TEMER E A ENTREGA DA AMAZÔNIA: 50 ANOS DEPOIS DE LUDWIG

ludwigprojeto jariJá faz tempo. Muito tempo. Foi em 1979, quando ingressei na Universidade e tínhamos uma disciplina denominada Estudo de Problemas Brasileiros (EPB). Era uma disciplina do ciclo básico de todos os cursos e, geralmente, os alunos a consideravam “um saco”. Estávamos em plena ditadura militar e, embora o AI-5 tivesse sido revogado no ano anterior, por pressões populares, as universidades ainda eram monitoradas pelo sistema. A disciplina EPB era obrigatória. Era uma espécie de “Educação Moral e Cívica” dos cursos superiores. Mas tudo dependia, evidentemente, dos professores. E foi logo em meu primeiro ano de Universidade, com essa disciplina, que tive a sorte de ser aluno da professora Claudete. Foi em seu curso que, pela primeira vez, tomei contato com o entreguismo dos governos militares em relação à Amazônia. Na ocasião, tive a oportunidade de assistir a uma palestra do saudoso Modesto da Silveira, que a professora conseguiu levar até a nossa turma para falar sobre o ambicioso Projeto Jari. Também estudávamos o livro de Fernando Henrique Cardoso, na época ainda um ícone das esquerdas.

Entregar a Amazônia para a exploração privada, notadamente estrangeira, não é algo criado pelo golpista Temer. Há exatos 50 anos, em  1967, o governo militar vendeu uma grande extensão da Amazônia ao bilionário norte-americano Daniel Ludwig, que tinha a ambição de montar seu agronegócio naquela região. Daniel Ludwig era dono de um vasto império do agronegócio e a região que ele comprou para a produção de celulose localizava-se quase que no mesmo local onde encontra-se a Reserva Nacional do Cobre, que hoje Temer quer privatizar e que já aguça as ambições estrangeiras.  A região adquirida na época dos governos militares por Daniel Ludwig equivalia ao Estado de Sergipe e ficava entre o Amapá (na época, Território Federal e não Estado) e o Pará. Foi um entreguismo de fazer inveja ao mais ortodoxo dos udenistas. A devastação ambiental e a violação da soberania nacional já eram denunciadas, bem antes de a Lins Imperial e a Imperatriz Leopoldinense denunciarem em seus enredos a destruição da Amazônia brasileira em transações escusas do agronegócio e de mineradoras.

A portaria assinada pelo presidente-golpista permite a privatização de uma gigantesca área da Amazônia, bem próxima à que foi vendida ao bilionário norte-americano há 50 anos. Situa-se também entre o Pará e o Amapá e a região equivale ao território do Estado do Espírito Santo. Num momento em que cientistas, através da SBPC (Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência) denunciam as agressões do governo Temer ao cortar investimentos em ciência e tecnologia, universidades tendo cortes em diversos projetos de pesquisa, algumas sem o mínimo de condições para funcionarem, Temer apresenta mais um projeto agressivo não apenas ao meio-ambiente e às reservas indígenas, mas, em especial, à soberania nacional. Há tempos, ainda antes do sr. Daniel Ludwig, que a Amazônia é objeto de cobiça de grupos estrangeiros. E agora, dentro do projeto entreguista do Sr. Temer e seus comparsas, o governo golpista quer vender mais um pedaço da soberania brasileira. Não imaginávamos que, após a indignação causada na época pelo Projeto Jari, teríamos um “remake” 50 anos depois. Fiquemos alertas. Salvar a Amazônia de mais esse ataque é lutar pela soberania, independente de bandeiras partidárias. Não se trata de “coisa de esquerdista”. Até os nacionalistas de direita devem entrar nesta luta. “Novos Ludwigs” estão a caminho. Tomara que, dessa vez, o Brasil saia vencedor.

