OS DESCARTÁVEIS DO GOLPE

eduardo cunhamiguel reale jr.A História do Brasil é repleta de golpes e, embora em conjunturas e com atores diferentes, geralmente os golpes possuem um aspecto comum: eles sempre apresentam os seus “elementos descartáveis”, sendo esses elementos atores principais ou secundários no cenário golpista. Eles não deixaram de ter suas importâncias para o êxito do golpe, mas, uma vez concretizada a urdidura golpista, eles são jogados fora por aqueles que realmente terão voz e vez no cenário pós-golpe. Isso aconteceu com D.Pedro I, que foi fundamental para a independência, mas quando não mais serviu aos interesses das elites agrárias, estas o descartaram; algo semelhante ocorreu com os militares que estiveram à frente do movimento republicano; eles foram importantes, até o momento em que os cafeicultores resolveram tomar o poder diretamente para si. Em 1964, o golpe militar também teve seus elementos descartáveis: o grupo castellista, que apoiou a deposição de João Goulart,  não tinha noção do que viria depois, e foi afastado, o mesmo acontecendo com o eterno golpista Carlos Lacerda, que chegou até a ser cassado pelos militares que ele ajudou a colocar no poder.

Desde o golpe de abril de 2016, que tirou a Presidente Dilma do governo, que vários atores, principais e coadjuvantes, do golpe legislativo-midiático-empresarial vem caindo, um após outro, como pinos de boliche. O bandido e ex-Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, foi um dos primeiros. Sem ele não haveria impeachment. Acabou, primeiro, sendo afastado da Presidência para posteriormente ter o mandato cassado,  quase que por unanimidade, para depois ser preso. Abandonado por seus pares, seu destino é o esgoto da história. A senhora Janaína Paschoal, uma das signatárias do pedido de impeachment, que trabalhou para o PSDB em troca de 35 mil reais, hoje pede a renúncia de Temer, que ela ajudou a tomar o poder. Atualmente, e para sempre, ficará no ostracismo e carregará a marca do papel ridículo que desempenhou a serviço de um bando que tomou a presidência da República. Igual destino teve Miguel Reale Júnior, co-signatário do pedido de impeachment, que, envergonhado do papel que hoje sabe que teve, afastou-se do partido tucano. E ele sabe que não tem qualquer voz ativa, mesmo sendo um “cabeça branca” com poucos cabelos. Ele nunca teve voz ativa nem no partido nem no governo que ajudou a erigir. E o que falar do Aécio? O homem que disse que ia incendiar o país após a eleição em que foi derrotado e que falou que mataria delatores ? Ele já tem ciência de seu destino, tanto que já até ameça seus próprios pares tucanos,  caso vá para a cadeia. O homem que disse que matava, morreu politicamente, abandonado pelos seus comparsas,  depois de ser importante no golpe. E o que falar da claque de figurantes ? Sim, porque se alguns foram protagonistas e outros foram coadjuvantes, tivemos os figurantes do golpe. Foram os “patos amarelos da FIESP”. Eles diziam que, sem Dilma, acabaria a corrupção, teríamos um governo de notáveis e o país caminharia para a retomada do crescimento. Hoje, como amantes arrependidos, a maioria sabe que foi usada. Os escândalos de corrupção se sucedem no ilegítimo e impopular governo Temer, ministros entram e saem sob acusações escandalosas (algumas até confessadas, como o caso de Romero Jucá). Muitos dos patinhos amarelos até eram bem intencionados, jovens cheios de ideais. Hoje eles vêem que ajudaram a levar ao poder uma gangue que quer que eles trabalhem por quase 50 anos e nunca se aposentem e que abram mão de seus direitos trabalhistas. O escândalo do “Jaburugate” mostra que o próprio Temer pode ter sido usado, até quando foi útil. Até uma boa parte da grande mídia e do empresariado já se coloca contra o mordomo-usurpador. Muitas vezes o rei, todo cheio de si, pode nunca imaginar, mas ele será deposto por aqueles que o coroaram. E Temer sabe disso. O Planalto virou um “bunker” golpista, que já não atende às demandas dos poderosos grupos que patrocinaram o golpe. E o Mordomo não conseguirá governar de um “bunker” cheio de cúmplices, que certamente não sobreviverá até 2018. E não irá adiantar ele trocar o Janot em setembro…

