PSDB: DA SOCIAL-DEMOCRACIA AO DIREITISMO OPORTUNISTA

psdb fundaçãoAlguns partidos políticos possuem uma trajetória histórica que nos surpreendem. Isso pelo fato de seus princípios terem mudado tanto ao longo do tempo, a ponto de nem acreditarmos no que esses partidos foram no passado. É o caso do PSDB. Ele nem sempre foi de direita. Claro que há os famosos “discursos de campanha” e “discursos de governo”. O PT também passou por isso: de “movimento” a “instituição”. Mas no caso do PSDB foi além do permitido e imaginável. Não falo apenas de seu pragmatismo presente, em que o apoio a Temer é visto como essencial para 2018 (leitura que eu discordo). Mas, vejamos a história dos tucanos.

Corria o ano de 1988 e a Assembleia Constituinte entrava em um momento crucial: a votação dos direitos sociais. Havia um grupo conservador majoritário do PMDB que fazia parte do “Centrão”. O “Centrão”, naquela época, era a ala conservadora do PMDB que queria barrar as conquistas sociais na Constituição. Mas não era só o PMDB. O PMDB, como sabemos, ainda era uma “frente”, mesmo depois de alguns anos do fim do regime militar. No entanto, um grupo progressista do PMDB, que contava com nomes como Fernando Henrique Cardoso, Tasso Jereissati, José Serra e outros, não aceitava a postura majoritária do PMDB de se posicionar contra os avanços sociais na Constituição e esse grupo dissidente saía do PMDB e formava o PSDB (Partido da Social-Democracia Brasileira). O programa do recém-criado PSDB tinha um viés centro-esquerdista e seria uma opção para fazer frente aos partidos de direita. Em 1989, um ano após sua fundação, embora o PSDB não tenha participado da Frente Brasil Popular, que lançou Lula à Presidência, o partido acabaria apoiando Lula no segundo turno contra o candidato da direita, o “caçador de marajás” (essa postura do PSDB, hoje, seria impensável). Foi um momento singular da história tucana: ver Mário Covas pedindo votos para Lula. Mas parece que o eleitor tucano já começava a dar o tom do que seria o partido no futuro: não houve a transferência de votos de Mário Covas e Collor ganhou, para alívio das elites.

A primeira grande guinada para a direita do PSDB e sua desidentificação com a social-democracia ocorreria em um dos principais momentos da história tucana: em 1994 FHC ganhava a Presidência da República e suas medidas mostravam que o governo tucano já não representava as demandas de suas origens. FHC, segundo dizem, chegou a proferir a famosa frase “esqueçam o que escrevi!” Ele  havia sido um ícone das esquerdas nos anos 70 e suas obras inspiraram gerações de esquerdistas. Se, como senador, FHC ficou indignado com a tentativa de supressão dos direitos sociais, agora, como Presidente, ele próprio realizava tudo ao contrário do que  preconizara anteriormente. Nada como alguém do legislativo ir para o executivo para sabermos quem realmente ele é. O PSDB começava a se “endireitizar” (com a devida vênia do vocábulo, que não existe em nosso vernáculo).

Daí em diante, a história tucana é conhecidíssima: mais um mandato de FHC, com um governo neoliberal, apesar do “social-democrata” na sigla do partido: privatizações, ataques a direitos trabalhistas e previdenciários. Em dois mandatos de governo tucano, o PT cresceu. Serra, Alckmin e Aécio não conseguiram manter os tucanos, agora neoliberais, no poder. O partido assumiu sua posição de direita, não com alianças estratégicas, mas com práticas, ideias e lideranças que representavam a mais pura direita neoliberal.

