LUDISTAS E TAXISTAS

ludistasuber taxiA Revolução Industrial, que começou na Inglaterra em meados do século XVIII, registrou na história reações violentas de trabalhadores que viam nas máquinas suas concorrentes e culpadas por tudo de ruim que lhes acontecia. “Ludistas” eram os trabalhadores que participavam do movimento que reagiu contra os avanços tecnológicos da época e que passaram a destruir máquinas, geralmente em grupos que invadiam os nascentes estabelecimentos industriais. Aquela tecnologia, para eles, significava sua desvalorização e desemprego. Urgia destruí-la. Eles ficaram conhecidos como “quebradores de máquinas” ou “sabotadores” e foram duramente perseguidos. Provavelmente eram tidos como os “back-blocs” da época.

Escrevo um dia depois do protesto dos taxistas da cidade do Rio de Janeiro, que trouxe grande confusão na porta da Prefeitura, gigantesco engarrafamento e confronto com a Polícia e até entre os próprios taxistas. É o antigo protesto contra os aplicativos que oferecem serviços de transporte, especialmente o Uber,  uma ferramenta tecnológica multinacional  usada em celulares para atender a usuários de transportes individuais. Claro que a questão é extremamente complicada, havendo elementos de ambos os lados para justificar o sim ou o não aos aplicativos de serviços de transportes. Mas não é sobre isso que quero discutir. Quero falar sobre os limites dos avanços tecnológicos, até onde eles podem nos levar. Parece não haver limites. Lembrei-me do dia do casamento da minha filha, onde deu até pena do fotógrafo que oferecia seus serviços no cartório do Catete. Todos eram fotógrafos. A começar pelos noivos. E também os convidados. A maioria, de uma época em que já nasceram com a fotografia sendo um fenômeno físico e não químico. Sim, porque há muito que a fotografia deixou de ser um fenômeno químico. Acho que nosso fotógrafo de plantão já está na era digital. Mas o que ele e seus colegas de profissão farão com o Instagram? O que aconteceu com o amigo fotógrafo do casamento da minha filha foi o mesmo que aconteceu com os acendedores de lampiões no final do século XIX no Brasil, quando a iluminação pública passou a ser elétrica. Aquele avanço tecnológico foi pouco a pouco acabando com a profissão deles. Menos mal que ficaram eternizados em uma célebre poesia do Jorge de Lima. É provável que seus descendentes hoje sejam funcionários da Light. Assim como também é provável que, daqui a algum tempo, os descendentes de taxistas trabalhem em um serviço de “Uber sem motorista”, carro dotado de sensores e já em teste nos Estados Unidos.

E poderia dar vários outros exemplos: ainda não falei dos caixas eletrônicos, das teleaulas, da mídia eletrônica, da bilhetagem eletrônica nos transportes. E até no futebol. Sou do tempo da Sport Press, a agência de notícia esportiva que, até os anos 1980, dava os resultados dos jogos por meio de um telefone fixo. O trabalho envolvia muita gente. Hoje, temos informações sobre todos os jogos de todos os campeonatos do mundo em tempo real, em um único aplicativo no celular.

Em tudo isso, existe um aspecto fundamental que, a nosso ver, há muito vem sendo ignorado, embora seja uma garantia constitucional. Refiro-me a um direito consagrado no artigo 7, inciso XXVII da Constituição Federal, que é o direito do trabalhador de proteção em face da automação. Trata-se de um direito que, em quase 30 anos de Constituição Cidadã, jamais foi regulamentado. Em conflitos como o dos taxistas contra os aplicativos, o Estado deve ser o mediador. E, talvez, um dos principais, senão o principal elemento dessa mediação seria a regulamentação desse direito. Trata-se de um assunto complexo, que demanda aspectos trabalhistas, jurídicos, sociais, científicos e até filosóficos. Mas que o Estado, em especial os legisladores, são pagos para resolver. O Estado é pago pelos impostos que, por sua vez, pagam os nababescos salários dos legisladores. Por que a proteção em face da automação nunca foi regulamentada? Os aplicativos, a robótica, a digitalização… São incontáveis os exemplos de subtração do papel de muitos trabalhadores. O direito previsto no artigo 7 de nossa Constituição certamente foi incluído na Lei Magna para evitar conflitos sociais traumáticos. Seria bom pensarmos em sua regulamentação, com um debate sério e não apenas visando os interesses de uma das partes. Sob pena de surgirem os “ludistas do século XXI”…

JUCÁ, DALLAGNOL E BARRICHELLO

barrichello“Temos que tirar a Dilma,  fazer um grande acordo com o Judiciário e estancar a sangria da Lava-Jato.” (Senador Romero Jucá, do PMDB, em gravação que veio a público em maio de 2016).