PRIVATIZAÇÕES E A CAMPANHA DE O GLOBO

antigloboEscrevo no dia 27 de agosto de 2017. Vivemos um momento decisivo na política econômica e social (não seria anti-social ?), do governo golpista de Temer e seus comparsas entreguistas. Na semana em que o golpista do Jaburu anunciou o avanço do programa de privatizações e a entrega de gigantesca reserva ambiental da Amazônia para a exploração mineral, chegamos, enfim, como não poderia deixar de ser, a mais um Editorial de O Globo. Na edição de hoje, o jornal da família Marinho cobra do PSDB e do DEM a coerência desses partidos para que, em respeito aos fundadores das legendas, elas apoiem e defendam as privatizações. Entrega da Amazônia, da Eletrobrás, dos aeroportos e até da Casa da Moeda, dentre outras empresas. Tudo a preço de banana (podre). Do jeito que as coisas andam, é provável que Aécio e Rocha Loures abram uma O.S. e ganhem a concorrência da Casa da Moeda. Nada mais coerente nesse governo do que os comparsas do Mordomo fabricando o (nosso?) dinheiro. Pelo menos assim, com a “mão na máquina”, eles não precisariam sair correndo com mala pelas ruas ou fazerem ameaças de morte.

Mas hoje o jornal dos Marinhos está invocando a coerência em seu Editorial. Isso porque existem algumas defecções em integrantes do PSDB e do DEM, com voto no Congresso, que ainda resistem às privatizações. Não queremos aqui entrar no debate privatização X estatização, mas é notória a contradição de políticos que falam da necessidade de enxugar o Estado, a tal ideia de “Estado mínimo”. Estado mínimo para nós, porque tanto eles como seus familiares já estão devidamente “estatizados”. Basta fazer uma pequena pesquisa e constatar que aqueles que defendem o “Estado mínimo”, estão com seus familiares ocupando cargos estatais há décadas. E O Globo ainda vem pedir coerência, conclamando em seu editorial que o PSDB e o DEM não traiam os “princípios fundacionais” de seus partidos. Trata-se, segundo o jornal dos Marinhos, de um respeito aos ideais de seus fundadores.

Então aí vai uma sugestão para O Globo: se os partidos, segundo o Editorial, devem ser fiéis aos ideais de seus fundadores, então O Globo deve conclamar todos os partidos a serem fiéis aos seus “princípios fundacionais”  e estender sua campanha exigindo,  por exemplo, que o PTB, fundado em 1945 por Vargas, tenha a mesma fidelidade. Seria o caso, também, de O Globo exigir do PSB igual fidelidade. Estamos falando de um partido (o PTB), que há muito se divorciou dos ideais de seus fundadores e se resgatasse essa fidelidade votaria contra as privatizações e de outro (o PSB), que também vem há algum tempo se afastando dos ideais de seus fundadores de 1947. Ambos, pelo original nacionalismo, seriam contra o entreguismo udenista de Temer e seus comparsas. Amplio a sugestão para que o jornal dos Marinhos também incentivem PT, PDT, PC do B, PSOL, PT do B e outras siglas, para que sejam fiéis aos “princípios fundacionais” e, consequentemente, se coloquem contra as privatizações. Mas isso seria exigir demais do jornal dos Marinhos. Porque implicaria em que ele fosse (ou se tornasse) um veículo de informação equânime, isonômico, imparcial ou, no mínimo, isento. Para uma organização de comunicações que tem em sua folha corrida o apoio a inúmeros golpes, o Escândalo da Proconsult, o Escândalo da Parabólica… seria pedir demais.  Então, se agisse assim, quem estaria sendo infiel aos seus próprios “princípios fundacionais” seria o próprio O Globo. Deixa estar…

