O BRASIL EM TEMPOS DE TREVAS

trevascensuraAinda não tivemos a sensação de viajar no tempo, apesar de a Teoria da Relatividade ter sido proposta há mais de um século. Mas parece que não precisaremos aplicar a teoria proposta por Einstein para termos uma sensação de que estamos retrocedendo. E não é com uma linda história de amor como “Em Algum Lugar do Passado”. Inquisição, “caça às bruxas”, demonização, intolerância e fundamentalismo de todos os tipos. Aí estão eles, no dia a dia.

Estamos no Brasil, em pleno século XXI. Que a direita e os setores mais conservadores da sociedade vem crescendo em nosso país, disto não restam dúvidas. A política é cíclica. Vários fatores contribuem para isso. E o fenômeno ocorre em vários países. Vejam o caso dos EUA e de vários países da Europa. Mas no Brasil tem sido assombroso. Querem censurar as aulas e até as provas que os professores elaboram para seus alunos. É o Projeto Escola Sem Partido.  Tramitam na Câmara dos Deputados projetos para censurar a internet, especialmente as redes sociais. São frequentes os ataques a templos religiosos, como a Casa do Mago, no Humaitá, Rio de Janeiro, como também em centros espíritas na Baixada Fluminense. E não são casos pontuais. Alunos vem sendo hostilizados e violentados nas escolas por motivos religiosos ou de orientação sexual. Querem criminalizar o funk. Agora, chegou a vez da arte. A Exposição Queer Museu, do Santander Cultural, em Porto Alegre, foi fechada antes do tempo. O tema da mostra era diversidade sexual. O MBL, movimento político ultra-reacionário, que tem muitos jovens entre seus militantes e que já promove o Escola Sem Partido, acusou a exposição de incentivar a pedofilia, zoofilia e de promover a sexualização infantil. Aliás, o MBL, que nada faz contra o governo Temer, já que foi por ele cooptado, certamente almeja o cargo de Ministro da Censura. Talvez eles estejam negociando com Temer a criação desse novo Ministério. Eles, que já censuram os professores, agora estão censurando a arte. É bom que se diga que, após a denúncia dos ultra-fascistas do MBL, o promotor Júlio Almeida esteve visitando a exposição e negou todas as acusações do movimento direitista.

A linguagem artística é polissêmica, muitas vezes anuivada. É relativismo puro. É multivisão. A mesma obra que pode causar um arrebatamento de prazer estético em um, poderá causar repulsa em outro. Prazer e até nojo caminham juntos. A própria exposição apresentava-se como diversidade sexual. A Constituição Federal assegura que não há censura prévia. O que ocorre, no caso de filmes, shows musicais, peças teatrais, é a classificação etária, algo que parece ainda não existir para exposições de artes plásticas. Mas o caso da exposição do Santander, é como se um filme fosse tirado do ar, ou um livro ou uma música fossem tirados de circulação.

Infelizmente, a maior parte da juventude do MBL e outros de grupos similares, que até exaltam a volta da ditadura não sabem, e tomara que nunca saibam, o que é lutar por democracia, liberdade de expressão, tolerância, eleições livres. Eles já nasceram com tudo isso. Talvez por isso não não deem tanto valor. Nossa diferença com eles pode até nem ser só no âmbito  político, mas certamente também é um choque de gerações. Eles e outros nunca irão valorizar aquilo que, se para eles foi uma dádiva, um ponto de partida,  para nós foi uma conquista, com muito suor, sangue e vidas de pessoas que jamais pegaram em armas, diga-se de passagem. Antes que alguém venha falar em guerrilha.

De todas as definições de democracia, talvez a que mais seja pertinente para o Brasil no momento é aquela que diz ser a democracia o convívio e respeito às diferenças. Aliás, recentemente um simpatizante do MBL enviou-me uma mensagem dizendo que, ao assistir a um vídeo no meu blog,  parou de ver logo no início porque não aceitou que eu chamasse o MBL de neofascista. Legal. Agradeci a visita e disse que meu blog sempre estará aberto ao contraditório. Receio que eles queiram tirar o meu vídeo do ar.