“A Lava-Jato está sendo sufocada.” (Deltan Dallagnol, Procurador da República e Coordenador da Força-Tarefa da Lava-Jato, em 28 de Julho de 2017).

“Tô começando a acreditar que foi golpe!” (“Rubinho Barrichello”, em brincadeira que rolou no Facebook em 28 de Julho de 2017).

Parece que, pela primeira vez, quem tentou sacanear o Rubinho Barrichello pela internet se deu mal. Nunca o cara esteve tanto no horário correto, e até sincronizado, com o Procurador da República, em relação ao que estava destinado ao país após o golpe parlamentar de abril de 2016. O senador peemedebista Romero Jucá, um dos maiores articuladores da saída de Dilma da Presidência, no nefasto diálogo com Sérgio Machado já urdia o mote do golpe que levaria o Mordomo e seus comparsas ao poder: o negócio era tirar mesmo a Dilma para frear a Lava-Jato. Esse diálogo foi uma confissão, uma cristalina obstrução de justiça e esse bandido, até hoje, está exercendo o seu mandato de senador para acobertar os seus crimes e os do seu capo do Jaburu. A blindagem de Temer a seus Ministros denunciados e investigados corroboram a profecia de Jucá. Tudo conforme o combinado. Mas tinham, em primeiro lugar, que tirar a Dilma.

Deltan Dallagnol, o “homem das convicções sem provas”, que disputa com Moro o trono de ídolo dos coxinhas, finalmente ontem caiu na real. Em entrevista coletiva parece que, dessa vez, ele teve mais provas do que convicções e, finalmente, admitiu que a Lava-jato está sendo sufocada pelo governo. Aquilo que os “moralistas da Avenida Paulista” consideravam o maior patrimônio do Brasil (a Lava-Jato), teve um corte de 400 milhões e a redução do número de delegados em menos da metade. Claro que a capacidade investigativa da operação irá se deteriorar, até ficar agonizante, como previu Jucá no nefasto diálogo com seu comparsa. O próprio Ministro da Justiça,  Torquato Jardim, admitiu em entrevista que isso poderá implicar em um processo seletivo de ações e operações (como se isso já não existisse!). Enfim, as coisas estão mais claras e não se pode mais falar em teorias conspiratórias. Mas ainda cabe uma pergunta: a tal “seletividade” à qual o próprio Ministro da Justiça se refere, irá mirar os canhões para quem? Já que há contingenciamento de verbas e não dá para investigar a todos, então  só poderemos investigar alguns. O raciocínio é lógico e não político-jurídico. Ganha um doce quem acertar para quem serão apontados os canhões.

Parece que o terreno está livre para os golpistas. A compra dos votos por Temer o blindará de sérias denúncias criminosas; a letargia dos que pediam pelo fim da corrupção em 2016 dá fôlego a Temer. Isso sem contar que o recente aumento dos impostos sobre os combustíveis não mobilizou os moralistas,  os caminhoneiros e nem as “donas de casa bem comportadas colecionadoras de ursinhos de pelúcia”. Todos dormem em berços esplêndidos. No Rio de Janeiro então, muito mais tranquilos, com a chegada das Forças Armadas.

Enquanto isso, podemos chegar a algumas conclusões: o golpe vai aos poucos tomando o formato para o qual foi arquitetado. Mas essa conclusão é recorrente. Temos duas novas conclusões que, ao menos, fazem com que o governo Temer aumente o nosso conhecimento: pela primeira vez, Dallagnol chega a uma convicção com provas. E também o Rubinho Barrichello não chegou atrasado. Ele chegou na “hora h”,  no mesmo dia  em que o homem que outrora só tinha convicção, teve uma cristalina prova… Do golpe.

