RESPONDENDO À FILOMENA: O BRASIL DE MUITAS BASTILHAS

bastilhaFilomena Bioni é minha amiga. Ótima pessoa. Ela não é milionária. Ela não é rica. Ela é minha amiga e colega de trabalho.  Ela é professora de Geografia da rede estadual do Rio de Janeiro. Embora já pudesse ter há muito tempo se aposentado, ela continua trabalhando. Sorte dos seus alunos. Sorte do nosso colégio. Sorte dos seus colegas. Hoje é dia 14 de Julho, uma data que entrou para o calendário internacional como o “Dia da Liberdade”. Comemora-se a Queda da Bastilha, evento que marcou o início da Revolução Francesa. A Queda da Bastilha representou a fúria de um povo injustiçado, oprimido, dilacerado pelos desmandos do clero e da nobreza. Naquela época, a burguesia estava do outro lado do balcão. Ela era desprezada e discriminada por nobres e clérigos. Então, todos juntos, o povo, em suas mais diversas segmentações, enfiou o pé na porta do símbolo físico do absolutismo e dos privilégios do clero e da nobreza. Foi uma revolução burguesa, mas o mundo começou a mudar e muitos dos seus efeitos são vistos até a atualidade.

Hoje minha amiga Filomena perguntou:  “Quando teremos a queda da Bastilha no Brasil”? Escrevo este artigo em um dia muito especial. E quero responder à amiga Filomena. Inicialmente, eu responderia replicando com uma outra pergunta: qual das Bastilhas? Estamos em um Brasil de muitas Bastilhas, nos três poderes políticos. Se pensarmos em Bastilha como à época da Revolução Francesa, ou seja, símbolo físico daquilo que representa tudo o que causa indignação ao povo, nem saberíamos por onde começar. Onde invadir? O Palácio do Planalto? O Congresso Nacional? O Supremo Tribunal Federal? O Tribunal Superior Eleitoral? O Palácio Guanabara? A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro? Pois é, Filomena. São muitas Bastilhas. E todas elas hoje são motivo de vergonha para um povo que vem sendo massacrado por todas elas. Precisaríamos de muitos “14 de Julho”. E depois que elas caírem,  o que restaria? Temer, Jucá, Moreira Franco, Rodrigo Maia, Aécio,  Alexandre de Moraes, Pezão… Haja guilhotina, e aí só chamando o Robespierre! Logo vem à nossa  mente a ideia de destruição, revolta, violência… Mas esses não são os nossos valores.

Nossa diferença em relação ao povo francês de 1789 é que eles não tinham o direito de participação política. Não é o caso do povo brasileiro, pelo menos hoje. A democracia e o sistema representativo ainda são valores pétreos em nossa cultura política. Ainda teremos mais uma oportunidade no ano que vem. Os cerca de 150 milhões de brasileiros que irão às urnas em 2018 terão a oportunidade de terem milhares de Bastilhas para derrubarem. Cada urna será uma Bastilha. Podemos derrubá-las sim, usando as armas que ainda nos restam. Eu tenho certeza que a minha amiga Filomena, com seu voto, derrubará uma dessas Bastilhas. Cabe a cada um fazer a sua parte.

Acabaram com a CLT, acabaram com a Justiça do Trabalho, querem que o trabalhador morra trabalhando e não se aposente, limitaram os gastos públicos com educação e saúde. O que está faltando? Ao contrário de 1789, hoje a burguesia está do outro lado. Não conte com ela. Que cada eleitor, em 2018, use sua urna como uma tomada da Bastilha. Se der tempo. Porque, pelo andar da carruagem, pode ser que ano que vem os brasileiros estejam como o povo francês estava em 1789.  Aí, nem o voto será mais o caminho. Mas, por enquanto, não quero pensar na minha amiga professora Filomena pegando em armas. E certamente nem será preciso. Haverá muitos “sans-culottes” para isso…

