daqui, coronel fraudava dali e o que perdia nem podia reclamar. Ganhava quem fraudava mais.

A crescente universalização do direito ao voto e a criação da Justiça Eleitoral, na Era Vargas, trouxeram algum avanço, mas uma marca parece prevalecer em nossas eleições. Se as porradas são dissimuladas e as fraudes são raras, o dinheiro nunca saiu de cena. Há tempos que o poder econômico vem definindo os resultados eleitorais. Mas a influência do poder econômico sofreu um revés com o fim do financiamento privado de campanhas por empresas. Eleição era investimento. As relações subterrâneas entre candidatos, partidos e empresas desvelaram os maiores escândalos de corrupção. Acabaram com o financiamento de empresas, mas permitiram o financiamento de pessoas físicas.

Então, começou o debate: financiamento público ou privado? E agora,  mais uma vez, a questão foi “resolvida” por nosso Congresso: além do impopular e bilionário fundo eleitoral público,  aprovou-se o autofinanciamento. Então, depois das histórias de porradas e fraudes, mais uma vez a grana vai mostrar-se decisiva nos resultados eleitorais. E agora,  se uma empresa não pode mais financiar uma campanha, o empresário pode financiar sua própria campanha. Isto é o autofinanciamento. E não há limite para isso. Imaginem, por exemplo, o latifundiário Ronaldo Caiado (DEM), o banqueiro João Amoedo, candidato a Presidente da República pelo Partido Novo e o empresário João Dória (PSDB) financiando suas próprias campanhas… Claro que o poder econômico, mais uma vez, vai ser determinante. Como ficam os candidatos mais pobres, que não podem bancar suas próprias campanhas? Tudo isso não é diferente de comprar cargos eletivos.

Então ficamos assim: porrada e fraude. Mas o dinheiro não pode faltar. Essa tal reforma política pode ser resumida em uma afirmação tradicionalmente atribuída ao coronel mineiro Antônio Carlos, aquele mesmo que dá nome a uma rua no Centro do Rio de Janeiro: “vamos fazer algumas mudanças, para que tudo continue como está…”

 

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