 

 

 

 

A CARTOGRAFIA LACERDISTA

6n5jdyx0y5tydhcuwcgerhs03rocinhaComo seria o mapa da cidade do Rio de Janeiro se, ao o desenharmos, omitíssemos ou escondêssemos  todas as favelas? Acho que pouquíssimos bairros ficariam inteiros, pois quase todos possuem favelas.  Parece que a tendência da administração do Prefeito-pastor é essa. Desde ontem vem sendo veiculada a notícia  sobre a  iniciativa da Riotur, empresa municipal de turismo, de distribuir para os turistas folhetos com os mapas turísticos da cidade escondendo as favelas. A empresa de cartografia contratada para o serviço escondeu nos mapas impressos algumas das principais favelas da zonal sul, colocando, no lugar das comunidades, “áreas verdes”, algo que, pensei que não existisse, poderiam ser chamados de  “fotoshops cartográficos”. Comparando-se os mapas de satélite do Google Maps com os que são mostrados nos folhetos, percebe-se claramente o enxerto de “pseudos-áreas verdes” cobrindo comunidades importantes.

As comunidades de Dona Marta (Botafogo), Babilônia e Chapéu Mangueira (Leme) e Cantagalo (Copacabana) desapareceram do mapa. A Rocinha, em São Conrado, está quase toda suprimida. Esses efeitos de “fotoshop cartográfico”, ao “embelezarem a cidade impressa”, ao mesmo tempo ignoram a existência de cerca de 1 milhão e 500 mil pessoas. Isso sem contar que tais comunidades são emblemáticas para o próprio turismo da cidade. A comunidade do Dona Marta, em 1996, recebeu a visita de Michael Jackson, o ídolo de todas as gerações,  e até hoje ali se encontra a estátua do pop star. A Rocinha, além de ser internacionalmente conhecida, é uma das maiores favelas do mundo e ainda tem uma escola de samba, a “Acadêmicos da Rocinha”. Todas as comunidades suprimidas possuem atividades culturais importantes e são também frequentadas por turistas, especialmente no Reveillon, quando muitas delas oferecem os famosos “serviços da laje” para os turistas assistirem ao show da virada do ano.

A empresa de cartografia responsável pela elaboração do mapa alegou que a supressão das comunidades teria sido uma recomendação do IBGE, visto que, em quase todas, as áreas não são regularizadas. Ocorre, porém, que o IBGE nega ter dado essa recomendação, o que nos permite concluir que trata-se de puro preconceito de uma Prefeitura que não gosta de carnaval, de samba e, ao que tudo indica, também de pobre. Até porque, não devemos esquecer, existem áreas e construções não regularizadas também no asfalto. Vez por outra surgem notícias de construções irregulares em áreas nobres da cidade. E estas não foram suprimidas.

Essa atitude discriminatória, segregacionista e preconceituosa, infelizmente tem um vasto histórico em nossa cidade. Pereira Passos, no início do século XX, com a famigerada operação “Bota-Abaixo”,  baniu a população pobre do centro da cidade, mandando-a “ao Deus dará”  para entregar o local às camadas de “fino trato”. Abria-se a Avenida Central escondendo a pobreza da cidade, sem dar qualquer chance àquelas pessoas.  Nos anos 1960, o então governador udenista Carlos Lacerda baniu comunidades da zona sul que eram consideradas estorvos em seu processo de embelezamento do Rio de Janeiro. A Praia do Pinto que o diga.

A cartografia da Riotur parece ter uma inspiração em casos pretéritos e nada saudosos de nossa cidade. Esperamos que esta supressão seja só no papel. E que este mapa, de inspiração claramente lacerdista, nunca conste nos livros que a Prefeitura distribui aos nossos estudantes.

 

ELITISMO E CRIMINALIZAÇÃO DO FUNK

capoeirasambafunkQuerem criminalizar o funk. O projeto de lei que prevê tal medida tramita no Congresso Nacional. Sua origem foi o Senado, através de uma proposta enviada por um empresário paulista que contou com mais de 20 mil assinaturas de adesão. A situação do funk não é muito diferente das de outras expressões culturais de origem negra que chegaram ao Brasil e que incomodavam a “Casa Grande”. Mas apesar das perseguições, muitas dessas manifestações acabaram sendo apropriadas pelos próprios grupos elitistas (e seus descendentes) que as deploravam em tempos idos.

