A RESSURREIÇÃO DE SÍLVIO SANTOS

silvio santos.jpgEles não são “políticos”. Eles são gestores, administradores, empreendedores. O pseudo-apoliticismo tem entrado em campo na história política recente do Brasil. E tem sido uma estratégia da direita, para alijar a esquerda da disputa. O ano era 1989. Corria a maior campanha para a Presidência da República da história do Brasil. Collor (PRN), Lula(PT) e Brizola (PDT) disputavam as duas vagas no segundo turno. Mário Covas (PSDB), Maluf (PDS), Ulysses Guimarães (PMDB) vinham por fora. Guilherme Afif (PL) chegou a mostrar fôlego. Os demais eram meros figurantes. Tanto de direita como de esquerda. No meio da campanha, o inusitado acontece. O desconhecido Armando Corrêa, do igual desconhecido Partido Municipalista Brasileiro,  anuncia a desistência de sua candidatura. Em seu lugar, o PMB teria como candidato o Sr. Senor Abravanel, mais conhecido como Sílvio Santos. O apresentador de TV seria o novo candidato da desconhecida legenda, com o número 26. Foi impactante. Foi inimaginável. Foi até engraçado ver o Sílvio Santos fazendo campanha pedindo votos para Presidente e falando que para votar nele tinha que assinalar o número 26. Ainda não existiam urnas eletrônicas e o voto seria no papel. Mas as cédulas já estavam impressas com o nome de Armando Corrêa. Então, o Sr. Abravanel teve que fazer a campanha pelo número. “Que loucura!”(alguns diziam); “Estão de sacanagem!” (diziam outros).

Mas a coisa era séria. Há momentos em que a direita não brinca. Só que a candidatura Sílvio Santos malogrou porque o TSE descobriu que o registro do PMB estava vencido. E o partido e seu novo candidato foram eliminados da disputa. A entrada inesperada do apresentador de TV tinha uma finalidade: evitar que a esquerda chegasse no segundo turno, fosse com Lula ou Brizola. A fatia do eleitorado de Sílvio Santos estava nas camadas populares e ele, com certeza, tiraria mais votos de Lula do que de Collor, fazendo assim um realinhamento na distribuição dos votos de modo a garantir dois candidatos de direita no segundo turno. Mas em 1989 eles ainda teriam que usar outros artifícios para levar o “caçador de marajás” para o Planalto.

Chegamos em 2017. Estamos a menos de 1 ano e meio para a eleição presidencial. Lula lidera todas as pesquisas. E, em um cenário de segundo turno, parece que dificilmente perderia. Com a morte política de Aécio (aquele que disse que matava) e com a evidência do envolvimento de Alckmin e Serra em escândalos e propinas, restou ao PSDB (e à direita, como um todo), o “engomadinho do Tietê”, aquele tal “Jânio de grife”, que não é político,  que come pastel na lanchonete, viaja de ônibus, varre a rua e já até deu uma de grafiteiro. Mas ele não tem fôlego para uma eleição nacional. Ele é provinciano. Ele não encararia o Nordeste e o próprio Nordeste não vê qualquer motivo para votar nele. Isso sem contar as histórias nada abonadoras sobre o seu passado na “Paulistur”, além de acusações de invasão de sua propriedade a terrenos públicos. Parece que a direita jogou por um tempão aquele joguinho do “resta 1” e o único pino que restou vem da TV. Este último pino chama-se Luciano Huck.  Ele também é judeu, como Sílvio Santos; ele também é apresentador de TV, faz caridade, dá prêmios, faz muita gente chorar de emoção nas tardes de sábado, é generoso e, o principal de tudo: ele também “não é político”. Apoiou e votou no Aécio, de quem é amigo, mas não é político; apoiou o impeachment da Dilma, mas não é político. Ah, ele também é tucano, mas não é político. Dizem que a esquerda no Brasil acabou. Mas quando a direita chega ao ponto de ter que ir atrás do Luciano Huck, é porque eles estão no fundo do poço. Alguém poderia falar no Bolsonaro como alternativa da direita.  Só que o Bolsonaro é um fenômeno de “parapsicopatia” e não de análise política. Luciano Huck, assim como Sílvio Santos, além de ser conhecido e cosmopolita, teria alcance político-eleitoral nas camadas populares, atingindo a mesma fatia de eleitorado do Lula. E a entrada dele na disputa pode realinhar os votos, fazendo transferências que garantam dois candidatos da direita no segundo turno (ele e o “engomadinho do Tietê”).

O mote é esse. Seu desdobramento pode não ser tão simples. O quadro político é igual às condições climáticas: muda de uma hora para outra. Mas a ressurreição do Sílvio Santos não é carta fora do baralho. O Sr. Abravanel pode voltar, com o nariz um pouquinho maior…

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