ELITISMO E CRIMINALIZAÇÃO DO FUNK

capoeirasambafunkQuerem criminalizar o funk. O projeto de lei que prevê tal medida tramita no Congresso Nacional. Sua origem foi o Senado, através de uma proposta enviada por um empresário paulista que contou com mais de 20 mil assinaturas de adesão. A situação do funk não é muito diferente das de outras expressões culturais de origem negra que chegaram ao Brasil e que incomodavam a “Casa Grande”. Mas apesar das perseguições, muitas dessas manifestações acabaram sendo apropriadas pelos próprios grupos elitistas (e seus descendentes) que as deploravam em tempos idos.

Primeiro foi a capoeira. No Brasil, sua prática era proibida aos escravos, que a praticavam como defesa e benefício à saúde. Era também, para os cativos, um exercício “anti-stress” importante para a vida que levavam. Havia um certo sincretismo entre os negros, que misturavam a prática da defesa com a dança. A escravidão acabou, mas a prática da capoeira foi legalmente considerada “criminosa, violenta e subversiva” até 1930, quando Getúlio Vargas acaba incorporando-a à cultura brasileira. A partir daí, ela passava a ser não apenas uma “arte negra”, mas também um “esporte branco”. Certamente muitos dos descendentes que chamavam a capoeira de “ato criminoso”, hoje a praticam.

O samba não teve vida diferente. Ser sambista era  sinônimo de ser “vagabundo”“bandido”“criminoso”“vadio”. Era comum os sambistas serem presos. A Praça Onze, berço do samba, era vista pelas elites como um “gueto”, com o qual eles não podiam “se misturar”. O lugar deles era na luxuosa Avenida Central, assistindo e participando do não menos luxuoso desfile das grandes sociedades carnavalescas. Samba era coisa de “preto e bandido”. Hoje, muitos dos descendentes desses elitistas de outrora se refastelam nos luxuosos camarotes da Sapucaí. É o samba, que agora também tem muitas loirinhas de olhos azuis.

Chegamos, enfim, ao funk. Sua origem, assim como a da  capoeira e do samba, reside nos movimentos culturais negros. O funk, como gênero musical, originou-se da soul music e de outros ritmos no epicentro do movimento negro dos EUA e teve um ícone na virada da década de 60 para 70: James Brown. Nessa época o funk chega ao Brasil, onde iria se popularizar no Movimento Black Rio, que teve como representantes nada menos que Tim Maia, Tony Tornado e Carlos Dafé. Sua popularidade atingiu as regiões mais pobres, especialmente das grandes cidades, discriminadas em tudo: sem segurança, saúde, habitação digna, lazer. Em grande parte, tal como a capoeira e o samba, o funk também representa “mensagem e resistência”  de grupos historicamente oprimidos. O ritmo evoluiu e chegamos, finalmente, aos “pancadões”. Agora, querem criminalizá-lo.

Não nos esqueçamos que, assim como a capoeira e o samba, o funk já atravessa fronteiras sócio-econômicas. Os “pancadões” (nos dois sentidos, como ritmo e como porrada mesmo) já acontecem em lugares nobres, de gente “bem criada”.

A absurda proposta quer considerar o funk como “crime de saúde pública”, por espantoso que possa parecer. Receio que a elite desse país precise de um “sacode”. Acho que eles é que estão ficando doentes. “Pancadão” neles!

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s