A CONDENAÇÃO DE LULA: COMEÇOU 2018

seergio moro lulaComeço a escrever exatamente às 16 horas do dia 12 de Julho de 2017. Há exatas duas horas o país tomou conhecimento da condenação do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelo juiz Federal Sérgio Moro, a 9 anos e 6 meses de reclusão. Sérgio Moro é aquele que absolveu a mulher do Cunha. Sérgio Moro é aquele que absolveu a mulher do Cabral. Sérgio Moro é aquele que tem fortes amizades com políticos tucanos, claramente o partido de sua preferência. Sérgio Moro é o “rambo tupiniquim” da nova direita brasileira que, pelas repercussões e entrevistas ouvidas até aqui, está tendo gozos venéreos. O senador direitista Ronaldo Caiado, patrocinador do MBL, já deu o tom: a direita está em polvorosa.

Moro, na verdade, não tinha outra saída. Sabia-se que ele condenaria Lula. O Juiz do Paraná já tem o seu fã-clube em todo Brasil e ele sabe que não tinha outra alternativa. Ele já estava mal com a esquerda. Se absolvesse o ex-Presidente, ficaria mal com todo país. Na verdade, ele acabou empurrando a decisão para a segunda instância, “cumpriu o seu papel” e deixará a decisão final para a instância superior. Sai bem na fita com seus fãs.

A grande repercussão dessa decisão judicial está na corrida presidencial. Começou 2018 e , a partir dos desdobramentos dessa decisão, poderemos projetar o cenário das eleições presidenciais do ano que vem. Lula ocupa o primeiro lugar em todas as pesquisas. Essa condenação pode até mudar esse quadro. Para melhor ou para pior. Mas os inimigos do ex-Presidente querem vê-lo inelegível. Para isso, ele teria que ser condenado em segunda instância caindo, assim, na Lei da Ficha Limpa. Por isso que 2018 começou. O PT irá recorrer, procurar protelar a decisão fatídica que alijaria Lula de 2018. O problema é que, se o tempo eleitoral é definido, o tempo judiciário é indefinido. Ninguém sabe quanto tempo levará esse novo julgamento e ele pode se arrastar a ponto de não dar tempo de tirar Lula da disputa. É lamentável sabermos que a eleição presidencial de 2018 está começando nos tribunais. Evidentemente, os partidos de direita querem Lula fora da disputa. Isso porque nem o PT e nem outro partido aliado teria, nesse prazo, um nome que herde o lastro eleitoral lulista, lastro esse que é mais lulista do que petista. Do lado da direita, o quadro também é um pouco complicado, mas se Lula ficar de fora, será um alívio. A direita tem que se recompor. Pelo PSDB Aécio Neves, aquele que disse que matava, está morto politicamente. Serra já está entregando os pontos. Restam Alckmin e seu pupilo, o Prefeito Engomadinho do Tietê. Pela Rede,  Marina Silva é um pêndulo: ora está na direita, ora na esquerda. Marina  é um fenômeno que nenhum cientista político explica. Talvez Galileu explique. Mas, no caso de uma inelegibilidade de Lula, ela poderia herdar um bom naco de seus votos. Já Ciro Gomes é uma incógnita, embora uma coisa seja quase certa: ele também herdaria  parte dos votos de Lula. A conclusão é simples: uma eventual inelegibilidade de Lula certamente pulverizaria a esquerda. E a direita também aposta nisso, para levar dois de seus candidatos ao segundo turno.  O neofascista Bolsonaro também veria com alívio uma inelegibilidade de Lula. Mas só por vingança pessoal. Bolsonaro é provinciano e não entra, por exemplo, no Norte-Nordeste. Lembrando que, na última eleição, o Nordeste decidiu a eleição em favor de Dilma. As cartas (ou as pedras) estão lançadas. Talvez mais pedras do que cartas. Na verdade, Sérgio Moro deu foi o primeiro tiro. Começou 2018…

PARLAMENTARISMO E DISTRITÃO: NOVOS GOLPES A CAMINHO

parlamentarismodistritãoOs escândalos de corrupção, a compra de votos e o “cai-não-cai” do Presidente golpista,  têm eclipsado iniciativas que vem acontecendo nos bastidores do meio político, que consistem em propostas de reformas políticas, algumas para serem adotadas já, outras para mais adiante. Destaco as articulações que vem sendo feitas em torno da adoção do Parlamentarismo e do chamado “distritão”.