CONGRESSO OU MANCHA CRIMINAL ?

congressoEles possuem “foro privilegiado” e, assim, só respondem por seus crimes perante o STF; eles quase nunca são condenados e arrastam denúncias e processos ao longo de infindos mandatos; eles fazem as leis que serão aplicadas a eles mesmos. Quem são eles? Falamos dos 594 integrantes do Congresso Nacional. São 513 deputados federais e 81 senadores. Todos eleitos democraticamente pelo povo. Desse total de 594, segundo dados do site Congresso em Foco, 238 estão sendo investigados por denúncias de crimes. Ressalte-se que, entre os denunciados, encontram-se os Presidentes da Câmara e do Senado. Isso sem contar alguns dos principais presidenciáveis para 2018.  Os dados são revoltantes: as acusações criminais contra os parlamentares cresceram 68% nos últimos dois anos; de cada 10 senadores, 6 respondem a acusações criminais no STF. Dá para entender a emblemática declaração do senador golpista Romero Jucá,  quando disse que “era preciso tirar a Dilma para estancar a sangria da Lava-Jato”. Jucá é um dos que mais tem denúncias e, em um país sério, ele e muitos outros já estariam na cadeia. O total de denunciados no Congresso está em torno de 40% de seus membros. Mas os números são dinâmicos e muito velozes. Quando perguntarem quantos parlamentares estão sendo investigados, nunca teremos o número exato. Escrevo no dia 27 de Julho de 2017 e não sei se os números acima já mudaram. Eu sempre digo: “tem que apertar o F5!”

O “cardápio” de tipificações é o mais diversificado que podemos imaginar: crimes contra o sistema financeiro, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, crimes contra a lei de licitações, ameaça, lesão corporal, falsidade ideológica, crimes eleitorais, apropriação indébita, peculato, sonegação, falsificação de documento público, calúnia, injúria, evasão de divisas, tortura, tráfico de influência, crimes contra a segurança nacional, apologia ao estupro, invasão a estabelecimentos industriais… Será que temos um Congresso ou uma mancha criminal em Brasília? Até que ponto eles nos representam? Acrescente-se que não estamos contabilizando outros aspectos que indignariam qualquer cidadão, como quebra de decoro, comércio livre de votos (como fez Temer na CCJ), clientelismo…

E é esse Congresso que, no próximo dia 2 de agosto, irá aceitar ou não as denúncias contra Temer, igualmente envolvido em denúncias de crimes gravíssimos. E é esse Congresso investigado, sob suspeita, desacreditado e igualmente envolvido em várias tramoias, que votará pelo prosseguimento ou não das denúncias contra o Mordomo usurpador. Para quem pratica a gama de crimes acima relacionados, deixar-se cooptar por eufemismos como “liberação de emendas parlamentares” não significa nada. Os votos já estão comprados. Certamente Temer e sua camarilha se livrarão de mais essa, com assentimento de um Congresso em estado de putrefação. Caberá a nós, em 2018, decidirmos se queremos realmente um Congresso para legislar sobre os interesses do povo ou uma  mancha criminal travestida de parlamentares. Sob pena de,  dolorosamente, incluirmos na realidade de nossa democracia representativa uma máxima  do filósofo grego Anaxágoras: “o semelhante só gera o semelhante”. Mas eu ainda acredito que o povo brasileiro é bom. E espero que ele demonstre isso em 2018.

UM ANO DEPOIS: ENTRE PATOS E TUCANOS

patos amarelostucanosEscrevo na manhã do dia 25 de julho de 2017. As ruas estão desertas. O Congresso está vazio. O “Vem Prá Rua” está em casa. O MBL está parado. A letargia tomou conta dessa gente. Há pouco mais de um ano, em nome da “moralidade”, eles estavam nas ruas, pedindo o afastamento da Presidente Dilma: eram pedaladas fiscais, desemprego, corrupção. Todos indignados. Patrocinados pelos grandes empresários da FIESP, com apoio da grande mídia e vestidos de amarelos, os “patinhos-bonitinhos” e bem comportados protestavam Brasil afora. “Fora Dilma! E leve o PT junto”. Patos e tucanos chegavam ao gozo venéreo quando o deputado Bruno Araújo proferia o voto  “sim” de número 342 ao impeachment da Presidente, em sessão presidida pelo bandido Eduardo Cunha ( que hoje, como muitos outros bandidos, controla tudo de dentro da cadeia). Iniciava-se o que patos e tucanos chamaram de “era da regeneração”.

