DEMOCRACIA E JUSTIÇA SEM COR

não ao racismoSaindo por ora da política, falemos de futebol. Não propriamente do futebol dentro de campo, mas das relações institucionais. Escrevo na véspera do clássico Vasco X Flamengo que ocorrerá em São Januário pelo Campeonato Brasileiro, e tomou vulto, dentro e fora do Vasco, a notícia de que Luciano Araújo,  um declarado flamenguista, teve seu nome aprovado para Sócio Emérito do Vasco. Alguns perguntam: pode isso ? E eu respondo: sim, claro que pode. Clubes são instituições reguladas por Estatutos e não por clamor ou pulsões de seus torcedores. E é importante para os torcedores que, muitas vezes, acompanham seus times apenas assistindo aos jogos, saberem como um clube funciona por dentro.

O Vasco é, historicamente, um clube democrático e inclusivo. Clube da colônia portuguesa, ele não é apenas um elo da união luso-brasileira. O Vasco lutou contra o racismo e o elitismo dos clubes da zona sul no início dos anos 20. Foi em 1923 que foi campeão carioca pela primeira vez, com um time formado por negros e operários. O agraciado em questão é um funcionário do futebol amador do Vasco, que foi admitido para trabalhar no clube pela sua capacidade profissional e não pelo clube para o qual, eventualmente,  torce. O Estatuto do Vasco, em seu artigo 12, diz que sócio emérito “é aquele que contribuiu para o engrandecimento do clube, tanto do ponto de vista patrimonial como pelos serviços prestados”. E a indicação tem que ser aprovada pelo Conselho Deliberativo, como foi. Se todos aqueles que vão trabalhar em um clube e recebem láureas tivessem que ser torcedores declarados do mesmo, como ficariam as coisas? Bem, para quem não sabe, Pelé é torcedor declarado do Vasco e tem uma estátua na Vila Belmiro, além de ser sócio laureado do Santos; Antônio Soares Calçada, ex-Presidente do Vasco, é sócio do Flamengo; Antônio Lopes, declarado torcedor do Vasco, trabalhou e foi homenageado em diversos clubes; Marcelo Paes, autor do livro sobre a conquista da Taça de Bronze pelo Olaria, é torcedor declarado do Madureira, mas seu feito valeu-lhe um título de sócio honorário do Olaria; Bebeto de Freitas, que foi Presidente do Botafogo, trabalhou como diretor no Atlético Mineiro; ah, para não esquecermos: Francisco Horta, que foi Presidente do Fluminense, depois foi diretor de futebol do… isso mesmo: do Flamengo!

As tradições democráticas do Vasco vão além de seu Estatuto: estão em sua própria história. Seja funcionário, seja criança, seja visitante, o clube não discrimina, por mais que ele próprio tenha sido discriminado na história. Houve uma época em que acolher portugueses e negros era lutar contra ódios e preconceitos vindos do outro lado do túnel. Lusofobia e racismo já foram até discursos oficiais. Luciano Araújo, o novo sócio emérito do Vasco, passa a ter obrigações estatutárias. E ele sabe que, doravante, terá que ter mais do que vínculo profissional ou apreço pelo clube do qual tornou-se sócio. Ele terá que ter respeito, embora nada o impeça de, vez por outra, ir banhar-se na Praia do Pinto…

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