Primeiro foi a capoeira. No Brasil, sua prática era proibida aos escravos, que a praticavam como defesa e benefício à saúde. Era também, para os cativos, um exercício “anti-stress” importante para a vida que levavam. Havia um certo sincretismo entre os negros, que misturavam a prática da defesa com a dança. A escravidão acabou, mas a prática da capoeira foi legalmente considerada “criminosa, violenta e subversiva” até 1930, quando Getúlio Vargas acaba incorporando-a à cultura brasileira. A partir daí, ela passava a ser não apenas uma “arte negra”, mas também um “esporte branco”. Certamente muitos dos descendentes que chamavam a capoeira de “ato criminoso”, hoje a praticam.

O samba não teve vida diferente. Ser sambista era  sinônimo de ser “vagabundo”“bandido”“criminoso”“vadio”. Era comum os sambistas serem presos. A Praça Onze, berço do samba, era vista pelas elites como um “gueto”, com o qual eles não podiam “se misturar”. O lugar deles era na luxuosa Avenida Central, assistindo e participando do não menos luxuoso desfile das grandes sociedades carnavalescas. Samba era coisa de “preto e bandido”. Hoje, muitos dos descendentes desses elitistas de outrora se refastelam nos luxuosos camarotes da Sapucaí. É o samba, que agora também tem muitas loirinhas de olhos azuis.

Chegamos, enfim, ao funk. Sua origem, assim como a da  capoeira e do samba, reside nos movimentos culturais negros. O funk, como gênero musical, originou-se da soul music e de outros ritmos no epicentro do movimento negro dos EUA e teve um ícone na virada da década de 60 para 70: James Brown. Nessa época o funk chega ao Brasil, onde iria se popularizar no Movimento Black Rio, que teve como representantes nada menos que Tim Maia, Tony Tornado e Carlos Dafé. Sua popularidade atingiu as regiões mais pobres, especialmente das grandes cidades, discriminadas em tudo: sem segurança, saúde, habitação digna, lazer. Em grande parte, tal como a capoeira e o samba, o funk também representa “mensagem e resistência”  de grupos historicamente oprimidos. O ritmo evoluiu e chegamos, finalmente, aos “pancadões”. Agora, querem criminalizá-lo.

Não nos esqueçamos que, assim como a capoeira e o samba, o funk já atravessa fronteiras sócio-econômicas. Os “pancadões” (nos dois sentidos, como ritmo e como porrada mesmo) já acontecem em lugares nobres, de gente “bem criada”.

A absurda proposta quer considerar o funk como “crime de saúde pública”, por espantoso que possa parecer. Receio que a elite desse país precise de um “sacode”. Acho que eles é que estão ficando doentes. “Pancadão” neles!

 

CHAMEM A YOANI SANCHEZ!

yoanicensura pá internetYoani Sanchez é uma famosa blogueira cubana, que ganhou o mundo viajando por vários países, financiada sabe-se lá por quem,  para pregar a liberdade de expressão. Ela é dissidente do regime castrista e, em sua missão democrática,  sempre denunciava a censura e o desrespeito à liberdade de expressão em seu país. Como blogueira, dizia-se diretamente afetada,  porque lá em Cuba a internet é censurada. Em 2013 ela visitou o Brasil contando suas dificuldades de ser blogueira em um país onde não se pode falar mal do governo. Principalmente por ser oposição ao regime.

Em pouco tempo no Brasil, ela tornou-se logo a “musa de coxinhas e coxões” . Isso, até a ascensão meteórica da Sra. Janaína Paschoal, a  “doutora dos 35 mil reais”. Yoani Sanchez teve uma agenda cheia em sua visita ao Brasil e, no Rio de Janeiro, o deputado tucano Otávio Leite fez as honras para a menina-ícone das liberdades democráticas e de expressão.