Sobre o parlamentarismo, o mote é muito simples: “eu não tenho votos para eleger um Presidente; mas posso  fazer a maioria no Congresso e, em um sistema parlamentarista, com essa maioria, eu elejo o Primeiro-Ministro”. A única vez na história republicana em que o parlamentarismo foi adotado, em 1961,  foi um golpe. Um golpe muito claro, visando tirar os poderes do (legítimo) Presidente João Goulart, que assumiu o governo após a renúncia de Jânio Quadros. É sempre bom lembrar que João Goulart foi eleito Vice-Presidente da República com seus próprios votos, pois, na época, a eleição para Presidente e Vice não era uma “venda casada” como é hoje. Mas em um plebiscito realizado em 1963, o povo rejeitou sobejamente o parlamentarismo: naquela ocasião, 80% dos brasileiros votaram a favor do presidencialismo. Em 1993, conforme determinado nas disposições transitórias da Constituição de 1988, o povo foi chamado novamente para escolher qual sistema de governo o país adotaria. Nova vitória de goleada do presidencialismo: 70% X 30%. Recordo-me que, na época, muitos diziam: “eu lutei tanto tempo para termos eleição direta para presidente, e agora que conseguimos,  nós vamos eleger uma Rainha da Inglaterra”? Sabemos que a tradição brasileira é presidencialista como é, aliás, a tradição de todo continente americano. Mas a justificativa para a manutenção do presidencialismo não está só na tradição. Há vários outros motivos. O primeiro deles é, sem dúvida, o ardil que está por trás da proposta parlamentarista. Ela vem, predominantemente, de setores conservadores e historicamente golpistas de dentro do Congresso e de partidos que sabem não terem chances de emplacarem uma Presidência da República. Mas a coisa vai além. O Brasil não possui uma estrutura partidária sólida para um parlamentarismo. Em quase todos os casos, as siglas partidárias são meros instrumentos formais, onde não há vínculo ideológico nem dos eleitores e nem dos candidatos. Basta ver a recente possibilidade de migração de 10 deputados do PSB para o DEM. Qualquer cientista político não teria explicação para esse comportamento, além de um fisiologismo barato. E qual a credibilidade do Congresso que aí está? Imaginem um Primeiro-Ministro saindo desse Congresso… Hoje a proposta parlamentarista soa como um novo golpe, principalmente quando vemos que um determinado candidato a Presidente lidera todas as pesquisas, em todos os cenários, apesar de “Moros”, “Globos”, “Vejas”, “Mervais” e seres afins.

Mas a coisa não pára por aí. Vem ganhando força a proposta do “distritão” que, em poucas palavras, é o sistema eleitoral que acaba com a proporcionalidade, determinando que os mais votados, com número absoluto de votos, sejam os eleitos. Não teríamos mais o quociente eleitoral e distribuição de vagas conforme o desempenho partidário e sim conforme o desempenho pessoal de cada candidato. O que, aparentemente, pode ser uma forma justa de apontar os vencedores de uma eleição, esconde grandes injustiças: o chamado “distritão” favorece os detentores de “currais eleitorais” (rurais ou urbanos), beneficia aqueles que têm maior poderio econômico no pleito, além de, entre outras coisas, praticamente impossibilitar a representação de frações minoritárias, o que faria com que pequenos partidos, cujos votos são mais ideologizados, não tivessem representante. É bem verdade que, com o “distritão”, não teríamos mais a necessidade de vermos alguns partidos recrutando “Tiriricas” para puxarem suas legendas. Mas, sejamos razoáveis: o dia que tivermos que usar Tiririca para justificarmos uma reforma eleitoral, aí  poderemos ter a certeza de que os palhaços somos nós…