Hoje, vemos que todo tipo de crime, protagonizado pelo Presidente-golpista e toda sua quadrilha,  é como se fossem tolerados por eles. Corrupção, formação de quadrilha, obstrução de justiça, ameaça de morte a eventuais delatores, mala com meio milhão, Presidente negociando o silêncio de Cunha, Presidente em conversa subterrânea com empresário-bandido,  compra de votos, aumento dos combustíveis para repor o que foi dado aos deputados da CCJ…  Tudo bem. O negócio era tirar a Dilma. Enquanto os patos estão perplexos (parece que o Temer jogou neles aquela água que dizem que jogador argentino oferece aos adversários), os tucanos já caíram na real em relação à enrascada em que se meteram. O “sai-não-sai” do governo Temer é prova disso. Eles estão se corroendo, enquanto apoiam o governo mais impopular e ilegítimo da República. Mas o importante era tirar a Dilma. Será? Agora é tarde e hoje os próprios tucanos, um ano depois, sabem (embora muitos não admitam) que teria sido muito melhor deixar a Dilma terminar o seu mandato e fazerem oposição. Mas Aécio queria “incendiar o país”, como ele mesmo falou após ser derrotado em 2014.  Já disse, em outra oportunidade, que os tucanos se meteram foi numa ratoeira ao apoiarem o golpe e o governo golpista.  Profissional, Temer já chamou Paulo Skaf (aquele que disse que não pagaria o pato) para dizer que quem irá pagar é a sua claque. Claro que eles já se entenderam. Temer é Skaf e Skaf é Temer. A reforma trabalhista foi para o Skaf.  Resumo: o pato está voltando às suas origens e os tucanos sentindo-se como maridos traídos.

Mas, por onde andam os patinhos? Cadê os amarelinhos? Sumiram da Avenida Paulista. As panelas não emitem mais ruídos, as camisas da CBF do Ricardo Teixeira e do José Maria Marin estão desbotadas. Acho que estou começando a acreditar em algumas coisas, até na água dos jogadores argentinos. O que está acontecendo com essa gente? Acabou a pilha ou são robozinhos programados? Parafraseando o filósofo David Hume, seria muito bom que os patinhos amarelinhos despertassem de seu “sono enigmático”

A ENQUETE TUCANA: CHAMA A PROCUONSULT!

a denquete tucanaOs tucanos andam apavorados. Eles sabem que, mesmo depois da condenação, Lula permanece em primeiro lugar, em todas as pesquisas. De todos os institutos. Em todos os cenários. Então, quase que como incrédulos com a realidade, eles resolveram fazer a própria pesquisa particular deles. O site do PSDB colocou no ar uma enquete, onde os internautas eram questionados sobre o que achavam da condenação do ex-Presidente Lula. O site tucano oferecia três alternativas: A) Não existe ninguém acima da lei no Brasil; B) A justiça foi feita; C) Foi uma decisão política. O negócio é que os caras são golpistas até na hora de elaborarem uma pesquisa. Percebe-se claramente que as opções A e B são praticamente iguais ou redundantes e eram nessas duas opções que o site esperava a concentração maciça de respostas. Haviam, portanto, duas alternativas favoráveis ao que o PSDB queria e apenas uma contrária. No entanto, para surpresa e desespero dos tucanos, 93% dos votantes apontaram a opção C, ou seja, que foi uma decisão política. Isso mesmo: 93%! O resultado, além de levar mais desespero ao tucanos, mostrou que eles também não sabem perder votação que eles mesmos organizam. Na quinta-feira, dia 20 de julho, a pesquisa foi tirada do ar. Será que eles vão entrar com recurso? Ou será que eles vão fazer um segundo turno? Os tucanos responderam: sua assessoria disse que a enquete foi tirada do ar por motivos de “segurança”. Eles suspeitavam que hackers estivessem respondendo à pesquisa. Dizem os tucanos, não sei se envergonhados, que houve um trânsito “anormal” e “artificial” de internautas, tendo-se registrado, segundo eles, cerca de 100 mil votos por minuto. Eles fizeram a pesquisa. Eles perderam. E eles tentam se explicar, porque, com certeza, esse tipo de derrota, em seu próprio site, eles jamais esperavam.