PSDB: DA SOCIAL-DEMOCRACIA AO DIREITISMO OPORTUNISTA

psdb fundaçãoAlguns partidos políticos possuem uma trajetória histórica que nos surpreendem. Isso pelo fato de seus princípios terem mudado tanto ao longo do tempo, a ponto de nem acreditarmos no que esses partidos foram no passado. É o caso do PSDB. Ele nem sempre foi de direita. Claro que há os famosos “discursos de campanha” e “discursos de governo”. O PT também passou por isso: de “movimento” a “instituição”. Mas no caso do PSDB foi além do permitido e imaginável. Não falo apenas de seu pragmatismo presente, em que o apoio a Temer é visto como essencial para 2018 (leitura que eu discordo). Mas, vejamos a história dos tucanos.

Corria o ano de 1988 e a Assembleia Constituinte entrava em um momento crucial: a votação dos direitos sociais. Havia um grupo conservador majoritário do PMDB que fazia parte do “Centrão”. O “Centrão”, naquela época, era a ala conservadora do PMDB que queria barrar as conquistas sociais na Constituição. Mas não era só o PMDB. O PMDB, como sabemos, ainda era uma “frente”, mesmo depois de alguns anos do fim do regime militar. No entanto, um grupo progressista do PMDB, que contava com nomes como Fernando Henrique Cardoso, Tasso Jereissati, José Serra e outros, não aceitava a postura majoritária do PMDB de se posicionar contra os avanços sociais na Constituição e esse grupo dissidente saía do PMDB e formava o PSDB (Partido da Social-Democracia Brasileira). O programa do recém-criado PSDB tinha um viés centro-esquerdista e seria uma opção para fazer frente aos partidos de direita. Em 1989, um ano após sua fundação, embora o PSDB não tenha participado da Frente Brasil Popular, que lançou Lula à Presidência, o partido acabaria apoiando Lula no segundo turno contra o candidato da direita, o “caçador de marajás” (essa postura do PSDB, hoje, seria impensável). Foi um momento singular da história tucana: ver Mário Covas pedindo votos para Lula. Mas parece que o eleitor tucano já começava a dar o tom do que seria o partido no futuro: não houve a transferência de votos de Mário Covas e Collor ganhou, para alívio das elites.

A primeira grande guinada para a direita do PSDB e sua desidentificação com a social-democracia ocorreria em um dos principais momentos da história tucana: em 1994 FHC ganhava a Presidência da República e suas medidas mostravam que o governo tucano já não representava as demandas de suas origens. FHC, segundo dizem, chegou a proferir a famosa frase “esqueçam o que escrevi!” Ele  havia sido um ícone das esquerdas nos anos 70 e suas obras inspiraram gerações de esquerdistas. Se, como senador, FHC ficou indignado com a tentativa de supressão dos direitos sociais, agora, como Presidente, ele próprio realizava tudo ao contrário do que  preconizara anteriormente. Nada como alguém do legislativo ir para o executivo para sabermos quem realmente ele é. O PSDB começava a se “endireitizar” (com a devida vênia do vocábulo, que não existe em nosso vernáculo).

Daí em diante, a história tucana é conhecidíssima: mais um mandato de FHC, com um governo neoliberal, apesar do “social-democrata” na sigla do partido: privatizações, ataques a direitos trabalhistas e previdenciários. Em dois mandatos de governo tucano, o PT cresceu. Serra, Alckmin e Aécio não conseguiram manter os tucanos, agora neoliberais, no poder. O partido assumiu sua posição de direita, não com alianças estratégicas, mas com práticas, ideias e lideranças que representavam a mais pura direita neoliberal.

Estamos em 2017. O Presidente do Partido, Aécio, foi afastado do Senado pelo STF e só não está preso porque tem o manto maldito do foro privilegiado. Serra e Alckmin, nomes históricos dos tucanos, estão desmoralizados com citações  em delações que envolvem propinas milionárias. O partido já não tem mais escrúpulos e, desesperado, resolveu apoiar o carcomido, impopular, criminoso e ilegítimo governo Temer, por puro pragmatismo. Está claro que eles pensam em 2018. Mas é claro que muitos “cabeças brancas” querem mesmo é se salvar. Vejo que muitos ficarão é sem cabelos (sem nenhuma provocação ao Serra) e também sem votos. Porque a cada dia que eles estiverem ao lado do Temer, denunciado por corrupção, obstrução de justiça e formação de quadrilha, mais votos eles irão perder. É uma pena, que em quase 30 anos de história o PSDB, que era uma opção de centro-esquerda, tenha se tornado tão direitista e oportunista. Oportunismo que lhe custará caro. E nem adianta chamar o “engomadinho do Tietê”. Até porque, lembrando outros tempos do partido, ele só vai comer pastéis em lanchonetes. Nunca provará da buchada de bode. Aí já é demais para o “Jânio de Grife”. O Nordeste te aguarda “cabra da peste”!…