Estamos em 2017. O Presidente do Partido, Aécio, foi afastado do Senado pelo STF e só não está preso porque tem o manto maldito do foro privilegiado. Serra e Alckmin, nomes históricos dos tucanos, estão desmoralizados com citações  em delações que envolvem propinas milionárias. O partido já não tem mais escrúpulos e, desesperado, resolveu apoiar o carcomido, impopular, criminoso e ilegítimo governo Temer, por puro pragmatismo. Está claro que eles pensam em 2018. Mas é claro que muitos “cabeças brancas” querem mesmo é se salvar. Vejo que muitos ficarão é sem cabelos (sem nenhuma provocação ao Serra) e também sem votos. Porque a cada dia que eles estiverem ao lado do Temer, denunciado por corrupção, obstrução de justiça e formação de quadrilha, mais votos eles irão perder. É uma pena, que em quase 30 anos de história o PSDB, que era uma opção de centro-esquerda, tenha se tornado tão direitista e oportunista. Oportunismo que lhe custará caro. E nem adianta chamar o “engomadinho do Tietê”. Até porque, lembrando outros tempos do partido, ele só vai comer pastéis em lanchonetes. Nunca provará da buchada de bode. Aí já é demais para o “Jânio de Grife”. O Nordeste te aguarda “cabra da peste”!…

OS TRÊS RODRIGOS

janotmaialouresRodrigo Janot, o Procurador-Geral da República; Rodrigo Loures, o ex-deputado do PMDB preso e comparsa de Temer; Rodrigo Maia, o Presidente da Câmara dos Deputados e aliado de Temer. Passada a vergonha do julgamento do TSE, que deu sobrevida a Temer, mas não irá livrá-lo do “game over”, o Presidente-Golpista em exercício ainda terá que enfrentar muitos revezes para que seu joguinho dure até o final de 2018. Esta semana, em razão do julgamento que sepultou a Justiça Eleitoral no Brasil, o Mordomo do Jaburu conseguiu unir direita e esquerda contra ele. Isso é que é unanimidade. E nos revezes que o Sr. Temer irá enfrentar, os três Rodrigos serão fundamentais para o seu destino e de seus cúmplices protegidos pelo manto imoral do foro privilegiado. O Mordomo será denunciado ao STF por corrupção, formação de quadrilha e obstrução de Justiça. Temer precisa de 171 (número emblemático) deputados para que as denúncias não sigam adiante e, evidentemente, a atuação e liderança do Presidente da Câmara serão testadas. Isso porque ele terá que ser mais do que líder, pois muitos pensarão: “eu livro Temer, e morro politicamente; então, que morra ele!” (sem querer imitar o Aécio). Rodrigo Maia está sendo pressionado por todos os lados. Há uma ala recalcitrante dos tucanos que, na prática, já desembarcou do governo. De qualquer modo, sobre o Rodrigo Maia, parece que Temer ainda pode ter algum controle. Mas ainda não será o suficiente. Isso porque, o que já está tirando o sono do Mordomo são os outros dois Rodrigos. O Janot não vai deixar barato. As denúncias são gravíssimas e só uma suspeita de tamanha magnitude seria suficiente para o Presidente se afastar do cargo para defender-se (mas Temer não é magnânimo a esse ponto). E há um ingrediente a mais: a reação indignada da opinião pública após o julgamento que sepultou o TSE será um balizador para aqueles deputados que, pelo menos aparentemente, queiram se mostrar ao lado do povo. Em relação a esse segundo Rodrigo, Temer pode até reunir a sua cúpula jurídica, a começar pelo novo Ministro da Justiça, Torquato Jardim, que na verdade nada mais é do que seu advogado particular pago com dinheiro público. E o terceiro Rodrigo? Aquele rapaz da mala com meio milhão, vaidoso, que não queria ter os cabelos cortados como qualquer outro bandido presidiário? Ele sabe de muito mais. Ele sabe de coisas até que Temer pensa que ele não sabe.  O advogado do pobre coitado diz que não haverá delação. Sabe-se lá até quando…

A questão é que Temer virou um vilão tão barato, que nem os outros vilões são capazes de darem sua vida por ele.  Os três Rodrigos terão papéis diferentes no novo cenário pós-TSE. Mas a luta será árdua, muito árdua. Porque o cara está obsessivamente empenhado em concluir o mandato tungado da Dilma. E se nem a dona Marcela conseguir convencê-lo, aí, se mesmo com esse recurso com requintes de deleite ele não desistir, pela primeira vez terei que concordar com Temer e dizer que o poder é, realmente, afrodisíaco.

