SEGUNDA-FEIRA DE “CINZAS”

rock in riorocina 2Acabou mais uma edição do Rock in Rio e entendo o sentimento que os roqueiros devem estar tendo nesta manhã de segunda-feira: o mesmo que os foliões sentem na quarta-feira de cinzas. Se bem que os roqueiros têm duas semanas de festa, enquanto que o carnaval são só 4 dias. Mas dirão os roqueiros: “O Carnaval é todo ano e o Rock in Rio é de dois em dois anos.”  Tudo bem. Então empatou.

Esta edição do  Rock in Rio foi bem emblemática e marcou as contradições de uma cidade cosmopolita como o Rio de Janeiro. O drama vivido pelos moradores da Rocinha com a guerra entre traficantes e a entrada da polícia e Forças Armadas na comunidade ofuscou a evidência do maior festival de rock do mundo. Na “Cidade do Rock”, a festa. E, bem próximo dali, uma população sitiada e refém de uma guerra que lhes tira toda e qualquer dignidade. Muitos não puderam assistir ao festival nem pela TV. Mas este Rock in Rio também foi emblemático porque esta contradição de realidades geograficamente muito próximas espelha a verdadeira divisão que ainda existe na cidade. Com toda violência e até com algum risco, quem foi ao Rock in Rio de algum modo realizou seu sonho. Mas, do outro lado, ali na Rocinha, jovens tiveram sonhos, não efêmeros, sustados pela guerra: muitos não puderam sair de casa para fazerem a prova da UERJ; muitos estão sem ir à escola (não só na favela, mas também no asfalto); alguns ficaram em verdadeira “economia de guerra”, não podendo sequer sair para comprar alimentos. E aquela cervejinha de domingo então…  Nem pensar!

Não adianta, hoje, o sr. Roberto Medina, o dono do Rock in Rio, querer falar em “união pelo Rio de Janeiro, independente de ideologias”.  Não questiono seu mega potencial de empreendedor. Ele é um agente privado. Mas a história mostra que ele e sua família, há quase trinta anos, tentaram emancipar a Barra da Tijuca. Seu irmão, Rubem Medina, um dos deputados mais elitistas que já representou o Rio de Janeiro, capitaneou um projeto que era revanchista e segregacionista. No fundo, eles queriam ter a Barra para eles e, ao mesmo tempo, se vingarem do Brizola mostrando sua força política. O episódio da demolição da primeira Cidade do Rock pelo então governador Brizola foi uma reação ao ato de apropriação de espaço público para fins privados. E, se Brizola demoliu a Cidade do Rock,  Moreira Franco, o governador que os Medinas apoiaram, destruiu os CIEPs. Não resta dúvidas sobre qual demolição trouxe mais prejuízos a longo prazo para o Rio. E nem com Moreira Franco, o governador que eles apoiaram,  o projeto segregacionista dos Medinas evoluiu. Em 1988, quase nenhum morador compareceu ao plebiscito que decidiria pela emancipação da Barra da Tijuca, apesar das estratégias marqueteiras da Artplan.

É bom, nesta “Segunda-Feira de Cinzas”, trazer um pouco da história que perpassa e tangencia o maior festival de rock do mundo. Mas não adianta, quando a tempestade da guerra da Rocinha passar, seus moradores continuarem esquecidos e , vez por outra, literalmente,  fora do mapa, como fizeram no mapa turístico da Prefeitura.

Eles já tentaram dividir o Rio. Agora, o Sr. Medina fala em “união”. Talvez, se eles usassem seus poderes, influências e, principalmente capital, para apoiarem as políticas de inclusão de trinta anos atrás, ao invés de bombardeá-las, muitas coisas ruins não teriam acontecido. E não precisaria ele, em sua recente entrevista, dizer que o Rio “já teria que ter se unido há 40 anos”. Quem quis dividir a cidade foram vocês. Mas ainda temos mais 30 ou 40 anos pela frente. A missão ficará para a Robertinha. Ela aparenta ter outro perfil. Mas só o tempo dirá. Enquanto isso, vivamos nossas “segundas-feiras de cinzas”: uns, saudosos e satisfeitos, ainda de ressaca. Outros, tristes e se perguntando o porquê de, para eles, quase todos os dias serem de “cinzas”, embora não tenham cometido nenhum pecado.

 

 

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