OS TRÊS RODRIGOS

janotmaialouresRodrigo Janot, o Procurador-Geral da República; Rodrigo Loures, o ex-deputado do PMDB preso e comparsa de Temer; Rodrigo Maia, o Presidente da Câmara dos Deputados e aliado de Temer. Passada a vergonha do julgamento do TSE, que deu sobrevida a Temer, mas não irá livrá-lo do “game over”, o Presidente-Golpista em exercício ainda terá que enfrentar muitos revezes para que seu joguinho dure até o final de 2018. Esta semana, em razão do julgamento que sepultou a Justiça Eleitoral no Brasil, o Mordomo do Jaburu conseguiu unir direita e esquerda contra ele. Isso é que é unanimidade. E nos revezes que o Sr. Temer irá enfrentar, os três Rodrigos serão fundamentais para o seu destino e de seus cúmplices protegidos pelo manto imoral do foro privilegiado. O Mordomo será denunciado ao STF por corrupção, formação de quadrilha e obstrução de Justiça. Temer precisa de 171 (número emblemático) deputados para que as denúncias não sigam adiante e, evidentemente, a atuação e liderança do Presidente da Câmara serão testadas. Isso porque ele terá que ser mais do que líder, pois muitos pensarão: “eu livro Temer, e morro politicamente; então, que morra ele!” (sem querer imitar o Aécio). Rodrigo Maia está sendo pressionado por todos os lados. Há uma ala recalcitrante dos tucanos que, na prática, já desembarcou do governo. De qualquer modo, sobre o Rodrigo Maia, parece que Temer ainda pode ter algum controle. Mas ainda não será o suficiente. Isso porque, o que já está tirando o sono do Mordomo são os outros dois Rodrigos. O Janot não vai deixar barato. As denúncias são gravíssimas e só uma suspeita de tamanha magnitude seria suficiente para o Presidente se afastar do cargo para defender-se (mas Temer não é magnânimo a esse ponto). E há um ingrediente a mais: a reação indignada da opinião pública após o julgamento que sepultou o TSE será um balizador para aqueles deputados que, pelo menos aparentemente, queiram se mostrar ao lado do povo. Em relação a esse segundo Rodrigo, Temer pode até reunir a sua cúpula jurídica, a começar pelo novo Ministro da Justiça, Torquato Jardim, que na verdade nada mais é do que seu advogado particular pago com dinheiro público. E o terceiro Rodrigo? Aquele rapaz da mala com meio milhão, vaidoso, que não queria ter os cabelos cortados como qualquer outro bandido presidiário? Ele sabe de muito mais. Ele sabe de coisas até que Temer pensa que ele não sabe.  O advogado do pobre coitado diz que não haverá delação. Sabe-se lá até quando…

A questão é que Temer virou um vilão tão barato, que nem os outros vilões são capazes de darem sua vida por ele.  Os três Rodrigos terão papéis diferentes no novo cenário pós-TSE. Mas a luta será árdua, muito árdua. Porque o cara está obsessivamente empenhado em concluir o mandato tungado da Dilma. E se nem a dona Marcela conseguir convencê-lo, aí, se mesmo com esse recurso com requintes de deleite ele não desistir, pela primeira vez terei que concordar com Temer e dizer que o poder é, realmente, afrodisíaco.

Pedro Paulo quebra o comentário de Arnaldo Jabor

 

 

Pedro Paulo critica o comentário de Arnaldo Jabor, que afirmou que a saída de Temer não seria um avanço maior do que as reformas. Pedro Paulo também repele o comentário de Arnaldo Jabor, que tenta minimizar as acusações de Joesley Batista e diz que Temer tem que sair do Planalto pelo esgoto. Por fim, Pedro Paulo quebra o rádio que representa o comentário de Arnaldo Jabor.