Suponhamos que o site tucano tenha sido “visitado” por petistas ou lulistas (não são a mesma coisa!) só para votarem na opção C. Aí eu pergunto: e onde estavam os adeptos e fiéis frequentadores do site tucano? Das duas, uma: ou eles não existem ou eles estão cagando para o próprio site de seu partido. Seria uma “desilusão por causa do fim do sonho dourado aecista?” Onde estavam, naquele momento, os eleitores e simpatizantes do PSDB ? Mas eles também não vão admitir que os seus simpatizantes e eleitores cagaram para a enquete. A verdade  é que existem eleitores tucanos sinceros e bem intencionados, vários deles que até votarão no candidato do partido. Mas o povo (e aí incluem-se os eleitores tucanos, embora às vezes eles pensem que não o são), sabe que nenhuma denúncia contra tucano vai adiante na Justiça, principalmente nas mãos do rambo tupiniquim de Curitiba. Muitos tucanos, lá no fundo, sabem que a condenação  foi uma decisão política. Até porque, nesse tipo de enquete, não há a identificação do votante. Seja lá o que for, perder uma votação que eles mesmos organizaram, em seu próprio site, aí já é demais. Se pudesse, o PSDB levaria o resultado da enquete a julgamento, chamando o Gilmar Mendes ou o Alexandre de Moraes. Mas não podem. Então, aí vai uma sugestão para o pessoal do PSDB: vocês que defenderam e defendem tanto a terceirização, na próxima pesquisa que fizerem, contratem a Proconsult. Eu garanto a vocês que o resultado será outro…

PSB: DISSIDÊNCIAS E EXCRESCÊNCIAS

psb demA dissidência é uma atitude que tem se mostrado presente ao longo da história partidária brasileira, em legendas de todos os matizes ideológicos. Só para darmos alguns exemplos, o PSDB, o PSOL, o DEM, o PCdoB são partidos políticos originados de dissidências. E o PSB, o histórico Partido Socialista Brasileiro, também surgiu de uma dissidência da UDN, em 1947, quando a ala denominada “Esquerda Democrática” não compactuou com o viés direitista que a sigla passou a seguir. Já tivemos a oportunidade de falar sobre o PSB nesse espaço. No entanto, os fatos mais recentes obrigam-nos a abordar, novamente, o que leva esta sigla tão rica na história partidária brasileira ter caminhos tão incompreensíveis. O PSB resistiu. Viveu em sua história tempos de ilegalidade. Esteve ao lado das causas populares. Apoiou Lula em 1989. Mas apoiou Aécio em 2014. Após o golpe de 2016, alinhou-se ao governo de Temer. Com o escândalo do “Jaburugate”, foi o primeiro a deixar o governo golpista de Temer. O histórico do contraditório comportamento do partido permite que se fale qualquer coisa sobre ele. Escrevo no dia 19 de julho de 2017 e ainda estamos tentando entender a atitude de 10 deputados dissidentes do PSB. Eles continuaram no partido, mesmo depois do rompimento da legenda com o governo do Presidente golpista. E agora esse grupo está negociando a ida para o … DEM! Isso mesmo, para o DEM. Ou seja, deputados que são de um partido “socialista” negociando a ida para um partido “liberal”, matiz ideológico extremamente oposto.

A atitude desses 10 deputados, no momento em que Temer corre o risco de ser defenestrado, levou o Mordomo usurpador a entrar em atrito com Rodrigo Maia, o Presidente da Câmara, que é do DEM. Enquanto um tenta negociar a ida dos dissidentes para o PMDB, visando permanecer no poder, o outro negocia para ter os dissidentes no DEM, já pensando na composição de um futuro governo caso Temer venha a ser afastado em 2 de agosto. É uma briga em que não existe “mocinho”.

Definitivamente, há casos na política brasileira, cuja compreensão necessita ir além da ciência política. Porque, a se consumar a ida de dissidentes do PSB para o DEM, um dos partidos brasileiros mais à direita, não teríamos dissidência e sim excrescência, algo que vai além do razoável, do imaginável. E o pior: nas dissidências, geralmente o grupo que sai, tem por motivo o fato de se dizer “fiel aos princípios partidários”, denunciando o afastamento desses princípios por parte do grupo majoritário. Entenderíamos se dissidentes do PSB fossem para o PSOL, PT, PCdoB… Mas para o DEM? E sendo ainda cooptados por Temer para ingressarem no PMDB?

Há pouco tempo falei, nesse mesmo espaço, sobre a satisfação de ter o PSB de volta à esquerda, quando rompeu com Temer. E agora, vem a pergunta: o que esses 10 deputados faziam até então no PSB e por que não foram expulsos? Sim, porque eles não são dissidências e sim excrescências. Vão comer migalhas de casca de queijo nas patas das ratazanas… Só não sei qual delas: a do Planalto ou a da Câmara dos Deputados?