FINANCIAMENTO ELEITORAL E O EXEMPLO DO PSOL

psol.pngFinanciamento de campanha eleitoral é o assunto do momento. E há muita pressa por parte de deputados, senadores, partidos políticos. Está provado que o financiamento de empresas é a oficialização da corrupção e compra de governos. Eleição, por muito tempo no Brasil, virou investimento. Empresas doavam quantias nababescas a partidos e candidatos, tudo dentro da lei. Lei imoral, sem-vergonha. Até que o STF proibiu o financiamento privado de empresas. E o primeiro teste veio em 2016. Sem poder receber doações de empresas que, literalmente, compravam governos e candidatos, a fonte começou a secar. E a grande constatação dessa mudança foi que, no Brasil, o poder econômico era o fator decisivo no resultado eleitoral. O exemplo do PSOL, nas eleições municipais do Rio de Janeiro de 2016, foi emblemático. Trata-se de um pequeno partido de esquerda, com pouquíssimos recursos financeiros. Só que, a partir do pleito de 2016, acabaram as doações empresariais, embora tenham sido permitidas as doações de pessoas físicas. Com a fonte secando, os grandes partidos, que tinham no poder econômico o seu grande trunfo, já sentiram as consequências. O PSOL chegou ao segundo turno da eleição para Prefeito do Rio de Janeiro e ainda fez a segunda maior bancada na Câmara Municipal, elegendo 6 vereadores. Se as doações empresariais estivessem vigorando, o desempenho do PSOL não seria tão grande. E os partidos que, tradicionalmente,  sempre viveram dessas doações, teriam vencido. A democracia fica sob suspeita quando uma eleição é definida pelo poder econômico e não pelo livre debate de ideias e propostas.

O financiamento empresarial gerou relações podres e subterrâneas entre governos e empresas/empresários:  Joesleys, Odebrechets, Deltas… Os governos, nos três âmbitos administrativos,  eram comprados por futuros empreiteiros dos candidatos vencedores.

Mas se o modelo de financiamento privado-empresarial não deu certo, então buscou-se uma “solução” em que a emenda saiu pior do que o soneto: o financiamento público bilionário. A acintosa proposta de  3,6 bilhões dos cofres públicos para financiar partidos políticos soou como um escárnio para a sociedade, com um país em tempos de crise e contenção de gastos públicos com saúde, educação, ciência, tecnologia, programas sociais. Mas os fanfarrões do Congresso acabaram voltando atrás. Mas só depois de muita pressão e indignação por parte da população. Ressalte-se que esse fundo bilionário e escandalosamente imoral,  era defendido por parlamentares que votaram a favor da PEC dos gastos públicos que limita gastos em setores essenciais por 20 anos. Lula estava certo quando disse que o Congresso está cheio de picaretas.

Quem deve, então, financiar as campanhas eleitorais? Como serão feitos os programas eleitorais? Tenho que concordar com Rodrigo Maia, o “boneco de massa de estimação do Temer”, que aconselhou os deputados a comprarem um celular ou smartphone de alta resolução para gravarem os seus programas de TV. E eles têm dinheiro de sobra para comprarem o melhor celular do mercado.  As contas das campanhas devem ser pagas pelos próprios partidos e seus simpatizantes/filiados, inclusive com doações pessoais, com limite e com verificação de suas declarações de renda para que as pessoas não sejam usadas como “doadores-laranjas”. O povo brasileiro pode dar uma grande demonstração e um grande exemplo, em especial ao Mordomo-golpista que tomou o Planalto de assalto: o exemplo de que eleição não se compra. E isso poderá ser um ponto de partida para elegermos um Congresso que, doravante, não se venda.