A RESSURREIÇÃO DE SÍLVIO SANTOS

silvio santos.jpgEles não são “políticos”. Eles são gestores, administradores, empreendedores. O pseudo-apoliticismo tem entrado em campo na história política recente do Brasil. E tem sido uma estratégia da direita, para alijar a esquerda da disputa. O ano era 1989. Corria a maior campanha para a Presidência da República da história do Brasil. Collor (PRN), Lula(PT) e Brizola (PDT) disputavam as duas vagas no segundo turno. Mário Covas (PSDB), Maluf (PDS), Ulysses Guimarães (PMDB) vinham por fora. Guilherme Afif (PL) chegou a mostrar fôlego. Os demais eram meros figurantes. Tanto de direita como de esquerda. No meio da campanha, o inusitado acontece. O desconhecido Armando Corrêa, do igual desconhecido Partido Municipalista Brasileiro,  anuncia a desistência de sua candidatura. Em seu lugar, o PMB teria como candidato o Sr. Senor Abravanel, mais conhecido como Sílvio Santos. O apresentador de TV seria o novo candidato da desconhecida legenda, com o número 26. Foi impactante. Foi inimaginável. Foi até engraçado ver o Sílvio Santos fazendo campanha pedindo votos para Presidente e falando que para votar nele tinha que assinalar o número 26. Ainda não existiam urnas eletrônicas e o voto seria no papel. Mas as cédulas já estavam impressas com o nome de Armando Corrêa. Então, o Sr. Abravanel teve que fazer a campanha pelo número. “Que loucura!”(alguns diziam); “Estão de sacanagem!” (diziam outros).

Mas a coisa era séria. Há momentos em que a direita não brinca. Só que a candidatura Sílvio Santos malogrou porque o TSE descobriu que o registro do PMB estava vencido. E o partido e seu novo candidato foram eliminados da disputa. A entrada inesperada do apresentador de TV tinha uma finalidade: evitar que a esquerda chegasse no segundo turno, fosse com Lula ou Brizola. A fatia do eleitorado de Sílvio Santos estava nas camadas populares e ele, com certeza, tiraria mais votos de Lula do que de Collor, fazendo assim um realinhamento na distribuição dos votos de modo a garantir dois candidatos de direita no segundo turno. Mas em 1989 eles ainda teriam que usar outros artifícios para levar o “caçador de marajás” para o Planalto.

Chegamos em 2017. Estamos a menos de 1 ano e meio para a eleição presidencial. Lula lidera todas as pesquisas. E, em um cenário de segundo turno, parece que dificilmente perderia. Com a morte política de Aécio (aquele que disse que matava) e com a evidência do envolvimento de Alckmin e Serra em escândalos e propinas, restou ao PSDB (e à direita, como um todo), o “engomadinho do Tietê”, aquele tal “Jânio de grife”, que não é político,  que come pastel na lanchonete, viaja de ônibus, varre a rua e já até deu uma de grafiteiro. Mas ele não tem fôlego para uma eleição nacional. Ele é provinciano. Ele não encararia o Nordeste e o próprio Nordeste não vê qualquer motivo para votar nele. Isso sem contar as histórias nada abonadoras sobre o seu passado na “Paulistur”, além de acusações de invasão de sua propriedade a terrenos públicos. Parece que a direita jogou por um tempão aquele joguinho do “resta 1” e o único pino que restou vem da TV. Este último pino chama-se Luciano Huck.  Ele também é judeu, como Sílvio Santos; ele também é apresentador de TV, faz caridade, dá prêmios, faz muita gente chorar de emoção nas tardes de sábado, é generoso e, o principal de tudo: ele também “não é político”. Apoiou e votou no Aécio, de quem é amigo, mas não é político; apoiou o impeachment da Dilma, mas não é político. Ah, ele também é tucano, mas não é político. Dizem que a esquerda no Brasil acabou. Mas quando a direita chega ao ponto de ter que ir atrás do Luciano Huck, é porque eles estão no fundo do poço. Alguém poderia falar no Bolsonaro como alternativa da direita.  Só que o Bolsonaro é um fenômeno de “parapsicopatia” e não de análise política. Luciano Huck, assim como Sílvio Santos, além de ser conhecido e cosmopolita, teria alcance político-eleitoral nas camadas populares, atingindo a mesma fatia de eleitorado do Lula. E a entrada dele na disputa pode realinhar os votos, fazendo transferências que garantam dois candidatos da direita no segundo turno (ele e o “engomadinho do Tietê”).