2017, Brasil. Tramitam na Câmara vários projetos que proíbem os internautas  de “falarem mal” de políticos na rede. Alguns dos projetos até preveem prisão aos infratores. Pelas propostas que tramitam, qualquer postagem que seja considerada ofensiva a políticos poderá ser apagada da rede.  É necessário esclarecer que esse tipo de proposta já havia sido feita pelo bandido (atualmente encarcerado) que presidiu a Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e agora está tomando força e velocidade em sua tramitação.

Na verdade, isto é bem sintomático. Especialistas já fazem a predição de que, nas eleições de 2018, a internet terá um papel fundamental, talvez decisivo. A redução de recursos com o fim dos financiamentos privados de empresas secou a fonte da dinheirama que ganhava eleições. O acesso à internet no Brasil vem se consolidando e a rede virou um grande foro de debates, em todos os níveis, incluindo, infelizmente,  as táticas fascistas como “fake news”. Mas enfrentar táticas fascistas também faz parte da luta e do debate político. Hoje a internet, em especial o Facebook, vem sendo uma gigantesca plataforma de debates políticos e até de transmissões ao vivo de atividades de partidos, candidatos, cientistas políticos, militantes… Não há como frear essa evolução que, inclusive, tende a crescer.

É evidente que os tais projetos nem  esquentarão na Comissão de Constituição e Justiça (será? Olha o Temer aí!). A Constituição consagra, em seu artigo 5, a liberdade de expressão, além de vedar qualquer censura de natureza política ou ideológica.

Se esse absurdo for aprovado,  meu blog encerrará suas atividades. O site do MBL também. As comunidades tucanas e pró-bolsonaristas também. Será muito chato. Não quero a censura. Quero todos no ar, até porque preciso de mídias para rasgar e para quebrar.

Em 2013, vários partidos e grupos  se uniram para ovacionar a blogueira cubana no Brasil: tucanos, bolsonaristas e seres afins.  Peço a eles, então, um grande favor: Chamem a Yoani! Seria muito interessante ouvirmos o parecer da heroína da liberdade de expressão sobre a ameaça de censura à internet no Brasil.

SÍRIA: GUERRA E A ESPERANÇA DA SELEÇÃO REFUGIADA

guerra síriasíria x irãNa última terça-feira, dia 5 de setembro, vários jogos foram realizados pelas eliminatórias da Copa de 2018. Mas nenhum trouxe tanta emoção e simbolismo como o confronto entre Irã e Síria, ocorrido em Teerã. A Síria perdia por 2 a 1 quando, no último minuto dos acréscimos do segundo tempo, Omar Al-Soma assinalou o gol de empate para os sírios. A derrota acabaria com qualquer chance de classificação da Síria. O gol de Omar Al-Soma fez renascer as esperanças de, pela primeira vez na história, a Síria participar de uma Copa do Mundo.

Parece que o drama da seleção síria é um reflexo do que vive o sofrido povo daquele país há 6 anos. A Guerra Civil da Síria, iniciada em 2011,  já entrou para a história como uma das maiores tragédias da humanidade. As estatísticas da tragédia já contabilizam cerca de meio milhão de mortos, 5 milhões de refugiados e quase 8 milhões de pessoas desalojadas. O sofrimento do povo sírio, a peregrinação dos refugiados e a falta de perspectiva para o fim do conflito enchem o mundo de ceticismo sobre o que ainda poderá acontecer. Três grupos que se odeiam estão na cena da cruenta guerra: as tropas leais a Bashar al-Assad, a oposição a Assad e o Estado Islâmico.

O gol da Síria marcado no último minuto do jogo nos levou a ver imagens que há tempos não víamos: sírios orgulhosos com suas bandeiras, felizes, emocionados com o gol que ainda lhes dá esperança. Apesar da guerra, das perdas, da destruição, aquele gol foi capaz de, por um momento, fazer a alegria de milhares de sírios e, por algum tempo, dar a esperança de que, em 2018, o país tenha motivos nobres para ser notícia, estando na Copa da Rússia. O futebol não é apenas ópio. Ele também é bálsamo. É paz. É harmonia.