TEMER: UNANIMIDADE NEGATIVA

temerQue o governo Temer é ilegítimo e impopular, todos sabemos; que o governo Temer é um dos mais corruptos da história, também sabemos; que o governo Temer está trazendo grandes retrocessos em termos de política social, econômica, cultural e educacional, também sabemos. Mas, depois de pouco mais de um ano do golpe que o levou à Presidência, não esperávamos que o governo golpista se tornasse quase que uma unanimidade em termos de rejeição. Os dados são impressionantes. Pesquisa da Ipsos Public Affairs revela que 85% dos brasileiros consideram o governo Temer ruim ou péssimo e (pasmem!) 94% desaprovam a atuação do Presidente golpista. Trata-se da pesquisa Pulso Brasil, que é realizada mensalmente desde 2005.  Acrescente-se que, na gestão Temer, desde 2016, a desaprovação só vem crescendo, chegando quase que a uma unanimidade nacional. Nem os ditadores militares atingiram números de desaprovação tão estratosféricos. Temer consegue desagradar tanto a FIESP de Paulo Skaf (que apoiou o golpe) como o trabalhador de baixa renda. Dizem que ninguém pode governar para todos. Parece que Temer não está governando para ninguém, apenas para sua camarilha de aliados corruptos e devedores da Justiça, que visam, como confessou o próprio Romero Jucá, estancar a Lava Jato, num grande acordo com o Judiciário, e  para usarem o manto vergonhoso do foro privilegiado e não responderem por seus crimes, a começar pelo próprio Temer.

A agenda de Temer tem sido desastrosa em todos os aspectos; a reforma trabalhista é a reforma dos patrões e empresários; a reforma da previdência é a volta da escravidão; o desemprego está aumentando; o Brasil está voltando ao mapa da fome; os escândalos protagonizados por Temer e seu alto escalão são assustadores; a compra de votos está evidente. Há uma nítida disposição de Temer e seus aliados fazerem de tudo para se manterem no poder até 31 de dezembro de 2018. E não precisa nem mais ser nos porões do Jaburu. É tudo às claras, ao vivo na TV. Acabou (se é que algum dia houve) a vergonha e o escrúpulo dos saqueadores que tomaram o país de assalto.

Apesar dos números impressionantes, divulgados por uma das empresas mais idôneas de pesquisa, impressiona ainda mais a letargia que tomou conta do país. Até a classe média (que pensava que era alta) e foi às ruas pedir a saída de Dilma, impressiona com a sua inércia. Geralmente a classe média é muito sensível a escândalos, possui um perfil moralista e é contra aumento de impostos. Mas nem com tudo indo contra o seu perfil, ela é capaz de se mobilizar como se mobilizou (ou se deixou levar) no caso da ex-Presidente Dilma. Evidentemente, a classe média foi ouvida na pesquisa e ela está nos 85% e nos 94% que não toleram Temer.

Há um detalhe que não podemos deixar de mencionar: quando Aécio perdeu a eleição em 2014, o tucano disse que iria incendiar o país (antes de dizer que mataria delatores). E não é que essa vitória o tucano conseguiu? O país está em chamas. Começa a ficar claro um conflito entre os poderes, o que já transcende a crise política, podendo levar o país a uma crise institucional. Existe uma clara guerra entre o Executivo/Legislativo, a PGR, setores do Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal. A votação do dia 2 de agosto já tem seu resultado comprado por Temer. Mas novas denúncias virão. O balanço do resultado do impeachment da Dilma ainda não pode ser fechado. A cada dia novos fatos, novas denúncias, novas cooptações.

