FINANCIAMENTO E ELITIZAÇÃO DO CARNAVAL

setor zerocamaroteSou do tempo da Associação das Escolas de Samba; sou do tempo em que o Carnaval do Rio lembrava o futebol, pois só 4 escolas eram “grandes”: Portela, Mangueira, Salgueiro e Império Serrano; sou do tempo dos desfiles na Avenida Presidente Vargas, com entrada franca para o povo; sou do tempo da comissão de frente alinhada, vestida de fraque e cartola e portando bastão; sou do tempo em que um samba-enredo não tinha a obrigação de conter, em sua letra, o nome da escola de samba; sou do tempo em que a bateria era o quesito-desempate na apuração; sou do tempo de sambas-enredo antológicos, feitos por apenas um ou, no máximo, dois autores; sou do tempo… Sou do tempo…

O Carnaval mudou. Não sei se para melhor ou para pior. Isso eu não sei. Mas uma coisa pelo menos eu sei:  tenho saudades dos tempos relembrados acima, onde o carnaval era genuíno, muito mais espontâneo e popular. Os desfiles das escolas de samba viraram um megaevento, principalmente a partir de 1984, ano da inauguração do Sambódromo e de fundação da LIESA. A maior festa popular perdeu muito do seu glamour e originalidade, mas virou um espetáculo tipo exportação, onde, durante dois dias, o Carnaval se transforma em um espetáculo hollywoodiano, com requintes de tecnologias, efeitos especiais, drones e sabe-se lá mais o quê. Existe uma tese que afirma que, depois que a organização dos desfiles passou para a LIESA, o evento ficou muito melhor, mais profissional, mais atraente. Antes, era a Prefeitura que administrava o evento. Os custos do espetáculo aumentaram. Por isso, tornou-se necessário arrecadar para manter o padrão da festa. E, seguindo o raciocínio lógico, isso implicou, insofismavelmente, na elitização do Carnaval.

Ultimamente, ganhou notoriedade o anúncio feito pelo Prefeito-pastor Crivella, de que a Prefeitura cortará em 50% o subsídio dado às escolas de samba para o Carnaval. Tal subsídio, que até então era de 2 milhões por agremiação, passará a 1 milhão. Soubemos que o custo médio para uma escola realizar o desfile gira em torno de 12 milhões. O que perguntamos é: esse 1 milhão a menos é suficiente para ameaçar a realização dos desfiles, como afirma a LIESA em nota oficial ? Sabemos que essa verba não deixa de ser um investimento para a Prefeitura, se levarmos em conta o que entra na cidade por conta do Carnaval. Isso é verdade e, nesse ponto, a LIESA não deixa de estar correta. Mas sabemos também que, depois de mais de 30 anos organizando os desfiles, com o Carnaval do Rio sendo uma das marcas mais fortes de nosso turismo e cultura, com as escolas tendo mega-patrocínios e diversas fontes de receitas, como o direito de transmissão dos desfiles e algumas até firmando parcerias com grandes empresas, é de espantar que, por causa de 1 milhão,  os desfiles fiquem ameaçados.

E também não podemos esquecer que, nas três últimas décadas, principalmente, o poder público já fez muito pelos desfiles das escolas de samba. Claro que a LIESA é especialista, tornou o espetáculo maravilhoso. Mas, competências e excelências à parte, não esqueçamos: quem construiu o Sambódromo? o poder público. Quem construiu a Cidade do Samba? o poder público. Quem realiza a limpeza do Sambódromo em dias de desfile? o poder público. Quem faz a segurança e o controle do tráfego nos dias do desfile? o poder público. E o poder público fez e faz  tudo isso, mesmo sendo os desfiles um evento privado, onde são vendidos ingressos a preços muito caros. Depois de tanto tempo administrando o Carnaval e dando ao mesmo um tom de excelência, entendemos que já passou da hora de a LIESA e suas afiliadas romperem esse cordão umbilical do poder público, até porque o poder público sempre esteve presente, principalmente em obras e serviços estruturais do evento. Claro que as escolas são marcas fortíssimas e têm como não depender dessa verba.

A lamentar, apenas, a marca elitista que caracteriza os desfiles desde a “Era Sambódromo”. O grande público, que antes era dono do espetáculo, ficou restrito a verdadeiros “guetos”, que são os setores 1, 12 e 13 (início e final do desfile). Isso, sem contar aqueles que madrugam para terem um lugar no conhecido “setor zero” (à margem do Mangue). Fora isso, nos camarotes e setores nobres, vemos um desfile de artistas globais, políticos corruptos e convidados privilegiados, desfrutando dos privilégios da festa que um dia foi toda do povo. É uma pena que este tenha sido um dos custos do Carnaval “profissionalizado”. E ainda não falamos das escolas dos grupos de acesso, ricas em tradições, histórias e produção cultural, que estão praticamente esquecidas nos desfiles da Intendente Magalhães. O Carnaval mudou. Mas bem que os desfiles poderiam voltar a ter algum glamour de outrora. Isso para que, daqui a algumas décadas, o espetáculo do Sambódromo não corra o risco de ser chamado de outra coisa, quiçá bem diferente de “samba” ou “carnaval”…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s