O mote é esse. Seu desdobramento pode não ser tão simples. O quadro político é igual às condições climáticas: muda de uma hora para outra. Mas a ressurreição do Sílvio Santos não é carta fora do baralho. O Sr. Abravanel pode voltar, com o nariz um pouquinho maior…

O CESAROPAPISMO NO RIO DE JANEIRO

cesaropapismo“Cesaropapismo” era o nome que recebia, no antigo Império Bizantino, a acumulação, pelo Imperador, do poder político e religioso. Isso ainda acontece em alguns países onde o Estado não é laico e já aconteceu, oficialmente,  no Brasil-Império, quando a Constituição de 1824, de caráter confessional, conferia ao Imperador o poder de tomar relevantes decisões em relação à Igreja Católica, submetendo a Igreja ao Estado. Desde a Proclamação da República, em 1889, que o Brasil é um Estado laico, com a clara separação da Igreja do Estado. A laicidade do Estado foi mantida em todas as Constituições republicanas, independentemente do regime político vigente.

É necessário esclarecer, entretanto, que isso não impede que um religioso convicto e fervoroso, seja de qualquer credo, assuma um cargo no Executivo. Ele não deve, entretanto, misturar e confundir os assuntos do Estado e do governo com sua fé religiosa, que no Brasil, segundo a Constituição de 1988,  é de plena liberdade. A própria Constituição define como crime qualquer tipo de preconceito, desrespeito ou perseguição por motivos religiosos.

Mas o que vem acontecendo na Cidade do Rio de Janeiro, desde a posse de Marcelo Crivella como Prefeito, em janeiro de 2017, mostra que a administração da cidade está tomando um rumo oposto ao Estado laico consagrado na Magna Carta. Crivella é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, que tem como líder máximo Edir Macedo, de quem o prefeito carioca é sobrinho. Crivella, desde sua posse, vem dando mostras muito claras de que governará segundo a cartilha de sua Igreja e tem até deixado de participar de eventos oficiais da cidade que, claramente, contradizem os dogmas de sua Igreja. Foi assim ao não participar da abertura do Carnaval, evento que tem como culminância a entrega simbólica da chave da cidade pelo Prefeito ao Rei Momo. Temos visto também como o Prefeito do Rio vem nomeando para cargos importantes na Prefeitura pessoas ligadas à sua Igreja. Isso, sem dúvida, dá o tom de sua administração. Recentemente foi noticiado que a Prefeitura patrocinaria um filme sobre a biografia do Bispo Macedo, ao mesmo tempo em que, tudo indica, ele não se entusiasma pela maior festa popular do Rio, o Carnaval. Foi emblemática a participação de Crivella, recentemente, em um evento na África do Sul, em que ele foi anunciado como “Bispo Crivella” e não como “Prefeito do Rio”. Mesmo sendo um evento religioso, causa espécie ele não ter sido anunciado, também, como Prefeito de uma das maiores e mais importantes cidades do Mundo. Gera dúvida, e até desconfiança, como será a administração de Crivella até o final do mandato. O Rio de Janeiro é um dos ícones da diversidade, sob todos os aspectos, e certos eventos que ensejam um posicionamento de repúdio por parte de sua religião não podem ser vistos pelo prefeito pelo lado religioso. Até porque ele é prefeito de uma cidade e não de uma comunidade religiosa. Já falamos do Carnaval. Mas, como ficam eventos importantes da cidade e como eles serão tratados pelo Prefeito-pastor? Festa de São Sebastião, Dia da Consciência Negra, que congrega pessoas de religiões afro-brasileiras, assim como a Procissão de Iemanjá, no final do ano? E a Parada do Orgulho Gay? E o “Reveillon”? Todos esses eventos estão no calendário turístico e cultural da cidade, só para citar alguns. Resta saber se, durante esses eventos, Crivella será Prefeito-Pastor ou apenas Prefeito. Ele tem sido Prefeito-Pastor, trazendo para a administração pública ditames de sua religião. Quero estar equivocado, mas tudo indica que o Rio viverá, até o final de 2020, um regime de Cesaropapismo, em que o Prefeito acumulará e confundirá políticas públicas e poder político com religiosidade. Tudo isso, apesar de nossa cidade chamar-se São Sebastião. Que o Prefeito conviva bem com o padroeiro, com cada um na sua. E que ele saiba separar as funções de Prefeito das de Pastor. Será muito bom para a sua Igreja e, principalmente, para a nossa cidade.