Estamos a uma semana do dia 2 de agosto. Se o Congresso fosse a voz que emana do povo, a denúncia da PGR seria aceita por, no mínimo, 85% dos deputados federais. O Congresso ainda tem uma, talvez última chance, de mostrar que representa o povo. Mas tudo leva a crer que eles estão nos 6% que aprovam o golpista do Jaburu. Que o troco a esses pulhas venha em 2018!

SÃO JANUÁRIO: O VIETNÃ DAS ELITES

são januárioNosso blog é sobre política. Nosso blog é sobre história. Nosso blog é sobre atualidades. São Januário é política. São Januário é história. E São Januário é o assunto da atualidade. Na verdade, São Januário é atualidade há 90 anos. E a primeira derrota viria logo na inauguração. Em 21 de abril de 1927 ainda faltavam 13 anos para Pelé nascer, mas o Santos derrotava o Vasco por 5 a 3 no jogo inaugural do oficialmente denominado “Estádio Vasco da Gama”. Era um jogo amistoso. Era um jogo festivo. E o Vasco perdeu. Mas o Vasco ganhou porque, a partir daquela data, o Vasco erguia um monumento que simbolizaria um rotundo “não” ao racismo; um monumento que simbolizaria um rotundo “não” ao elitismo. Um monumento que, muito além da união luso-brasileira, significaria a inclusão social e traria, doravante, o ódio e as porradas, vindas de todos os lados de seus declarados inimigos (e não apenas adversários) da Zona Sul. Mesmo com sabotagens oficiais, por parte do Presidente da República, Washington Luís, chamado pelo povo de “Doutor Barbado”, que vetou a importação do cimento belga, mesmo tendo que lutar  contra a união elitista-zona-sulista, liderada pelo Sr. Arnaldo Guinle, estava erguido,  na Zona Norte, com recursos próprios, o monumento antirracista e antielitista. Ali Vargas faria os seus comícios. Ali Vargas assinaria a CLT, que hoje querem acabar através das reformas Temer-PSDB; dali sairiam aviões doados à FEB na Segunda Guerra para combater o nazi-fascismo. O Estádio seria um dos maiores da América do Sul e, por tempos, até a inauguração do Maracanã, em 1950, era o palco principal do futebol carioca e brasileiro. Em poucas palavras:  uma espinha entalada na garganta dos clubes elitistas e seus defensores na grande mídia. Pior do que isso (para eles): popular, e não “populista”, como são alguns. Essa foi a maior de todas as vitórias do Vasco. Mesmo com as porradas vindas do outro lado do túnel, São Januário tornou-se algo análogo ao Vietnã em relação aos EUA: gozos efêmeros com Iraques e Afeganistões, mas o eterno incômodo do Vietnã. O problema, para eles, não é a construção, o concreto, o cimento. O problema é o que aquele templo simboliza. Deplorar São Januário virou lugar-comum para eles, assim como bushistas e trumpistas deploram vietnamitas e muçulmanos. “Chiqueiro”, “não tem segurança”, “é difícil o acesso”, “está mal localizado”  (olha a favela aí gente!)… E por aí vai.

As cenas criminosas de barbárie e vandalismo protagonizadas por bandidos no estádio no último sábado são muito piores do que qualquer derrota em campo. Quem fez aquilo não é vascaíno. E nem flamenguista, porque até o verdadeiro flamenguista sabe o que o estádio simboliza. Se um flamenguista quebrar São Januário (como aconteceu no jogo anterior, em que eles perderam), estejam certos de que estão quebrando aquilo que representa o que eles certamente defendem, embora torçam para outro clube. Jogar bombas no campo? Explodir histórias e vitórias? Com qual interesse? Cenas como aquelas não são inéditas. Já ocorreram em vários estádios. Mas deplorar o território que simboliza,  fora de campo,  a vitória de bandeiras  que eles tanto odeiam… Aí então é uma oportunidade e tanto. Parecem até o George Bush falando sobre o Iraque em 2003: “ali não é seguro; ali tem um ditador ; ali existem facções”… Basta ler Calazans, Kfouris, Gilmares, Marlucis, Prados e seres afins.