As dificuldades são tão grandes que, se o povo sírio está refugiado, sua seleção também está. Desde quando estourou o conflito que a seleção da Síria não joga na Síria. Até essa vantagem de jogar ao lado do seu torcedor, os jogadores da seleção não podem ter. Quando a Síria tem o mando, está jogando na Malásia, bem longe dali. E essa seleção refugiada tem sido a esperança de milhares de sírios, que se orgulham do seu país e querem vê-lo na Copa do Mundo.

Como dissemos, além de ópio, o futebol é bálsamo. E a história mostra isso. Lembro-me do timaço do Santos de Pelé que, em 1969, parou uma guerra na Nigéria. Os separatistas de Biafra e as tropas do governo cessaram fogo para ver Pelé e Cia. jogarem. Naquele dia, na Nigéria, o futebol trouxe a paz, minimizando o sofrimento e até trazendo reflexões sobre o porquê de cada um estar naquele conflito. Mais recentemente, em 2004, a seleção brasileira realizou um amistoso contra o Haiti, levando para aquele povo um bálsamo para atenuar o seu sofrimento.

Parece que o futebol ainda tem o poder de fazer alguns milagres. Que a seleção refugiada da Síria consiga vencer as duas repescagens que ainda terá que enfrentar. Não será nada fácil. Como não tem sido nada fácil a vida dos sírios que sobrevivem a esta tragédia. Que o gol de Omar Al-Soma seja um “tiro” que, em meio a toda tragédia, leve muitas alegrias ao sofrido povo da Síria.

INDEPENDÊNCIA PARA QUEM ?

independencia do brasilescravidãoEm 7 de setembro de 1822 o Brasil tornava-se, oficialmente, independente de Portugal. O “Grito do Ipiranga”, no entanto, não significou a independência para todos. A escravidão continuava. A grande maioria  do povo não podia votar. As terras e todas as riquezas continuavam nas mãos dos mesmos. O ato “heroico” do príncipe português D. Pedro contemplava apenas os anseios de uma elite latifundiária e escravista que via  seus interesses serem contrariados com a política colonial. Os testemunhos dos que acompanhavam a comitiva do príncipe são quase que unânimes ao dizerem que a “parada técnica”  às margens do Rio Ipiranga teve como motivo uma necessidade fisiológica. Isso tem um grande simbolismo: ele cagou para o povo brasileiro. E isso ficaria muito claro nos seus 9 anos de governo, até ir embora em 1831 e tornar-se D. Pedro IV de Portugal.   A Independência não alterou a estrutura social, econômica e política do Brasil que manteve, após o “7 de Setembro”, as heranças injustas da colonização.

Ao “Grito do Ipiranga” seguiram-se vários “Gritos dos Excluídos”, os gritos daqueles que queriam sim a independência, mas uma independência acompanhada de mudanças que levassem a uma sociedade justa. Como a Independência não tinha vindo para todos, não tardaram a surgir rebeliões, de norte a sul do país, daqueles que já eram excluídos desde a época colonial. Essas revoltas estenderiam-se por todo o Império e República, mostrando que a Independência era um  processo: quando escravos lutavam pela sua liberdade; quando camponeses lutavam por terras; quando mulheres lutavam pelo sufrágio; quando trabalhadores lutavam por seus direitos… Em todos esses casos, a Independência estava sendo conquistada, com muitos deles dando suas vidas por uma sociedade mais justa.

Hoje, passados 197 anos do “Grito do Ipiranga”, outros  “gritos” , não oficiais, ainda se ouvem na busca por um  Brasil verdadeiramente livre e soberano. O grito dos trabalhadores contra os ataques a seus direitos conquistados; o grito  dos estudantes por melhor ensino;  o grito de negros e mulheres  por uma verdadeira inclusão social; o grito das populações indígenas por suas terras e direitos;  o grito do povo, de um modo geral, por respeito, justiça e dignidade. A todos esses gritos somam-se, hoje, o grito pelo fim da corrupção e pela devolução de um governo legítimo e que represente os interesses da maior parte do povo brasileiro.

