QUEERMUSEU: O ÚLTIMO TANGO NO RIO DE JANEIRO

último tango em parisqueermuseuA celeuma criada pela exposição Queermuseu parece estar ganhando um sentido oposto àquilo que Crivellas, Dórias e “Torquemadas do MBL” esperavam. A polêmica que envolve a exposição ganhou grande destaque na mídia, inclusive internacional. E essa  polêmica dividiu o país. E não venhamos com eufemismos: a exposição foi censurada tanto pelo Prefeito-Pastor do Rio de Janeiro como pelo Prefeito Engomadinho do Tietê. E se há uma coisa que não se pode negar é que, de um modo geral, o proibido atrai.  Já ouço pessoas dizendo que querem visitar a exposição para ver o que, realmente, ela possui de tão absurdo. Pedofilia? Zoofilia?

Este episódio que envolve uma exposição de arte, em pleno século XXI, no Rio de Janeiro, e que tem como tema a sexualidade,  me traz à lembrança o filme “O Último Tango em Paris”, de 1972. O filme havia sido censurado no Brasil. Estávamos na ditadura, em plena vigência do AI-5. Nunca me interessei em assistir ao filme, mas a censura chamou a minha atenção. E a famosa “cena da manteiga” com Marlon Brando e Maria Schneider não saía da minha imaginação. Esta cena transformou-se no ícone do filme e eu queria vê-la. No Brasil, o filme só foi liberado em 1979, sete anos após o lançamento.  Eu estava com 19 anos. Enfrentei uma fila interminável na Praça Floriano, na Cinelândia, para assistir ao polêmico filme. E, no final, me perguntei decepcionado: “Mas era isso?”. O filme foi recorde de público à época, graças à censura.

Soube-se da presença de crianças na referida exposição em Porto Alegre, quando ocorreu o ataque dos “Torquemadas do MBL” ao evento, que acabou suspenso. Soube-se também que, na entrada da performance com nudismo, havia a referida indicação, como também soube-se que as crianças entraram acompanhadas dos pais. Poderia haver uma indicação etária, sem nenhum problema. Até entendo que deveria haver. E, nesse caso, que os pais fossem chamados a darem explicações.  Mas a reação inquisitorial à exposição está desproporcional aos fatos e aos tempos em que vivemos (ou pensamos viver).

Não nos esqueçamos de que a nudez é algo presente na arte há muito tempo. O corpo humano, que foi tabu durante séculos, já era revelado e valorizado na arte grega antiga. Mas Platão o desvalorizava, tanto que expulsou “poetas e artistas” de sua República. A arte, para ele, era “cópia da cópia” ou “a imperfeição do imperfeito”. A visão platônica de mundo tinha o corpo como imperfeito e desprezível, dada a sua finitude. Com a arte do Renascimento, o corpo humano retoma o protagonismo estético, inclusive com a nudez. Mas os renascentistas também eram cientistas. Eles dissecaram cadáveres para mostrar-nos a circulação do sangue. E Montaigne sentenciou a imperfeição humana: “somos podres por dentro”. Então, não é só beleza. Tudo só foi possível com o protagonismo do corpo, em todos os aspectos.

Depois de retirada antes do tempo de Porto Alegre, ser censurada em São Paulo por Dória e também no Rio por Crivella, abriu-se a possibilidade de a exposição ser exibida pela Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro, no Parque Lage,  de administração do Estado. Claro que a mostra de arte já desperta interesse. E seus organizadores devem ficar atentos a eventuais ataques dos “Torquemadas do MBL”, que já estão em plena campanha para elegerem o Engomadinho do Tietê presidente em 2018. Pois que venha “O Último Tango no Rio de Janeiro”!

 

 

 

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