A CARTOGRAFIA LACERDISTA

6n5jdyx0y5tydhcuwcgerhs03rocinhaComo seria o mapa da cidade do Rio de Janeiro se, ao o desenharmos, omitíssemos ou escondêssemos  todas as favelas? Acho que pouquíssimos bairros ficariam inteiros, pois quase todos possuem favelas.  Parece que a tendência da administração do Prefeito-pastor é essa. Desde ontem vem sendo veiculada a notícia  sobre a  iniciativa da Riotur, empresa municipal de turismo, de distribuir para os turistas folhetos com os mapas turísticos da cidade escondendo as favelas. A empresa de cartografia contratada para o serviço escondeu nos mapas impressos algumas das principais favelas da zonal sul, colocando, no lugar das comunidades, “áreas verdes”, algo que, pensei que não existisse, poderiam ser chamados de  “fotoshops cartográficos”. Comparando-se os mapas de satélite do Google Maps com os que são mostrados nos folhetos, percebe-se claramente o enxerto de “pseudos-áreas verdes” cobrindo comunidades importantes.

As comunidades de Dona Marta (Botafogo), Babilônia e Chapéu Mangueira (Leme) e Cantagalo (Copacabana) desapareceram do mapa. A Rocinha, em São Conrado, está quase toda suprimida. Esses efeitos de “fotoshop cartográfico”, ao “embelezarem a cidade impressa”, ao mesmo tempo ignoram a existência de cerca de 1 milhão e 500 mil pessoas. Isso sem contar que tais comunidades são emblemáticas para o próprio turismo da cidade. A comunidade do Dona Marta, em 1996, recebeu a visita de Michael Jackson, o ídolo de todas as gerações,  e até hoje ali se encontra a estátua do pop star. A Rocinha, além de ser internacionalmente conhecida, é uma das maiores favelas do mundo e ainda tem uma escola de samba, a “Acadêmicos da Rocinha”. Todas as comunidades suprimidas possuem atividades culturais importantes e são também frequentadas por turistas, especialmente no Reveillon, quando muitas delas oferecem os famosos “serviços da laje” para os turistas assistirem ao show da virada do ano.

A empresa de cartografia responsável pela elaboração do mapa alegou que a supressão das comunidades teria sido uma recomendação do IBGE, visto que, em quase todas, as áreas não são regularizadas. Ocorre, porém, que o IBGE nega ter dado essa recomendação, o que nos permite concluir que trata-se de puro preconceito de uma Prefeitura que não gosta de carnaval, de samba e, ao que tudo indica, também de pobre. Até porque, não devemos esquecer, existem áreas e construções não regularizadas também no asfalto. Vez por outra surgem notícias de construções irregulares em áreas nobres da cidade. E estas não foram suprimidas.

Essa atitude discriminatória, segregacionista e preconceituosa, infelizmente tem um vasto histórico em nossa cidade. Pereira Passos, no início do século XX, com a famigerada operação “Bota-Abaixo”,  baniu a população pobre do centro da cidade, mandando-a “ao Deus dará”  para entregar o local às camadas de “fino trato”. Abria-se a Avenida Central escondendo a pobreza da cidade, sem dar qualquer chance àquelas pessoas.  Nos anos 1960, o então governador udenista Carlos Lacerda baniu comunidades da zona sul que eram consideradas estorvos em seu processo de embelezamento do Rio de Janeiro. A Praia do Pinto que o diga.

A cartografia da Riotur parece ter uma inspiração em casos pretéritos e nada saudosos de nossa cidade. Esperamos que esta supressão seja só no papel. E que este mapa, de inspiração claramente lacerdista, nunca conste nos livros que a Prefeitura distribui aos nossos estudantes.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s