PMDB – O GOVERNISMO OPORTUNISTA E SEM VOTOS

pmdb.jpgO PMDB, uma continuidade do antigo MDB dos tempos do bipartidarismo, é o maior partido político brasileiro. Seu surgimento remonta à Reforma Partidária de 1979, quando o governo militar, visando dividir as oposições, flexibilizou as exigências para a formação de novos partidos, reinstalando o pluripartidarismo no Brasil. Porém, muitos dos antigos militantes do antigo MDB viam que o partido deveria se constituir em uma “frente” contra o regime militar e entendiam que o partido não deveria se fragmentar, embora abrigasse diversos matizes ideológicos. Por algum tempo, durante os anos 1980, poderíamos dizer que o PMDB era uma “frente”. No entanto, há bastante tempo que o PMDB pode ser resumido a uma única palavra: “governismo”. Só para termos uma ideia: desde o fim dos governos militares, o PMDB ou foi governo ou foi parte fundamental na base de apoio do governo. Nunca deixou de ser governo. Há um aspecto interessante no PMDB: ele é o maior partido, tem as maiores bancadas, tem gigantesca estrutura em termos de diretórios (herdada até dos tempos do bipartidarismo). Mas nunca conseguiu eleger o Presidente da República. Parece que o papel do PMDB é oferecer sua grande bancada e estrutura como moeda valiosa de barganha. E por isso, mais do que qualquer partido, ele foi o que mais esteve no governo. Mesmo sem ganhar uma eleição para Presidente. E, quando o PMDB chegou à Presidência, a mesma caiu em seu colo: foi com Sarney, em 1985 em virtude da morte de Tancredo; foi com Itamar em 1992, com o impeachment de Collor e agora, em 2016, com Temer, após o golpe legislativo-midiático que tirou Dilma do poder. Ao chegar à Presidência (mesmo sem votos) ou ao ser base de apoio de todos os governos de 1985 para cá, o PMDB participou de planejamentos econômicos, políticas públicas, mudou planos de governo como condição para oferecer seu apoio e isso nos leva, sem nenhum risco, a dizer que, aquilo que o Brasil é, nos últimos 33 anos, é muito mais resultado do PMDB do que dos outros partidos que elegeram presidentes.

Hoje, o PMDB é governista e também governo. Um governo impopular, talvez o mais impopular de toda história; um governo atolado em escândalos, onde, toda semana um ex-ministro ou deputado ligado a Temer é preso, delatado ou denunciado. Os poucos que restam, como Moreira Franco, vulgo “Angorá”, estão protegidos pela membrana imoral do tal foro privilegiado. Até o Temer precisa desse maldito instituto para não ser preso. O escândalo do “Jaburugate” é apenas uma amostra do estado de putrefação moral e política a que chegou o PMDB. Saudades de Ulysses Guimarães e Teotônio Vilela. Hoje, em seus lugares, temos Eduardo Cunha e Romero Jucá. Sabemos que muitos outros partidos também passam por situação similar. Mas o PMDB, que tanto chantageou governos quando não era governo, hoje vive uma situação em que podemos dizer que está no fio da navalha. Por quê?

Porque 2018 se aproxima e o PMDB não está no jogo presidencial. A eleição para presidente vai ser disputada entre PT, PSDB e uma provável terceira via que não será o PMDB. Independente do julgamento do TSE, mesmo que seja favorável ao Temer e sua camarilha, quem vai fazer o “papel de PMDB” é o PSDB. Porque seja qual for o resultado desse julgamento, apoiar o governo do Mordomo até 2018, para quem tem pretensões à Presidência, vai ser uma “máquina de tirar votos”. Por isso, o PSDB certamente não ficará nessa canoa furada. E aí o governo Temer acaba.