A RESSURREIÇÃO DE SÍLVIO SANTOS

silvio santos.jpgEles não são “políticos”. Eles são gestores, administradores, empreendedores. O pseudo-apoliticismo tem entrado em campo na história política recente do Brasil. E tem sido uma estratégia da direita, para alijar a esquerda da disputa. O ano era 1989. Corria a maior campanha para a Presidência da República da história do Brasil. Collor (PRN), Lula(PT) e Brizola (PDT) disputavam as duas vagas no segundo turno. Mário Covas (PSDB), Maluf (PDS), Ulysses Guimarães (PMDB) vinham por fora. Guilherme Afif (PL) chegou a mostrar fôlego. Os demais eram meros figurantes. Tanto de direita como de esquerda. No meio da campanha, o inusitado acontece. O desconhecido Armando Corrêa, do igual desconhecido Partido Municipalista Brasileiro,  anuncia a desistência de sua candidatura. Em seu lugar, o PMB teria como candidato o Sr. Senor Abravanel, mais conhecido como Sílvio Santos. O apresentador de TV seria o novo candidato da desconhecida legenda, com o número 26. Foi impactante. Foi inimaginável. Foi até engraçado ver o Sílvio Santos fazendo campanha pedindo votos para Presidente e falando que para votar nele tinha que assinalar o número 26. Ainda não existiam urnas eletrônicas e o voto seria no papel. Mas as cédulas já estavam impressas com o nome de Armando Corrêa. Então, o Sr. Abravanel teve que fazer a campanha pelo número. “Que loucura!”(alguns diziam); “Estão de sacanagem!” (diziam outros).

Mas a coisa era séria. Há momentos em que a direita não brinca. Só que a candidatura Sílvio Santos malogrou porque o TSE descobriu que o registro do PMB estava vencido. E o partido e seu novo candidato foram eliminados da disputa. A entrada inesperada do apresentador de TV tinha uma finalidade: evitar que a esquerda chegasse no segundo turno, fosse com Lula ou Brizola. A fatia do eleitorado de Sílvio Santos estava nas camadas populares e ele, com certeza, tiraria mais votos de Lula do que de Collor, fazendo assim um realinhamento na distribuição dos votos de modo a garantir dois candidatos de direita no segundo turno. Mas em 1989 eles ainda teriam que usar outros artifícios para levar o “caçador de marajás” para o Planalto.

Chegamos em 2017. Estamos a menos de 1 ano e meio para a eleição presidencial. Lula lidera todas as pesquisas. E, em um cenário de segundo turno, parece que dificilmente perderia. Com a morte política de Aécio (aquele que disse que matava) e com a evidência do envolvimento de Alckmin e Serra em escândalos e propinas, restou ao PSDB (e à direita, como um todo), o “engomadinho do Tietê”, aquele tal “Jânio de grife”, que não é político,  que come pastel na lanchonete, viaja de ônibus, varre a rua e já até deu uma de grafiteiro. Mas ele não tem fôlego para uma eleição nacional. Ele é provinciano. Ele não encararia o Nordeste e o próprio Nordeste não vê qualquer motivo para votar nele. Isso sem contar as histórias nada abonadoras sobre o seu passado na “Paulistur”, além de acusações de invasão de sua propriedade a terrenos públicos. Parece que a direita jogou por um tempão aquele joguinho do “resta 1” e o único pino que restou vem da TV. Este último pino chama-se Luciano Huck.  Ele também é judeu, como Sílvio Santos; ele também é apresentador de TV, faz caridade, dá prêmios, faz muita gente chorar de emoção nas tardes de sábado, é generoso e, o principal de tudo: ele também “não é político”. Apoiou e votou no Aécio, de quem é amigo, mas não é político; apoiou o impeachment da Dilma, mas não é político. Ah, ele também é tucano, mas não é político. Dizem que a esquerda no Brasil acabou. Mas quando a direita chega ao ponto de ter que ir atrás do Luciano Huck, é porque eles estão no fundo do poço. Alguém poderia falar no Bolsonaro como alternativa da direita.  Só que o Bolsonaro é um fenômeno de “parapsicopatia” e não de análise política. Luciano Huck, assim como Sílvio Santos, além de ser conhecido e cosmopolita, teria alcance político-eleitoral nas camadas populares, atingindo a mesma fatia de eleitorado do Lula. E a entrada dele na disputa pode realinhar os votos, fazendo transferências que garantam dois candidatos da direita no segundo turno (ele e o “engomadinho do Tietê”).