O Vasco ainda será muito deplorado por esses acontecimentos. Infelizmente essa foi a maior vitória de alguns deles. Mas como tudo na vida, será superado e eles ainda ficarão mais 90 anos sem dormir porque sabem que ali não é o Iraque e sim o Vietnã. Foi fácil derrubar a Favela da Praia do Pinto. Mas na Barreira são outros quinhentos…

FERIADO EM SÃO PAULO: O “9 DE JULHO” E SEU SIGNIFICADO 

revolução constitucionalistaHoje é dia 9 de Julho. Hoje é feriado no Estado de São Paulo, embora tenha caído em um domingo. Há exatos 85 anos começava uma insurreição em São Paulo que, oficialmente, passou para a história com o nome de “Revolução Constitucionalista”. Era o ano de 1932 e as elites paulistas, afastadas do poder desde a ascensão de Vargas, em 1930, não aceitavam ter perdido o controle político do país. Então, pegaram em armas para tentar depor o Presidente. Curiosamente, não se fala em “agitação” ou “terrorismo”. Eles foram “heróis”. Ano passado, por ocasião do circo protagonizado no Plenário da Câmara dos Deputados durante a votação do pedido de impeachment da Presidente Dilma, o deputado neofascista Eduardo Bolsonaro dedicou o seu voto “aos revolucionários paulistas de 1932”, enquanto seu pai exaltava um torturador do regime militar. Bem sintomático. Pelos seus defensores e exaltadores, já dá para termos uma ideia do que representou o 9 de Julho de 1932.

É claro que em 1930, quando Vargas tomou o poder, também não houve revolução. A estrutura econômico-social não foi alterada e uma nova classe não tomou o poder. O que houve foi um realinhamento das elites no poder. E esse realinhamento contrariou os interesses da oligarquia paulista, principalmente a casta de cafeicultores que foi, durante toda a Primeira República, dona do poder, dos votos fraudados e dos benefícios. Tratava-se de uma oligarquia articulada ao mercado externo, mas que começou a se deteriorar antes mesmo da chegada de Vargas ao poder, pois a Crise de 1929 afetaria decisivamente os seus negócios e, também, o seu poder político.

O grupo que toma o poder em 1930, liderado por Vargas, também era oligárquico. Porém, tratava-se de uma burguesia nacional, articulada ao mercado interno e, visando desenvolvê-lo, incentiva a produção industrial, juntamente com o desenvolvimento de uma incipiente legislação trabalhista. Isso daria algum poder de consumo à população, o que resultaria nos lucros da camada constituída pela burguesia nacional.

Fora do foco do poder, os paulistas jamais aceitaram perder o controle da vida política nacional. Naquela ocasião, a mobilização da elite paulista levou a uma campanha que arrecadou donativos vindos de todas as partes do Estado. Tratava-se de uma questão de patriotismo (para os paulistas).  A “Paulicéia” dava como uma das razões para a revolta  a falta de uma Constituição. A de 1891 já tinha ido para o vinagre e a de 1934 ainda não tinha começado a ser escrita. Vargas governava por decretos, como chefe de um governo dito “provisório”.

Os paulistas perderam e o próprio Vargas não chegou a ter um espírito tão vingativo como se poderia pensar. Houve prisão de alguns líderes. Mas Getúlio, em sua inteligência política, via que tinha que recompor o cenário, compondo politicamente com os grupos insatisfeitos. Parece que Getúlio não salvou apenas o seu governo. Sabe-se que ele já falava em suicídio caso os paulistas vencessem. Mas 1954 ainda estava longe e Lacerda ainda não era nem uma silhueta, muito menos um fantasma.