O oportunismo sempre foi uma marca registrada do PMDB. Apoiar quem está no poder, chegar à Presidência sem votos, chantagear candidatos e governos em razão de sua imensa bancada. Sabe-se que uma ala mais jovem do PSDB, que ainda tem pretensões políticas mais futuras, não quer permanecer na base de apoio ao agonizante governo Temer. E sabe-se também que o PMDB não tem candidato e muito menos votos para Presidente em 2018. Já o PSDB tem. O algoritmo é simples: salvar o governo do Sr. Temer e dificultar ainda mais uma eleição difícil e acirrada como será a de 2018? Não, obrigado. Para azar do Sr. Temer, Fernando Henrique sabe disso. E o desembarque tucano será uma questão de tempo. Mas aí teremos mais um outro capítulo intrincado de nossa agitada e pitoresca história política. Pitoresca porque, acreditem, existe uma campanha, talvez inédita na história da humanidade, pelas “indiretas já!” Vai explicar isso!…

A SACANAGEM E O “DIA D”

aéciodia dEm uma das conversas captadas no escândalo do “Jaburugate”, Aécio Neves dizia a seu interlocutor que, logo depois da derrota sofrida nas urnas em 2014, seu partido, o PSDB, iria entrar com um pedido de impugnação da chapa Dilma-Temer “só para sacanear o PT”. Essas foram as palavras do derrotado candidato tucano. Mal sabia ele que, algum tempo depois, ficaria aliado de Temer, justamente aquele que acabaria sendo prejudicado pela sua “sacanagem”. Na verdade, Aécio, em alguns aspectos, faz lembrar o modo lacerdista de fazer política: ele é elitista e golpista e depois da derrota em 2014, seu lema foi uma paráfrase do que o antigo udenista dizia sobre Getúlio, só que mudando Getúlio por Dilma: “não podemos deixar que Dilma governe, vamos incendiar o país, vamos travar tudo”. Palavras de quem, com certeza, nunca quis o bem do Brasil. Ele ainda não falava em mandar matar ninguém (o que só saberíamos depois), mas foi um dos maiores articuladores do conluio que acabaria tirando Dilma da Presidência. Com o escândalo do “Jaburugate”, não apenas a máscara de Temer cairia, mas também a sua. Os desdobramentos do escândalo levaram a seu afastamento do Senado e ao confinamento em sua luxuosa casa em Brasília. Já em relação a Temer, a uma reação desesperada para manter-se no poder, para salvar a si e seus fiéis escudeiros de uma prisão pós-Presidência. Apesar do clamor das ruas, Temer diz que não sai. Apesar dos 13 pedidos de impeachment, o Sr. Maia, aliado de Temer que preside a Câmara,  não dará andamento a nenhum. Restou, então, a “sacanagem do Aécio”, que, nesse momento, acaba se tornando uma alternativa mais rápida (embora também mais honrosa), para a saída do Mordomo do Jaburu.

É verdade, e nesse aspecto temos que concordar com o Ministro Gilmar Mendes, que o Judiciário não tem como atribuição resolver crise política. E que pedidos de vista (que protelam os  julgamentos) são expedientes comuns na Justiça. Mas também é verdade que a “sacanagem do Aécio” acabou jogando no colo do TSE um peso que, queiram ou não, acabará indo além de suas atribuições. O julgamento da “sacanagem do Aécio” está marcado para o próximo dia 6 de junho. Ironicamente, o dia que entrou para a história como sendo o “Dia D”, com o desembarque das tropas aliadas na Normandia e a consequente libertação da França do domínio nazista. E poderá, também, ser o “Dia D” na crise política que tomou conta do país. Temer aposta tudo em um pedido de vista, para que haja a postergação do julgamento e com isso possa ganhar tempo e alguma sobrevida.  Se nenhum juiz pedir vista e a chapa Dilma-Temer for cassada, ainda caberia o recurso, mas a situação do Mordomo ficaria por um fio. Mas esse nosso “Dia D” também pode ser assim chamado por ser o prazo que o PSDB deu a si mesmo para decidir se continua ou desembarca do governo cambaleante de Temer. Assim como Dilma começou a cair quando o PMDB lhe tirou o apoio, o mesmo ocorrerá com Temer caso o PSDB desembarque de sua já carcomida base aliada.