OS PRÓS E CONTRAS DO VOTO DISTRITAL

voto distritalVem ganhando força dentro dos debates sobre a reforma política a adoção do voto distrital. Nesse tipo de voto, o território do Estado ou Município seria dividido em distritos. O número de distritos seria igual ao de número de vagas em disputa e, em cada distrito, seria eleito um único representante  pelo sistema majoritário, ou seja, aquele que obtiver o maior número de votos. Exemplifiquemos com o município do Rio de Janeiro na eleição para escolha dos vereadores que iriam compor a Câmara Municipal nesse sistema de votação. A cidade do Rio de Janeiro tem 51 vereadores. Assim, o território do município do Rio seria dividido em 51 regiões geográficas, chamadas distritos eleitorais. Cada distrito elegeria 1 vereador. Acabaria, assim, o sistema proporcional e, em cada distrito, o candidato com maior número de votos seria eleito. Se fôssemos pensar a aplicação desse sistema na escolha dos deputados estaduais que iriam compor a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, que possui 70 deputados,  então o território do Estado seria dividido em 70 regiões geográficas, os distritos eleitorais. Cada distrito elegeria 1 deputado estadual (aquele com o maior número de votos). Se for aprovado, o voto distrital não será algo inédito na história do voto no Brasil. Esse tipo de sistema eleitoral foi adotado pela primeira vez durante o Império, em 1853, quando usava-se a denominação “círculos” para se referir às jurisdições eleitorais. Só a partir de 1881 é que o termo “distrito” ficou consagrado. O sistema de voto distrital manteve-se durante a Primeira República, só sendo abolido pelo Códio Eleitoral de 1932,  já na Era Vargas, quando foi implantado o sistema proporcional. Durante o período em que existiu,  entre o Império e a Primeira República, a legislação chegou a prever distritos com 1, com 3 e com até 5 deputados.

Os defensores desse sistema apontam algumas vantagens nesse tipo de votação. A principal dessas vantagens seria a garantia da representação local,  pois o candidato seria conhecido na região em que candidatou-se. Isso criaria maiores vínculos entre eleitores e representantes. O candidato eleito teria que prestar contas à sua região, seria mais acessível e a cobrança e fiscalização por parte dos eleitores também seria facilitada. Outra vantagem apontada nesse sistema é a redução dos custos de campanha. Isso porque o candidato só faria sua campanha eleitoral no distrito em que candidatou-se e não em todo Município ou Estado.

Mas há alguns perigos e desvantagens que esse sistema traz. E o primeiro perigo é a figura do “pseudo-representante local”, fenômeno que ocorre hoje. Esse “pseudo-representante local” é aquela pessoa de aparições sazonais em uma região, que não mora mais ali, mas que se apresenta como seu representante. Por exemplo: um candidato a vereador no Rio de Janeiro mora na Zona Sul, Barra da Tijuca ou Recreio do Bandeirantes. Mas ele não conseguiria se eleger na região em que mora. Então, se candidata, por exemplo,  pela Leopoldina, onde diz possuir o seu reduto eleitoral. Na verdade, ele já não tem mais domicílio residencial na área, mas ali possui domicílio eleitoral. Mas ele, efetivamente, não representa aquela região, sequer mora ali, não vive seus problemas. Dessa primeira observação, decorre uma outra desvantagem, visto que esse sistema incentiva a produção e manutenção dos currais eleitorais, praga clientelista que, lamentavelmente,  ainda marca a cultura político-eleitoral brasileira. Há regiões, e estamos falando de grandes cidades, onde determinados candidatos não podem entrar. Quando falamos em distritos eleitorais, evidentemente muitos deles são currais eleitorais, alguns até de cunho familiar. Não devemos também esquecer que o voto distrital pode trazer distorções no resultado eleitoral. Isso porque nem sempre o partido político mais votado terá necessariamente o maior número de cadeiras, o que não ocorre no sistema proporcional.  Cada distrito é como se fosse uma eleição em separado e, ao final, nem sempre o partido que obteve o maior número de votos,  somando-se todos os distritos,  terá eleito o maior número de representantes. Pode até acontecer de o partido que fizer o maior número de votos, totalizando todos os distritos, não eleja nenhum deputado, por exemplo. O sistema distrital em grande parte personaliza a votação e geralmente torna o pleito desideologizado, subestimando a representação partidária.   E há ainda uma outra questão, que será um dos maiores problemas: como será feita a divisão do território de um Estado ou Município em distritos eleitorais? Vejam o caso do Município do Rio de Janeiro: são 51 vagas para vereador e 160 bairros. Logo, um distrito englobaria mais de um bairro. Mas como seria feita essa divisão? A quais interesses ela atenderia? Quem faria essa divisão? O Legislativo ou a Justiça Eleitoral? Em se tratando do Estado do Rio de Janeiro, são 70 vagas de para deputados estaduais e 92 municípios. Como o Estado seria dividido? Que critérios e com quais interesses essa divisão seria feita? Se a divisão for feita de modo a manter “feudos eleitorais”, alguns muito conhecidos, assim como os “senhores dos feudos”, então o voto distrital perpetuará as velhas práticas eleitorais do país. Já estou vendo deputados e vereadores rabiscando mapas de estados e municípios…