O mote é esse. Seu desdobramento pode não ser tão simples. O quadro político é igual às condições climáticas: muda de uma hora para outra. Mas a ressurreição do Sílvio Santos não é carta fora do baralho. O Sr. Abravanel pode voltar, com o nariz um pouquinho maior…

O CESAROPAPISMO NO RIO DE JANEIRO

cesaropapismo“Cesaropapismo” era o nome que recebia, no antigo Império Bizantino, a acumulação, pelo Imperador, do poder político e religioso. Isso ainda acontece em alguns países onde o Estado não é laico e já aconteceu, oficialmente,  no Brasil-Império, quando a Constituição de 1824, de caráter confessional, conferia ao Imperador o poder de tomar relevantes decisões em relação à Igreja Católica, submetendo a Igreja ao Estado. Desde a Proclamação da República, em 1889, que o Brasil é um Estado laico, com a clara separação da Igreja do Estado. A laicidade do Estado foi mantida em todas as Constituições republicanas, independentemente do regime político vigente.

É necessário esclarecer, entretanto, que isso não impede que um religioso convicto e fervoroso, seja de qualquer credo, assuma um cargo no Executivo. Ele não deve, entretanto, misturar e confundir os assuntos do Estado e do governo com sua fé religiosa, que no Brasil, segundo a Constituição de 1988,  é de plena liberdade. A própria Constituição define como crime qualquer tipo de preconceito, desrespeito ou perseguição por motivos religiosos.

Mas o que vem acontecendo na Cidade do Rio de Janeiro, desde a posse de Marcelo Crivella como Prefeito, em janeiro de 2017, mostra que a administração da cidade está tomando um rumo oposto ao Estado laico consagrado na Magna Carta. Crivella é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, que tem como líder máximo Edir Macedo, de quem o prefeito carioca é sobrinho. Crivella, desde sua posse, vem dando mostras muito claras de que governará segundo a cartilha de sua Igreja e tem até deixado de participar de eventos oficiais da cidade que, claramente, contradizem os dogmas de sua Igreja. Foi assim ao não participar da abertura do Carnaval, evento que tem como culminância a entrega simbólica da chave da cidade pelo Prefeito ao Rei Momo. Temos visto também como o Prefeito do Rio vem nomeando para cargos importantes na Prefeitura pessoas ligadas à sua Igreja. Isso, sem dúvida, dá o tom de sua administração. Recentemente foi noticiado que a Prefeitura patrocinaria um filme sobre a biografia do Bispo Macedo, ao mesmo tempo em que, tudo indica, ele não se entusiasma pela maior festa popular do Rio, o Carnaval. Foi emblemática a participação de Crivella, recentemente, em um evento na África do Sul, em que ele foi anunciado como “Bispo Crivella” e não como “Prefeito do Rio”. Mesmo sendo um evento religioso, causa espécie ele não ter sido anunciado, também, como Prefeito de uma das maiores e mais importantes cidades do Mundo. Gera dúvida, e até desconfiança, como será a administração de Crivella até o final do mandato. O Rio de Janeiro é um dos ícones da diversidade, sob todos os aspectos, e certos eventos que ensejam um posicionamento de repúdio por parte de sua religião não podem ser vistos pelo prefeito pelo lado religioso. Até porque ele é prefeito de uma cidade e não de uma comunidade religiosa. Já falamos do Carnaval. Mas, como ficam eventos importantes da cidade e como eles serão tratados pelo Prefeito-pastor? Festa de São Sebastião, Dia da Consciência Negra, que congrega pessoas de religiões afro-brasileiras, assim como a Procissão de Iemanjá, no final do ano? E a Parada do Orgulho Gay? E o “Reveillon”? Todos esses eventos estão no calendário turístico e cultural da cidade, só para citar alguns. Resta saber se, durante esses eventos, Crivella será Prefeito-Pastor ou apenas Prefeito. Ele tem sido Prefeito-Pastor, trazendo para a administração pública ditames de sua religião. Quero estar equivocado, mas tudo indica que o Rio viverá, até o final de 2020, um regime de Cesaropapismo, em que o Prefeito acumulará e confundirá políticas públicas e poder político com religiosidade. Tudo isso, apesar de nossa cidade chamar-se São Sebastião. Que o Prefeito conviva bem com o padroeiro, com cada um na sua. E que ele saiba separar as funções de Prefeito das de Pastor. Será muito bom para a sua Igreja e, principalmente, para a nossa cidade.