Hoje édia 7 de Setembro. Que seja um dia de celebração mas, também, de reflexão. Reflexão porque é mais um dia para pensarmos do que para festejarmos. E também para agirmos. Principalmente contra aqueles que comemoram a Independência, mas insistem em querer quer a dignidade, os benefícios do que é produzido e o respeito, sejam exclusividade deles.  Que seja um dia para lutarmos, cada vez mais, por uma independência para todos. Assim estaremos construindo a verdadeira ordem e o verdadeiro progresso.

O LEGADO DA OLIMPÍADA DA VERGONHA

olimpíadafarra dos guardanapos A cidade do Rio de Janeiro amanheceu mais triste. Mais depauperada. Mais indignada. Hoje pela manhã veio a público o lamaçal que envolveu aquele que poderia (e deveria) ser o maior evento esportivo da história do Brasil. Mas, lamentavelmente, a Rio-2016 virou abóbora. Sinceramente, nunca me empolguei.

No dia 2 de outubro de 2009  o Rio de Janeiro era escolhido, em Copenhague, na Dinamarca, como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Na última rodada da reunião do COI, o Rio vencia Madrid por 66 votos contra 32. Lembro-me que, nos velhos tempos, uma vitória por mais do dobro dos votos era chamada de “capote”. Mas, conforme veríamos, não foi capote e sim rasteira.  Sinceramente, confesso que torci contra. Não queria que o Rio sediasse a Olimpíada de 2016. Sabia que seria a farra de empreiteiros e políticos corruptos. E que, no final, o evento nada traria de benefício à população. Pouco tempo antes da escolha do Rio, em setembro, a quadrilha do ex-Governador Sérgio Cabral reunia-se em Paris, na famosa “farra dos guardanapos”. Agora podemos dizer: aquele espetáculo dantesco já era a comemoração da Delta. Os votos já estavam comprados. A ida a Copenhague era apenas o protocolo e a apoteose. Sobre Carlos Arthur Nuzman, o Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, pairam todos os indícios de coordenar a escolha fraudada do Rio: ele teria pago a Lamine Diack, o senegalês que presidia a Federação Internacional de Atletismo e atualmente preso, os 2 milhões de dólares para a compra dos votos. Ele, por sua longevidade que beira a imortalidade no cargo que ocupa, tinha todo trânsito para comprar os votos. Hoje o Sr. Nuzman foi levado coercitivamente para depor na Polícia Federal. Sua prisão é mais do que uma questão de tempo. É uma questão de justiça.  A podridão começou antes mesmo da escolha da cidade como sede. Arthur Soares, o vulgo “Rei Arthur”, dono da “Facility”, forneceu quase toda mão de obra terceirizada. Ele ganhava tudo. Hoje está foragido.

Passada a Olimpíada, qual o legado? Quem lucrou? Empreiteiros, agentes públicos corruptos, bandidos de paletó e gravata.  Esses lucraram.  Acabaram com o Maracanã, que viraria um feudo dos “Odebrecht”.  O comitê organizador ainda tem dívidas estratosféricas. O velódromo é um elefante branco no maior estilo dos antigos reis tailandeses. Os equipamentos que não foram abandonados estão sub-utilizados. Os serviços públicos da cidade se deterioraram. O Estado hoje tem um governador em estágio terminal política e administrativamente. E a cidade tem um prefeito-pastor que ainda não assumiu.

Esportivamente, apenas um dado resume o legado olímpico: a seleção masculina de basquete não conseguiu se classificar nem para os Jogos Pan-Americanos de 2019, que acontecerão em Lima.

Mas há uma coerência em toda essa podridão subterrânea que marcou os jogos olímpicos do Rio. Se os votos foram comprados para a escolha da cidade, na abertura dos jogos o presidente-golpista Temer, vaiado no Maracanã, representaria bem toda a ópera da bandidagem “organizadora”. Exatamente um ano depois, ele também compraria votos no Congresso para continuar no poder e não responder pelos seus crimes. Mas naquele dia ele não pôde pagar para ser aplaudido. Nem vou falar da Marcela, que lá estava e, claro,  o aplaudiu. Ela já é muito bem paga.