MADURO, TEMER E O IDH

idhA ONU publicou, como faz anualmente,  o “ranking” do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), referência internacional para avaliar a qualidade de vida nos países. Chama a atenção e, claro, causa espécie, o fato de a Venezuela estar à frente do Brasil. Isso mesmo: para a minha, para a nossa surpresa, segundo a ONU, a qualidade de vida no país de Maduro é melhor do que no país de Temer. Os dados são de 2016, quando o caudilho bolivariano e o golpista brasileiro já estavam no poder. A diferença não é tão grande, mas chama muito a atenção e, claro, é um convite à reflexão: segundo a ONU, a Venezuela ocupa a posição 71, com o IDH de 0,767. Já o Brasil está na posição 79, com o IDH de 0,754. Ressalte-se que a ONU é um organismo internacional dominado, inclusive, por países hostis ao governo venezuelano, o que ainda causa mais questionamentos em relação aos caminhos que levaram a ONU a tais números. A despeito de variadas interpretações que o tema possa suscitar, quero abordar, principalmente, o que pode ter acontecido com o Brasil a partir de 2016.

É sabido que os dois países sofrem uma crise de legitimidade. Pois, se Maduro é questionado lá, Temer também é muito questionado aqui. Ambos vivem uma crise política e de representatividade. Mas o caos econômico e social em que o Brasil entrou a partir do golpe iniciado em abril de 2016, golpe este ainda em curso com os ataques aos direitos sociais e trabalhistas,  pode muito nos explicar essa posição vergonhosa e inacreditável em que nosso país chegou. As violências contra programas sociais, de saúde, educação, ciência e pesquisa que vem sendo feitas pelo governo golpista de Temer dão o tom de como o Brasil pós-golpe de 2016 ficou. E não estamos falando apenas em esvaziamento do programa Bolsa-Família, porque o IDH leva em conta vários outros indicadores de qualidade de vida, como saúde, educação, cultura, renda. É necessário esclarecer que o IDH foi criado para ser um contraponto a aferições exclusivamente econômicas, mas que muitas vezes são contraditórias. Por isso que a concentração de renda é um dado que faz o país despencar no IDH e isso se acentuou no governo golpista de Temer. O IDH é interessante porque não deixa de ser uma máscara que cai, ou uma cortina de fumaça que desaparece. Ele vai sempre contra os discursos oficiais do tipo “vamos crescer tantos por cento no próximo ano, e já estamos crescendo…” Ou do tipo “somos a oitava economia mundial…” Isso porque o crescimento econômico não acompanha a divisão dos seus benefícios. É a velha história de “um país rico e um povo pobre.”

 A chegada de Temer ao poder com o golpe de 2016 levou o Brasil, e isso não é coincidência, ao caminho de volta ao mapa da fome feito pela própria ONU. Em algumas regiões, inclusive, temos verdadeiros bolsões de pobreza, que incidem na expectativa de vida. A criminosa reforma da previdência proposta por Temer fará, inclusive, com que em algumas regiões as pessoas não se aposentem. Morrer trabalhando será o destino de pessoas onde a expectativa de vida é menor do que o tempo para se aposentar. O Brasil, queiram ou não, havia saído desse vergonhoso mapa da fome nas gestões petistas e isso é um fato histórico, não uma invocação política.

Não vamos entrar naquele jogo de dizer que estamos defendendo o governo de Maduro na Venezuela. Até porque Simon Bolívar queria a América unida em um único Estado e o que aconteceu foi o oposto. O ideal pan-americano de Bolívar fragmentou-se em caudilhos de ocasião. Portanto, quero que o Maduro se exploda. Quanto ao Temer, esse eu quero é que se foda mesmo.