Repito, um pedido de vista é algo comum no Judiciário. Mas a desconfiança do povo, infelizmente, já atinge os três poderes. De uns tempos para cá, os Ministros do STF são mais conhecidos do que os próprios Ministros de Estado e há uma indignação profunda com decisões partidárias vindas de um poder que deveria primar pelo equilíbrio. Pode não ser, mas muitas vezes o povo vê cheiro de “acordão” no ar.  Mas o Judiciário tem uma grande chance nesse “Dia D”. Se hoje o Executivo e o Legislativo viraram a cara para as demandas do povo, o Judiciário pode (e deve) ocupar o vácuo deixado por aqueles dois carcomidos poderes. Queiram ou não suas excelências do TSE, caiu no colo de vocês a “sacanagem do Aécio”. Que não seria quase nada se não fosse o atual momento. E que pode até mesmo começar a resolver a atual crise política. Nunca pensei que uma “sacanagem” pudesse resolver alguma coisa. Principalmente vinda do Aécio.

TEMER NÃO É GETÚLIO NEM JANGO – DIRETAS JÁ!

didretas jáO escândalo do “Jaburugate” lançou o Brasil em uma das maiores crises políticas de sua história, só comparada, talvez, a 1954, quando Vargas deu um tiro no próprio peito, derrotou seus adversários e adiou o golpe militar por 10 anos; ou ainda a 1961, quando a renúncia de Jânio Quadros fez com que setores golpistas implantassem o sistema parlamentarista para tirar os poderes de João Goulart, o vice-presidente legitimamente eleito, isto é, com seus próprios votos, que viria, igualmente de forma legítima, ocupar a presidência. Mas Temer não é Getúlio, porque não é legítimo e nem popular e, caso venha a dar um tiro no próprio peito, o povo, ao contrário do que fez com Getúlio, sairá às ruas para comemorar.  Ele também não é João Goulart, pois não elegeu-se vice-presidente com seus próprios votos e sim como “vagão” de uma “locomotiva” de 54 milhões de votos dados a Dilma.

Desde quando estourou o “Jaburugate” que Temer insiste em fazer parecer que o país vive um clima de normalidade, desafiando a própria realidade. Mas a crise só se agrava. O que vem acontecendo no Congresso e nas ruas mostram isso. Temer diz que não renunciará (até quando?), muito embora isso dependa muito do comportamento de sua base de apoio, da qual já vemos desembarcar ministros, deputados e partidos. A insistência de Temer em manter-se no cargo só agrava a crise. E esse apego tem uma explicação: a manutenção do foro privilegiado, tanto para ele como para seus amigos palacianos. Esse maldito “foro”, coisa que faz lembrar a França antes da Revolução de 1789. Enquanto isso, a crise só aumenta. O que fazer? Qual a saída?

Primeiro, é necessário esclarecer que só raciocino com a hipótese da saída do Sr. Temer do cargo, seja via renúncia ou TSE. Apesar dos 13 pedidos de impeachment já protocolados, o Sr. Maia, seu aliado, não dará andamento a nenhum. E o que fazer após a vacância da Presidência? Reza a Constituição que o Sr. Maia assuma e convoque eleições indiretas, ou seja, pelo Congresso, para eleger um novo presidente e vice. Mas aí está o problema: como que um Congresso desacreditado, com a maioria de seus integrantes sendo citados/ investigados nas mais variadas e graves denúncias, poderá indicar um novo presidente? O que sairá daí? Pois então, que se mude a Constituição e sejam estabelecidas eleições diretas para presidente e vice após a queda do último pino do golpe, o Sr. Temer. Quando eles quiseram, eles mudaram a Constituição rapidamente para limitar os gastos públicos. Não pode haver “acordão”. Temos que ter eleição pelo povo. Podemos ter várias dúvidas, mas a única certeza que temos é que um outro presidente ilegítimo só agravará a crise política. Isso, se ela não se tornar institucional. Por isso, “Fora Temer e Diretas Já!”