Mas a FIESP lá estava, apoiando os revoltosos paulistas. E não adiantava ela mandar sua claque se vestir de camisa amarela da seleção, porque, naquela época, a camisa da seleção brasileira era branca. E o branco lembra paz. Eles queriam a guerra.

Não é à toa que São Paulo tonou-se anti-getulista e anti-trabalhista. Talvez essa tenha sido uma vitória dos paulistas. O estado mais industrializado do país, tornou-se impermeável aos ideais de Vargas e seus seguidores, como por exemplo, Brizola. Talvez essa seja a grande herança histórica da malograda “Revolução de 1932”, que causa tanto orgulho aos Bolsonaros e seres afins.

DEMOCRACIA E JUSTIÇA SEM COR

não ao racismoSaindo por ora da política, falemos de futebol. Não propriamente do futebol dentro de campo, mas das relações institucionais. Escrevo na véspera do clássico Vasco X Flamengo que ocorrerá em São Januário pelo Campeonato Brasileiro, e tomou vulto, dentro e fora do Vasco, a notícia de que Luciano Araújo,  um declarado flamenguista, teve seu nome aprovado para Sócio Emérito do Vasco. Alguns perguntam: pode isso ? E eu respondo: sim, claro que pode. Clubes são instituições reguladas por Estatutos e não por clamor ou pulsões de seus torcedores. E é importante para os torcedores que, muitas vezes, acompanham seus times apenas assistindo aos jogos, saberem como um clube funciona por dentro.

O Vasco é, historicamente, um clube democrático e inclusivo. Clube da colônia portuguesa, ele não é apenas um elo da união luso-brasileira. O Vasco lutou contra o racismo e o elitismo dos clubes da zona sul no início dos anos 20. Foi em 1923 que foi campeão carioca pela primeira vez, com um time formado por negros e operários. O agraciado em questão é um funcionário do futebol amador do Vasco, que foi admitido para trabalhar no clube pela sua capacidade profissional e não pelo clube para o qual, eventualmente,  torce. O Estatuto do Vasco, em seu artigo 12, diz que sócio emérito “é aquele que contribuiu para o engrandecimento do clube, tanto do ponto de vista patrimonial como pelos serviços prestados”. E a indicação tem que ser aprovada pelo Conselho Deliberativo, como foi. Se todos aqueles que vão trabalhar em um clube e recebem láureas tivessem que ser torcedores declarados do mesmo, como ficariam as coisas? Bem, para quem não sabe, Pelé é torcedor declarado do Vasco e tem uma estátua na Vila Belmiro, além de ser sócio laureado do Santos; Antônio Soares Calçada, ex-Presidente do Vasco, é sócio do Flamengo; Antônio Lopes, declarado torcedor do Vasco, trabalhou e foi homenageado em diversos clubes; Marcelo Paes, autor do livro sobre a conquista da Taça de Bronze pelo Olaria, é torcedor declarado do Madureira, mas seu feito valeu-lhe um título de sócio honorário do Olaria; Bebeto de Freitas, que foi Presidente do Botafogo, trabalhou como diretor no Atlético Mineiro; ah, para não esquecermos: Francisco Horta, que foi Presidente do Fluminense, depois foi diretor de futebol do… isso mesmo: do Flamengo!

As tradições democráticas do Vasco vão além de seu Estatuto: estão em sua própria história. Seja funcionário, seja criança, seja visitante, o clube não discrimina, por mais que ele próprio tenha sido discriminado na história. Houve uma época em que acolher portugueses e negros era lutar contra ódios e preconceitos vindos do outro lado do túnel. Lusofobia e racismo já foram até discursos oficiais. Luciano Araújo, o novo sócio emérito do Vasco, passa a ter obrigações estatutárias. E ele sabe que, doravante, terá que ter mais do que vínculo profissional ou apreço pelo clube do qual tornou-se sócio. Ele terá que ter respeito, embora nada o impeça de, vez por outra, ir banhar-se na Praia do Pinto…