BERNARDINHO, PARTIDO NOVO E AS REGRAS DO JOGO

novoBernardinho, o ex-técnico vitorioso da seleção brasileira masculina de voleibol,  deverá ser candidato a Governador do Rio de Janeiro pelo Partido NOVO. O Partido NOVO é um partido que se apresenta como inovação na política brasileira. Eles dizem que representam uma nova geração de pessoas competentes para administrarem os negócios do Estado. Tanto que é constituído por pessoas de fora do círculo político tradicional. Será?  É a velha pecha do “eu não sou  político, sou administrador, gestor, empreendedor, executivo de excelência…” O partido é presidido por um banqueiro, João Amoedo,  e sua plataforma é bem clara:  trata-se de um partido de direita, liberal, que apóia as privatizações das estatais e é contra a política de cotas. Só para darmos alguns exemplos. E essa agenda direitista e reacionária se apresenta sob o manto de “Novo”.

Quanto a Bernardinho, este é bem conhecido: um dos maiores campeões esportivos do país, medalhista de ouro olímpico, um técnico que entrou para a história do esporte brasileiro não apenas por suas vitórias, conquistas e liderança, mas também pela sua simpatia, carisma e excelente caráter. Mas Bernardinho não tem nada de “apolítico”. Antes de entrar para o NOVO, ele era do PSDB. Bernardinho, apesar de ótima pessoa, é amigo do bandido confesso Aécio Neves, que teve não apenas o seu voto, mas todo seu apoio em 2014, na eleição em que o “matador de delatores” foi derrotado.

Apresentados o partido e o candidato, como podemos ver a candidatura de Bernardinho ao governo de um Estado falido, entregue às “traças e baratas dos transportes”, um ex-governador presidiário e réu em dezenas de processos, a segurança e os hospitais abandonados,  servidores desrespeitados e uma Assembleia Legislativa predominantemente aliada  e cúmplice de fortíssimos “lobbys”  de empresas envolvidas em escândalos? Será que Bernardinho conhece bem as regras do jogo político? Porque a política pode ser considerada um jogo com regras e essas regras não foi ele quem fez. Essas regras referem-se ao sistema político brasileiro, que impõe determinadas condições de governabilidade, que ele certamente terá que ir buscar. Isso implica em diálogo, negociação, interlocução com a Assembleia Legislativa. Fico imaginando, por exemplo,  uma negociação entre o Bernardinho e Picciani para a aprovação de um projeto. Fico imaginando como seria a negociação do “Governador Bernardinho” com deputados para formar o seu governo. Como seria o seu secretariado? Totalmente técnico? Mas, e as regras do jogo político? Será que ele governaria sem se submeter a essas regras? A conferir, no caso desse grande desportista ser eleito.

Eu, por exemplo, não gosto de voleibol. Não conheço quase nada do esporte. Acho que só sei que não pode invadir a quadra adversária e nem tocar na rede. Não gosto e pouco conheço. Mas, se eu quiser participar desse jogo, terei que conhecer e seguir todas as regras. Mas como Bernardinho pertence a um partido presidido por um banqueiro, favorável às privatizações (olha a CEDAE aí!), e com ótimas relações com o PSDB, acredito que nosso grande desportista não tenha muitas dificuldades para entrar nesse jogo e seguir suas antigas regras. Mesmo sendo “novos” ele e seu partido.

A VOLTA DO MDB – OUTRA CILADA GOLPISTA

downloadUm fenômeno se alastra pelo meio político-partidário brasileiro: quase nenhum partido político quer mais chamar-se “partido”. As antigas siglas estão invocando nomes libertários, patrióticos ou que lembrem poder ou motivação. Até o Obama tem inspirado essa gente: “yes, we can!” A palavra “partido” tem andado tão desgastada que algumas legendas concluíram que um partido político receber esse nome pode significar repulsa nas urnas. Aqueles que não trocaram seus nomes para palavras libertárias ou motivacionais, agora estão tirando a letra “P” de suas siglas. E eis que nos chega a notícia de que o PMDB irá tirar o “P” de sua sigla, voltando a ostentar a antiga sigla MDB, que tanto marcou a história de resistência à ditadura militar. O anúncio foi feito pelo senador Romero Jucá, presidente do partido,  aquele que disse que “era necessário tirar a Dilma para fazer um grande acordo com o Judiciário e estancar a sangria da Lava Jato.”  É mais um golpe, que parte de um partido atolado em denúncias (muitas comprovadas) de corrupção, isso sem contar sua incorrigível vertente golpista. Jucá diz que quer, com a mudança, “levar o partido para as ruas”. Mas o que se pretende mesmo é confundir o eleitor, como se ele fosse capaz de esquecer da podridão em que se transformou o PMDB.

É necessário esclarecer que o atual PMDB é uma continuidade natural do antigo MDB, mas apenas sob o aspecto formal. O atual PMDB nada mais tem a ver com o antigo MDB.

Sua origem remonta a 1965, quando o governo militar impôs o Ato Institucional  Número 2 (AI-2), que acabava com os partidos políticos formados desde 1945 e criava condições para a formação de apenas dois partidos políticos: era o bipartidarismo. Assim, em 1965, surgem a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), que era o partido de apoio ao governo militar, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partido de oposição. O MDB representou a resistência ao regime militar e cresceu a ponto de fazer o governo criar uma reforma partidária para eliminá-lo. O antigo MDB tinha várias tendências abrigadas na sigla, mas aglutinava nomes de respeito e de grande contribuição na luta pela democracia, pela conquista dos direitos políticos, na luta pelo país à volta do Estado de Direito e nas denúncias das arbitrariedades da ditadura. Só para citar alguns, tínhamos Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela, Márcio Moreira Alves, Francisco Pinto, Lysâneas Maciel, Dante de Oliveira. Nomes que sempre deverão ser lembrados como ícones das lutas democráticas na história brasileira.

Com a Reforma Partidária de 1979, imposta pelo governo militar, foram criadas as condições para a volta do pluripartidarismo. Mas, na verdade, essa reforma foi um ardil do regime militar para dividir as oposições, em razão do crescimento do MDB e de uma pesquisa do próprio SNI, que indicava que o partido oposicionista seria vitorioso no próximo pleito. A Reforma Partidária de 1979 obrigava todos os partidos a terem os seus nomes iniciados pela palavra “partido”. Assim, todas as siglas começariam com a letra “P”. Como o MDB tinha um grande lastro histórico, e para não perder a sua identidade, colocou-se apenas a letra “P” antecedendo o “MDB”. Surgia o partido do atual golpista que preside o Brasil. O PMDB, no entanto, seguiria um viés totalmente diferente da sigla que o originou, tornando-se um partido marcado pelo governismo, clientelismo, fisiologismo e, com o passar do tempo, corrupção generalizada e atividades criminosas e subterrâneas, em doses industriais. Se o antigo MDB foi uma sigla de referência em termos de lutas democráticas, o mesmo não se pode falar do atual PMDB, que não honrou sua sigla antecessora. Hoje, temos o PMDB de Temer, Jucá, Moreira Franco, Renan Calheiros, Sérgio Cabral, Pezão, nomes que causam repugnância a qualquer pessoa de bem, independente de sua preferência política. E esses mesmos nomes querem se apropriar de uma sigla que não os identifica, porque eles não estão a serviço da democracia. Eles estão a serviço de um golpe, ainda em curso, que também pretende livrá-los do ajuste de contas com a Justiça. Ressurgindo, a sigla MDB será uma impostura nas mãos desses elementos. Assim como é o PTB atualmente, que nada tem a ver com Getúlio, Jango ou Brizola. Uma volta da sigla MDB não significa uma volta das lutas pela democracia. Significa uma apropriação criminosa de uma sigla que exerceu um papel histórico importante no país por um grupo que, além de saquear o poder , quer saquear a nossa memória. Significa, enfim, uma “pirataria partidária”.